Realidade

Presa há dois anos, travesti Verônica Bolina consegue habeas corpus e responderá em liberdade

Por Neto Lucon

A Justiça concedeu na quarta-feira (03) o habeas corpus à travesti Verônica Bolina. Ela deixou o Presídio de Taubaté, São Paulo e irá responder a agressão feita a uma vizinha em liberdade. Em 2015, ela se tornou notícia após uma foto de dentro da penitenciária vazar: ela aparecia desfigurada, com vários hematomas, seminua e algemada, indicando abuso de poder. 

A Defensoria Pública declarou que houve indícios de tortura por parte dos policiais. O Ministério Público abriu a apuração. Por conta da agressão sofrida, Verônica despertou o movimento #SomosTodasVeronica, que mostra como a população de travestis e transexuais é tratada.

Após dois anos presa – e passando por trocas de advogados – ela foi defendida pela Defensoria Pública e conseguiu na quarta-feira (03) aguardar o julgamento em liberdade. As informações foram confirmadas em um grupo de Whatsapp “Ajuda Para Verônica”, que reúnem amigos, familiares e militantes dos direitos humanos.

A militante Agatha Lima, presidenta do Fórum Paulista de Travestis e Transexuais, afirmou que estava apreensiva, pois até a tarde de quinta-feira não havia a confirmação de que ela estava no lugar designado. “Mas acabei de saber que ela está no lugar bem tranquilo e seguro, e que está bem. A história da Verônica é muito triste, mas foi um momento de muita união de todas nós pessoas trans e os demais LGB”, declarou.

O CASO

Verônica foi presa em flagrante, acusada de tentativa de homicídio, dano qualificado, lesão corporal, desacato e resistência em 2015. Ela também foi acusada de arrancar a orelha de um carcereiro.  Agatha, que no período acompanhou o caso por meio do Conselho Estadual LGBT, afirma que Verônica cometeu um crime e está pagando. “Mas ela é humana, é gente, é pessoa. E nós merecemos dignidade e respeito até mesmo no momento em que estamos erradas e errados, como qualquer pessoa. Somos iguais perante a lei”, declarou.

Em depoimento ao Conselho de Cidadania LGBT, Verônica afirmou que foi agredida por policiais militares e agentes do Grupo de Operações Estratégicas em três momentos. “Em sua prisão, durante o episódio em que atacou o carcereiro da policia civil por conta de uma troca de cela e no Hospital Mandaqui durante o atendimento médico”.

Na época, as defensoras públicas Vanessa Vieira e Áurea Maria Manoel, do Núcleo de Combate à Discriminação da Defensoria Pública, disseram ver indícios de agressão. “O Estado tem que conter, mas não extrapolar na força”, declarou Vieira. A Secretaria de Segurança Pública informou que está investigando o caso e o vazamento das imagens da presa seminua e desfigurada em sites policiais.

A repercussão do caso surgiu provocaram denúncias de abuso de poder e uma campanha na internet chamada #SomosTodasVeronica, que pedia tratamento baseado nos Direitos Humanos.

SÓ QUERO MINHA VIDA DE VOLTA

Em uma de suas cartas, Verônica afirmou que só quer ter a sua vida de volta. “Nossa, realmente posso dizer que mudei muito como ser humano. E estou procurando agir com sabedoria,visibilidade e compreensão. coisa que minha emoção não deixava eu ver (…) Estou lendo muita coisa, juro é muito bom, às vezes um saco, mas nos deixa mais inteligentes”. 

A última correspondência de Verônica no Presídio de Taubaté ocorreu na Páscoa, quando ela enviou cartões para familiares e amigos. “O dia de relembrarmos a verdadeira importância do amor. Reforçando o sentido do respeito, gentileza, carinho, esperança e da fé. Alegrias deixadas pelo menino Jesus. Viva a páscoa em todos os dias da sua vida. Que Jesus cuide de você pra mim”.

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