Pop e Art Saúde

"Não são apenas mulheres cis que menstruam", diz artista trans Cass Clemmer

POR NLUCON

O artista e educador norte-americano Cass Clemmer – que é homem trans e queer – lançou há duas semanas uma campanha nas redes sociais para falar mandar um recado à sociedade: “não são apenas mulheres cis que menstruam”. E gerou um grande debate entorno do assunto.

Cass estava falando sobre a especificidade que ele tem enquanto homem trans, que é a mesma especificiadade de várias outras pessoas, sejam elas homens trans, transmasculinos, não-binários, queer. E o quanto não falar sobre isso torna o período ainda mais desconfortável e insuportável. 

Na campanha, o educador aparece em uma foto em que está com uma mancha de sangue escorrendo em sua calça. E uma placa: “Não são apenas mulheres que menstruam”. E também escreveu um poema contando um pouco sobre a própria vivência. O jovem diz que cresceu em uma comunidade conservadora no Congo e que era ensinado a ter vergonha de menstruar e de sua identidade.

Ele afirma que todos sabem que ele é trans e queer e afirma que a menstruação é bem traumática para ele. Tanto que no dia em que menstruou pela primeira vez, perdeu tudo. “Eu tinha 15 anos e ainda era feliz. Todos disseram que meus quadris cresceriam, olhei para eles e não conseguia parar de chorar. ‘O que há de errado com você? Você será uma mulheres. Eles celebravam uma criança morrendo”.

Leia o poema (tradução e adaptação de Masao Farah).

‘Cês sabem que sou trans e queer
E o que isso tudo pra mim significa
É algo que não está lá, nem cá,
É uma alegria, um terreno meio assustador
Então, quando falo de inclusão de gênero
E escrevo estas rimas para te ajudar a enxergar,
Que não estou falando de algo efêmero
É muito traumático pra mim menstruar.

Minha vida é bem demarcada
Como um se uma fronteira vermelha cortasse uma nação
Um antes e um depois nessa temporada
A marca da minha primeira menstruação

Viu, deixe me te contar como aconteceu
Detalhes que eu ainda consigo lembrar
Daquele dia, a primeira vez que desceu
E que vi meu mundo desmoronar

Eu tinha 15 anos e ainda era feliz
Correndo de peito nu por onde quis
Subindo árvores, cavando buracos
E ninguém ligava ou me enchia o saco

Quer dizer, minha mãe devia se preocupar
Então, ainda menina, deixei o cabelo crescer
Como meninas ‘normais’ costumam deixar
Meu gênero, como letreiro em neon, a “brilhar”

Voltando, o dia em que desceu a menstruação,
Deus, um dia de muito orgulho, disseram,
Esta porra de criança andrógina, então,
Foi presa nas “grades” cis-hétero.

O alívio foi manchado pela minha dor
Naquele momento, sentei e chorei
Agradecendo por ser normal,
Mas, de luto pela liberdade que morreu.

Disseram que meus quadris iriam crescer,
Eu olhava e não conseguia parar de chorar.
Qual o problema? Você será uma mulher!
E a morte de uma criança continuaram a celebrar.

Vi que meu corpo me traiu
Aquele ponto vermelho, lacre de cera,
em um contrato que ali quebrou
Uma identidade de gênero de mentira. 

Muita gente lida com sangue e tecidos
Sou obrigado a me render ao meu corpo,
Pois cada vez que desce o ciclo,
É mais um dia derramado sobre o meu gênero

Meus peitos me traíram primeiro, certeza
Eu os sinto sob o binder laceado
Eu perguntava, “Sou amaldiçoado?”
Desejando de deus, apenas gentileza.

Cinco dias, ele fica a sangrar.
Tento respirar, não associar,
Enquanto meu corpo rasga parte de mim,
Restando apenas uma casca de ódio, assim.

O sangue escorre de uma ferida aberta
De uma guerra travada dentro do meu cadáver,
A batalha entre a mente e o corpo, pra valer
Objeto imóvel, força que não se pode deter.


O relato causou muitas discussões, debates e informações. Dentre elas que muitos homens trans deixam de viver esse período por conta da hormonioterapia com testosterona. Porém, que muitos homens trans continuam vivenciando por não terem dinheiro para iniciar o tratamento hormonal, não tem informação sobre o assunto, por enfrentarem algum problema de saúde ou simplesmente porque não querem passar pelo tratamento hormonal.

Falar sobre o assunto pode ajudar a enfrentar o período com mais informação, mais acesso à saúde, um pouco menos desconforto e atentar para os pré-adolescentes que podem ter esses momentos contornados com bloqueadores. Tanto que algumas empresas (veja aqui) começam a fazer cuecas especiais para pessoas que menstruam.

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