Pop e Art

Artistas de BH fazem ato por representatividade trans nas artes e repudiam TransFake

Por Neto Lucon

Diversos artistas de Belo Horizonte organizam nesta sexa-feira (05), as 18h, a manifestação “Diga não ao Trans Fake, Representatividade Trans Já”. O ato vai ocorrer no CCBB durante a peça Gisberta, brasileira vítima de uma tragédia transfobia em Portugal, em 2006, interpretada desde o último ano pelo ator cis Luis Lobianco.

A crítica se dá porque, durante todo o mês da visibilidade trans, a oportunidade é dada a um ator cisgênero (que não é trans) interpretando uma personagem trans histórica, ao mesmo tempo em que artistas travestis e trans e peças com artistas travestis e trans carecem de espaço, oportunidade e representatividade.

“A gente recebe essa peça com um afronto, com desrespeito à própria figura da Gisberta e com o movimento trans, que luta por representatividade. Ainda mais no mês da visibilidade trans, em que uma pessoa trans não está no palco, na curadoria, na equipe, não consegue o edital. Gisberta também foi vetada de todos os seus convívios familiares, não teve direito a saúde, educação. Se houvesse sensibilização, o ator cis saberia que esse não é o lugar dele”, declarou a atriz Juhlia Santos.

A atriz afirma que o grupo tentou dialogar com o CCBB e com a equipe da peça, porém a resposta que recebeu é de que o CCBB só falaria se a equipe da peça quisesse. E a equipe da peça declarou que haveria uma roda de conversas após a encenação e que, caso os artistas trans e travestis quisessem, poderiam ir. “O ato em si surge a partir do momento em que tentamos aproximação e a única resposta é que temos que estar à mercê e à disposição de pessoas cis. É difícil aceitar que no mês da visibilidade trans um ator cis interprete uma personagem trans e que não queira dialogar”.


O ATOR PODE INTERPRETAR QUALQUER PAPEL

Dentre as pessoas que rejeitam o manifesto e a luta em prol de representatividade trans, estão aquelas que dizem que o artista deve interpretar qualquer papel. Juhlia explica que de fato o artista tem liberdade para interpretar qualquer personagem, mas aponta para a ausência de artistas travestis e transexuais nesses espaços e para a própria necessidade da luta por representatividade trans.

O poeta e performer João Maria Kaisen de Almeida, da Academia TransLiterária, afirma que a população trans não quer ser mais objeto, mas sujeito das próprias histórias. “Os espaços artísticos ainda não nos pertencem, ainda somos violados enquanto expectadores quando somos vítimas de transfobia nesses espaços. Justo nesse mês um ator branco e cisgênero vem interpretar Gisberta? Ele mesmo alega empatia pela causa, então pergunto: por que não capacitar pessoas, por que não abrir mão do privilégio?”, questiona.

A realidade dos trabalhos artísticos, com raras exceções, mostra apenas artistas cisgêneros ficando com todos os papeis, inclusive com os de personagens trans. No último ano, a atriz cis Carolina Ferraz interpretou uma travesti no filme “A Glória e a Graça”. O ator cis Cauã Reymond viveu uma mulher trans num videoclipe. O ator cis Bruno Gagliasso fotografou como mulher trans em uma exposição. A atriz cisgênero Carol Duarte venceu o “Melhores do Ano” por interpretar o homem trans Ivan na novela “A Força do Querer”. E, detalhe, não é por falta de artistas trans: listamos mais de 100 em todo o Brasil.

“Os artistas cis devem que entender que, enquanto eles estiverem ali, representando uma travesti ou transexual, ele está roubando a oportunidade de uma travesti ou transexual de estarem ali. Não só em cena, mas em todas as áreas da arte. O movimento negro bateu de frente com o black face durante anos e nós também reivindicamos esse espaço. Quando chegarmos uma época em que as oportunidades sejam dadas de forma igualitária, que as pessoas travestis e transexuais estejam nesses espaços, daí pensamos que o ator pode representar qualquer personagem. “, diz Juhlia.

DESDE QUE NÃO SEJA UM/A ARTISTA TRANS

A atriz Renata Carvalho declara que o grande problema de a luta por representatividade ainda não sensibilizar grande parte das pessoas é porque vivemos em uma sociedade corporificada em que os corpos trans não são aceitos. “O corpo trans é um dos corpos mais abjetos, somos expulsas de todos os lugares, inclusive da arte. A presença trans só é aceita nas esquinas”, afirma.

Renata Carvalho

Ela defende que mesmo os artistas que sabem da realidade trans também excluem os corpos trans das artes. “Não acreditam que somos artistas ou que temos talento. Mesmo que a maioria dos personagens trans sejam cheios de talento nós artistas trans nunca temos talento suficiente para interpretá-los. Segundo, esse corpo trans marginalizado, estereotipado, caricaturado, fetichizado, zootificado não é lido como humano, por esse motivo não é capaz de humanizar uma história. Daí chamam um ‘cis’ para humanizar e interpretar essa história”.

A artista defende ainda que interpretar uma personagem trans alavanca a carreira do artista cis e, com isso, ele acaba ganhando prêmios e prestígio. “E nós continuamos onde? Na marginalidade”. E que os artistas cis acreditam que, ao contar a história, dão visibilidade ao tema e abrem espaço ao diálogo. “Mas a esmagadora maioria nos interpretam de forma equivocada, errônea, preconceituosa e de forma caricata. Precisamos falar desse olhar vicioso em cima dos corpos trans, pois muitas vezes só prejudica e reforça mais estereótipos, excluindo ainda mais nosso corpo trans”.

Renata defende que muita gente ainda não sabia da vivência trans e que, ao ter entendimento, repensam e apoiam os artistas. “Visibilidade não nos tira da marginalidade. Precisamos de oportunidades e emprego. A transfobia só vai acabar no dia em que nossos corpos e presença estiverem normalizade e humanizada. Não basta apenas não ser transfóbico, precisamos ser anti-transfóbicos. E para isso contamos com a ajuda dos cisgêneros. Diga SIM ao talento trans”.

O OUTRO LADO

O NLUCON também procurou o ator e a assessoria do CCBB para falar sobre o assunto, mas até agora não obteve retorno.
Anteriormente, Luis afirmou ao jornal O Tempo que se sente confortável em interpretar uma travesti porque é LGBT e tem 23 anos de experiência no teatro. “Agora, eu acho que a gente deve cobrar das empresas, das grandes instituições que elas abram esse espaço para as artistas transexuais. Neste momento, não é o teatro que vai capacitar essas pessoas a atuar porque esse ainda é um terreno muito difícil de se trabalhar”.

Ele declarou que durante as temporadas no Rio de Janeiro e Brasília reservou uma noite para debater o tema. “A gente se reúne justamente para conversar sobre o lugar do ator e sobre a questão do lugar de fala. Na minha formação, aprendi que o ator não tem gênero, no momento atual isso está ganhando outra abordagem, e que bom que a gente está falando disso”.

Luis defende que discussões sobre representatividade deve ser trabalhada com diálogo. Mas que não deve haver proibição. “Podemos cair no terreno perigoso da censura. Temos que conversar, porque este é o melhor caminho”. Ele conta ainda que muitas pessoas trans revelam que estavam preocupadas com a representatividade, mas que ao assistirem ao espetáculo foram para outro lugar de uma forma muito respeitosa. “Acho que as críticas mais pesadas vêm de quem não viu o trabalho”.

Saiba mais sobre a manifestação clicando aqui

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.