Ir para conteúdo

Trajetória da diretora trans Laysa Machado é tema de curta-metragem; assista teaser de Morada Transitória

“Para mim, o poder vem do feminino”, diz Laysa Machado

Não há quem não se surpreenda, se emocione ou suspire ao conhecer os dizeres, o sorriso e a dura – e vitoriosa! – trajetória pessoal e profissional de Laysa Carolina MachadoNão somente por ser professora e diretora num país de gizes quebrados e lousas pichadas, ou então por ser historiadora e atriz que esmiúça, canta e expõe marcas profundas de personas tão brasileiras. Mas, sobretudo, pelos passos de uma mulher transexual, de origem indígena e negra, que transgrediu e superou as vulnerabilidades da vida para conseguir chegar lá. 


São por esses e outros motivos que a paranaense de 42 anos, que já foi destaque em mídias como a Folha de SP, O Globo, UOL, Contigo!, Sou + Eu e aqui no NLucon, acaba de se tornar tema do documentário “A Morada Transitória” [Cine Monstro Vídeo, 2014, 20 minutos], do diretor Jansen Hinkel, que estreia em maio.

Para a obra, Laysa revisitou as moradas físicas e temporais mais adversas. Levou a equipe para São José dos Pinhais, no Paraná, onde vive com o marido, e tocou as lembranças e marcas que outrora se fixaram no silêncio das paredes e da memória. Trouxe de volta ao coração a infância pobre, a perda da mãe aos 14 anos, o acolhimento de um padre, os preconceitos que insistiam derrubá-la e o [até então] impensado sucesso profissional, digno de uma verdadeira heroína pós-moderna.
Em uma das cenas, discursa dentro de uma escola e de uma Igreja católica, onde fala sobre a importância do padre em seus estudos e também sobre a sua cirurgia de redesignação sexual, popularmente conhecida como mudança de sexo. Desrespeito? “Meu corpo não é um pecado”, adianta-se Laysa, que tece críticas sobre a sociedade binarista e revela com emoção o contato com os atuais alunos. Emoção, críticas, conceitos e novos conceitos não vão faltar…
No teaser divulgado na última semana, a professora diz: “Essa sociedade binarista é ditatorial, pois existem outras possibilidades. A travesti e a transexual traz em si, querendo ou não, [o discurso]: “Olha, eu não quero esse pseudo poder masculino, eu acho que o poder vem do feminino”. Um grande exemplo de profissional, de persona LGBT,  de mulher feminista e de ser humano.

A direção de fotografia é de André Senna, a edição de Marcos Serafim, o som de Lô Rosa, animação de Klewerton Bortoli. A estreia é prevista para o dia 21 de maio, no Sesi/ São José dos Pinhais. 

“Curta procura humanizar personagem que a sociedade tratou de marginalizar e invisibilizar”


Em conversa com o NLucon, o diretor Jansen Hinkel [ao lado, com Laysa] diz que espera que A Morada Transitória faça com que o espectador compreenda as diferenças – sejam elas de qualquer natureza – como algo mínimo e sem importância. Leia:

– Como surgiu o desafio de dirigir o documentário A Morada Transitória?

O projeto veio a convite da própria Laysa e aceitei fazer porque a temática é propícia para um documentário devido ao seu valor político-social. Além de ser possível, através do assunto retratado, buscar poesia no trabalho final. Conheci a Laysa em 2011, na pré-produção do curta-metragem O Lugar de Todos, que foi o trabalho de conclusão de curso da Laura Montalvão. Depois, a chamei para participar do meu trabalho também, o curta-metragem Marcas da Agonia, que fizemos em 2012.
– Foi complicado resumir em 20 minutos uma personagem riquíssima com tantas histórias importantes? Quais foram os recortes?
É impossível resumir a vida de alguém em um curta-metragem, sendo que nem em um longa-metragem acredito ser possível. O que fizemos foi um recorte, que é o que o cinema de ficção ou não faz. Observamos durante três dias a vida íntima da Laysa em sua chácara, onde vive com o marido e a filmamos em lugares importantes para ela, como o centro da cidade, a igreja e a escola onde trabalha como professora e diretora auxiliar. O curta segue os seguintes caminhos temáticos: Laysa atriz – seu texto teatral, seus poemas e seus trabalhos com atuação – Laysa mulher – sua vida íntima, casa, relacionamento amoroso e história de vida – Laysa professora – seu trabalho com educação e a repercussão na mídia – e a Laysa militante – sua visão sócio-política da condição e inserção da pessoa trans no mundo.
– Qual é a mensagem da história da Laysa neste curta?

O documentário se propõe humanizar, por meio de entrevista e observação fílmica, uma personagem social que a própria sociedade tratou de marginalizar ou invisibilizar ao longo da vida e que, mesmo assim, conseguiu impor sua condição e garantir respeito pela arte e pelo trabalho com educação. É um filme poético, que mistura o monólogo teatral de Laysa com sua vida real, também é um filme informativo, que discute a violência sofrida pelos transgêneros, ou como a Laysa prefere dizer: transgentes.
– Existiu algum momento em que você se surpreendeu?
Claro. No momento de gravar o monólogo e nas partes da entrevista em que ela se emociona com a própria história.
– Jansen, o que pensa sobre a falta de representatividade de atrizes trans no cinema, sendo que mesmo quando vemos personagens trans elas são interpretadas por atores homens cisgêneros?

Penso que é a mesma coisa que acontecia no cinema americano clássico, onde pintavam atores brancos para representarem negros. Infelizmente. O que a equipe de A Morada Transitória quer é justamente fazer com que as pessoas compreendam as diferenças – sejam elas de qualquer natureza – como algo mínimo ou irrelevante. Se conseguirmos isso, já ficamos felizes. 


Confira abaixo o teaser e algumas fotos do filme:

Nome do documentário foi inspirado em um monólogo escrito por Laysa
Cenas de “A Morada Transitória”
Laysa e a equipe de “A Morada Transitória”

Categorias

Pop e Art, Pride

Um comentário em “Trajetória da diretora trans Laysa Machado é tema de curta-metragem; assista teaser de Morada Transitória Deixe um comentário

  1. Neto, só queria dizer que está de parabéns pelo site e pela ótima cobertura às questões trans que você tem dado. Fico feliz de acessar aqui toda semana e encontrar matérias interessantes, me deixa bastante feliz também. Bjs, continue assim que tá um ahazo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: