Entrevista Pop e Art

"Me reconheci homem trans no teatro", diz ator Bernardo de Assis


Por Neto Lucon

Dizem que a arte imita a vida. A retórica também é verdadeira. Seja para refletir, provocar, inspirar ou mudar tudo. Pois foi exatamente por meio da arte que o ator Bernardo de Assis, de 23 anos, se entendeu homem trans e deu um importante passo para sua verdadeira identidade.

O ator foi convidado para estrelar a peça Bird, de Livs Ataíde. A obra falava sobre alguém lido como mulher e que dizia à mãe que era um homem. Com o tempo, acordava com várias transformações no corpo, como barba, seios e asas. Bernardo – que na época também era lido como mulher – se identificou, chorou e aceitou o desafio.

Na peça, emocionou e inspirou outros. Logo, se identificou enquanto homem trans e se viu em uma fase mais confortável com a própria identidade. Posteriormente, também conheceu de perto o preconceito da transfobia, que afeta inclusive as artes. Mesmo com 15 anos de trabalho, começou a ser rejeitado em papeis cisgênero e até trans.

Com coragem, resistência, consciência e sobretudo muito talento, Bernardo segue a carreira, se entrega nas oportunidades e se engaja na luta por representatividade. Recentemente, foi convidado para um protagonista trans na série Transviar e até adiou a cirurgia no peitoral para viver os momentos de antes e depois da transição – quebrando um dos discursos transfóbicos para a não contratação. Que estes sejam apenas os primeiros de grandes voos.

Abaixo, um bate-papo com ele após as gravações e antes da cirurgia:

– Você acabou de gravar a série Transviar em que interpreta um homem trans. Como esse papel chegou até você?

Soube que estava tendo a chamada de elenco e alguns amigos marcaram o meu nome, mas eu não quis mandar num primeiro momento. Sou de teatro e nunca me interessei muito por TV ou cinema.  No último dia da inscrição, pensei: “quer saber, se tanta gente marcou o meu nome, vou mandar”. Enviei meu currículo e fui chamado para fazer um teste online com a diretora. No dia seguinte a produtora me ligou dizendo que eu havia passado, mas eu não sabia se estava feliz ou triste…

– Por quê?

A minha cirurgia (que masculiniza o peitoral, conhecida como mastectomia ou mamoplastia masculinizadora) estava marcada exatamente para o dia em que eu teria que embarcar para Manaus, onde aconteceriam as gravações. Eu estava entre fazer a cirurgia e fazer a série.

– E o que você decidiu?

Decidi ir. Foram sete meses ao total, contanto a preparação de elenco e as filmagens. Foi uma experiência incrível. Acho que só de ser uma história de um homem trans sendo interpretado por um homem trans muda muita coisa. Eu cheguei lá, li o roteiro e as próprias diretoras falaram: “Somos duas mulheres cis lésbicas e entendemos que se você achar que algo não faz sentido, por favor, mude.” Eu falava: “essa informação aqui é meio esquisita”, e elas sempre me davam liberdade para mudar.

– Pode falar um pouco sobre seu personagem? Quem é Pedro?

Pedro é um homem trans de 25 anos que é casado com um homem cis e que juntos tem um filho. O casamento ocorreu antes da transição de gênero dele. Aliás, a história começa no momento em que Pedro não aguenta mais fazer o papel de Eduarda e está quase explodindo. Ele precisa contar para o mundo que é Pedro. Alguns amigos sabem, a avó também, mas as outras pessoas não. É uma série de 13 episódios que fala sobre família, sobre como Pedro conseguiu desestruturar essa família tradicional que é regida pela religião, pelas tradições e, consegue achar uma nova família, com um novo conceito e com novas pessoas.

– Você mesmo gravou as cenas em que interpreta os dois momentos, antes e depois da transição?

Nos três primeiros episódios ele ainda é lido enquanto Eduarda. Então, coloquei mega hair até os ombros, parei de usar binder, fiz a barba na cera e fazia exercícios para afinar a voz antes de gravar. Mas a partir do momento em que ele corta o cabelo, a gente consegue acompanhar o primeiro binder, o primeiro minoxidil, a primeira vez que o tratam como Pedro e como sua vida vai mudando.

– Foi tranquilo interpretar os momentos antes da transição? Aliás, uma das justificativas da Glória Perez em não chamar um ator homem trans para interpretar o personagem trans Ivan na novela da Globo é que seria muito difícil que ele usasse roupas femininas, tirasse a barba, colocasse seios…

Não vou dizer que foi fácil, mas eu estava ali enquanto ator. É claro que quando eu chegava em casa e me olhava de cabelo grande e sem barba, eu ficava: “nossa, o que está acontecendo?”. Mas quando eu ia pro set e a diretora falava “ação”, o meu trabalho precisava ser feito. Uma das desculpas para não contratar um homem trans para o personagem Ivan foi a de que seria muito mais difícil feminilizar um homem trans do que masculinizar uma atriz cis. Mas daí você vê que usaram pelos falsos na atriz, usaram computação gráfica para tirar os seios…

Nas gravações da série Transviar


– Você chegou a fazer algum teste para a novela A Força do Querer da Globo?

