Beleza Pop e Art

Abaixa que é tiro! Fotógrafa Camila Falcão retrata belezas e feminilidades de travestis e mulheres trans brasileiras

Kiara e uma das modelos do projeto “Abaixa que é Tiro”


Por Neto Lucon

“Abaixa que é tiro” é uma gíria que remete a algo ou alguém que vai aparecer, acontecer, provocar e mudar tudo ou alguma coisa do lugar. Não é por acaso que este é o nome do projeto da fotógrafa cisgênera Camila Falcão, que retrata a beleza, os corpos e a diversidade de travestis e mulheres trans brasileiras.

Nas fotos, Camila demonstra o olhar de admiração, aprendizado e reflexões acerca da feminilidade das modelos – inclusive fazendo refletir a própria, o que torna o trabalho muito sensível. Registra essas mulheres em um diálogo franco, sincero, olho no olho, luz natural, sem efeitos de edição e imersas na pluralidade de vivências, corpos e possibilidades dentro do gênero feminino.

Dentre as modelos estão nomes importantes dentro da militância e das artes, bem como Gabe Joie, Mona Mares, Magô Tonhon, Amara Moira, Alina Dörzbacher, Lucy Lazuli, Chris, dentre outras. Vale dizer que Onika Soares também tem posado regularmente, mostrando as transformações e transições de seu corpo ao longo dos meses. Por meio das fotos Onika acabou ganhando um projeto homônimo.

Camila conta teve contato com mulheres trans e travestis quando desenvolvia um trabalho voluntário no Centro de Referência da Diversidade, em São Paulo. “Foi documentando uma ação de distribuição de preservativos e lubrificantes para as mulheres que trabalham na rua que tive a ideia de fazer o projeto. Logos nas primeiras saídas me dei conta da enorme diversidade de corpos trans e vi uma oportunidade de desenvolver um trabalho interessante”.

No início, houve certa resistência da população trans em topar se expor para a fotógrafa – “o que é compreensível”, diz. Aos poucos, ela foi mostrando suas intenções e o resultado do trabalho. “Agora está mais tranquilo, porque a maioria percebeu que o trabalho é sério. Devo muito às queridas Amara e Onika, que foram as primeiras que toparam posar. A participação delas logo no início foi fundamental”, revela.

Magô revela que quis “pagar para ver” quais eram as intenções de Camila. “Geralmente desconfio de quem prontamente se dispõe para fotografar. Poso para poucos porque geralmente preciso conhecer melhor a pessoa por detrás das lentes. Me surpreendi com a Camila. Com relação ao intuito de fazer retratos de nós, pessoas trans e travestis, vi que tinha ali confessadamente uma questão que entrelaçava questões pessoais e íntimas dela e que estava sendo uma oportunidade para que ela pudesse dialogar com as próprias potências femininas não-cisgêneras que me parece ter sido até então seu referencial“.

Mona e Gabi


Magô

Isabela

Amara revela que não conhecia Camila, mas que adora ser fotografada. “Consigo me ver duma forma que nunca havia visto antes, então quando surgiu o convite, eu aceitei na hora. Me agrada também pensarmos em termos concretos a beleza trans, os corpos trans e a fotografia pode ser um canal incrível para darmos concretude a essas ideias. Me ajudou a sentir confiança no trabalho da Camila o fato de, bem na Semana Trans que estávamos organizando, eu ter visto a exposição com fotos dela no CRD”, contou.

OS TIROS


Após o convite ser aceito, duas exigências são fundamentais para que o trabalho seja realizado: a paleta de cores e uma locação que tenha boa luz natural. “Quando a foto é na casa da fotografada decidimos o figurino no dia, mas quando não é falamos sobre isso antes e já menciono a paleta”

O ensaio costuma fluir com muita naturalidade e Camila afirma que as modelos são muito generosas. Nos bastidores, ainda que haja muita diferença de personalidades, muitas gostam de conversar, falar sobre a vida, transição e relacionamentos. Outras, são mais tímidas. “Isso enriquece o trabalho visual e conceitualmente. Respeito a individualidade de cada uma e acho que isso reflete no trabalho”, diz.

Amara conta que a sessão de fotos foi incrível e profissional. “Fomos brincando de encontrar poses, de pensar juntas as roupas e a cenografia, os ângulos, a iluminação. Ela me mostrou a cada passo o resultado para que a gente fosse chegando cada vez mais perto de uma imagem que agradasse os dois lados”, diz. “Mas, por mais que goste de ser fotografa, tenho ainda dificuldades grandes com a minha imagem principalmente por não saber ficar completamente em paz com as marcas de feminino e masculino que meu corpo possui. Na teoria é linda essa fusão, mas é difícil esquecer que ela é causadora também de muito sofrimento e de parte da violência que sofro, os olhares, o assédio, as ameaças na rua, as piadas”. 

Magô revela que as fotos foram feitas com tranquilidade e rapidamente. “Pretendo posar de novo para ela. Gostei muito do resultado. Há muita sensibilidade e vamos combinar, as pessoas trans e travestis adoram um close. Além do mais, somos muy autênticas e fotogênicas (risos)”. Ela reafirma que, para além das fotos, o que a interessa são os pontos de entrelaçamento que a aproximação as novas vidas acionam na pessoa cis que deseja se aproximar, pois há muita objetificação e pretensões escusas geralmente”.

Camila afirma que cada uma das mulheres ensinou alguma coisa para ela sobre o que é ser mulher e sobre o feminino. “Esse trabalho mudou minha visão sobre essa população, sim, principalmente me chamou atenção para as inúmeras formas de transfobia, os desrespeitos diários que elas sofrem, a falta de direitos básicos, os medos e inseguranças que elas têm. Isso só me dá mais força para seguir com o projeto”.

O RESULTADO

O público especializado em fotografia tem recebido bem o trabalho. Camila participou de uma exposição coletiva com duas fotos do projeto “Onika” – que surgiu por meio do Abaixa que é Tiro, mas depois caminhou sozinho – no Valongo Festival Internacional da Imagem e ficou entre os finalistas da bolsa da revista Zum, do IMS.

Onika


Amara

Vita

“O feedback das manas trans, que é super importante para mim, também tem sido positivo. Essa semana recebi uma mensagem que me emocionou: ‘Seu trabalho tem salvado vidas, inclusive a minha’ Para mim não poderia existir melhor reconhecimento”, afirma.

Amara destaca a foto escolhida. “Eu, no meio de lençóis brancos, imitando sem perceber a pose de algum quadro renascentista. Essa foto em especial mexeu muito comigo. É a uma das imagens mais lindas que já fizeram de mim”.

Sobre haters, a fotógrafa afirma que eles passaram a surgir e que chegou a perder vários seguidores no Instagram, rede que ela costuma divulgar as fotos. “Isso não me preocupa, acho até bom que sumam”. O grande problema foi quando participou de um concurso só para mulheres fotógrafas e teve uma imagem da modelo Alina censurada.

“A partir desse dia diversas fotos minhas começaram a cair, essa foto especificamente caiu em poucas horas. Quando deixei público meu Instagram, tive que colocar tarjas, mas não coloquei nessa foto da Alina, afinal o que faz a foto ser relevante para o concurso é justamente o nu de uma mulher trans. A foto é linda, no contra luz, super poética e delicada, me senti bem invadida na ocasião, principalmente por saber que eram mulheres cis que estavam denunciando, mas não fiquei surpresa”.

PRÓXIMOS TIROS

O projeto “Abaixa que é Tiro” deve continuar até que a fotógrafa tenha de 40 a 50 mulheres fotografadas. Posteriormente, haverá uma exposição. Já “Onika” não tem data para terminar, mas o objetivo é transformá-lo em um livro e expor as fotos.

Camila também desenvolve o projeto de um documentário em parceria com Paloma Lopes sobre passabilidade e adianta que haverá várias pessoas trans trabalhando na equipe. Ela já conversou e combinou com algumas. “Sigo desconstruindo”, finaliza. O tiro foi certeiro. 

Você pode ver outras fotos clicando aqui.

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