Eu fiz um teste para ser amigo do personagem Ivan (Carol Duarte).

– Como foi?

Foi meio estranho. Eu ainda estava no início da hormonização e escutei de uma pessoa de lá que “você não parece ser trans, parece uma menina.” Mas beleza, passou. Depois, aconteceu algo engraçado. Eu já estava em Manaus quando o meu celular tocou e era um convite para participar de uma ponta na novela. Eu expliquei que estava em outro Estado gravando uma série, a pessoa agradeceu mas, antes de desligar, disse: “Parabéns, você é lindo, você realmente se PARECE com um homem”.

– “Se PARECE com um homem”, oi?

Pois é. Se uma pessoa que está envolvida nessa produção acha que um homem trans não é homem de fato, você consegue perceber a irresponsabilidade.

– Muitas pessoas dizem que não escalam atores trans porque não há ou porque não são capacitados. Você é um exemplo que está trabalhando há bastante tempo, né? Como foi que começou?

A primeira peça que eu estive foi aos sete anos e desde então trabalho como ator. Hoje estou com 22 anos. É curioso porque não tenho nenhum parente ator ou artista. Lembro que quis ser ator quando fui assistir minha primeira peça, num passeio de escola. Fiquei encantado e disse: eu quero ser isso. Perguntei à minha professora: “o que essas pessoas são?”. E ela disse: “São atores”. E quando alguém perguntava o que eu queria ser, eu dizia: “eu quero ser atores” (risos).

– Nesta época, seus pais incluíram você em algum curso ou companhia?

Com seis anos eles me colocaram no teatro. Achavam bonitinho. Mas quando eu disse que queria fazer daquele trabalho a profissão da minha vida, eles mudaram. Mas não demorou muito para conseguir um trabalho como contador de histórias e com isso, a minha independência financeira. Estudei atuação cênica na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e direção teatral na UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). E o espetáculo Bird é meu trabalho mais importante porque foi nele que me entendi enquanto Bernardo.

Na peça Bird


– Você se percebeu ou se entendeu homem trans atuando em Bird? Explica melhor…

Eu sempre tive aquela sensação de que algo estava esquisito em mim, que eu não tinha um lugar em que me sentisse confortável. Eu nunca falei que era mulher, mas ao mesmo tempo não tinha coragem de falar que era homem. E quando a Livs, diretora e dramaturga de Bird me chamou para este espetáculo, tudo mudou. O personagem – Maria Elisa – sonhava que acordava com barba, e no outro dia acordava sem os seios, e no outro dia, com pelos nas pernas. Havia cenas que mostrava a relação com a mãe e com o pai e conforme Livs ia escrevendo, algo dentro de mim gritava.

– Você topou logo de cara interpretar o personagem trans da peça?

Não, no início eu fiquei muito assustado. Dizia: “não posso fazer, mas não sei por qual motivo”. Era terrível. Sempre chorava sozinho ao ler as cenas. Até que percebi que, eu estava me vendo ali. Então, Livs e eu fomos em uma conferência sobre gênero e sexualidade, em 2015. Fomos numa roda sobre homens trans e, quando João Nery começou a falar, percebi: é isso. E foi ali que eu entendi tudo o que estava acontecendo comigo. Estava ouvindo dos homens trans coisas que aconteciam comigo e que eu nunca tinha entendido o que era.

– O que as pessoas costumam falar da peça Bird?

Elas sempre perguntam: “essa peça é sobre você?”. Não, no sentido original. E ao mesmo tempo sim. Na verdade, a minha vida imitou essa peça. As pessoas geralmente saem bastante tocadas do espetáculo porque falamos sobre corpo, sobre liberdade de ser, de enxergar o outro, de se permitir e de como o mundo te ataca quando você faz tudo isso.

– O que mudou desde quando você revelou para o mundo que você é um ator e não uma atriz?

Absolutamente tudo. Quer dizer, para mim não mudou nada. Mas para o mundo mudou tudo. Hoje em dia obviamente não sou chamado para interpretar papeis femininos, mas também não sou chamado para os papeis masculinos. Já ouvi de um produtor uma vez que por mais que ele tentasse e soubesse que eu era um ótimo artista, não conseguia me enxergar como homem. E no fim das contas, sempre perco trabalho, não tem jeito.

– O que você acha sobre esse movimento Diga Não ao TransFake – referente aos artista cis que interpretam personagens trans, enquanto artistas trans não interpretam nenhum papel?

Eu acho que é extremamente válido e potente porque faço teatro e já vi inúmeros espetáculos sobre a temática, e todos eles eram feitos por atores e atrizes cis. Inclusive eu já fui escalado para substituir uma atriz cis que fazia um homem trans em uma peça. Já vi espetáculos bem mais problemáticos que esse da Gisberta (que foi alvo de protestos de artistas trans e travestis em Belo Horizonte), mas se está acontecendo nesse momento é porque a panela explodiu. Não dá mais para ficar calado. Já vimos muitos filmes, peças e novelas onde as pessoas cis fazem a gente, então a partir de agora tudo o que acontecer a gente deve fazer esse barulho, sim. Percebo que muitas vezes os espaços querem abraçar projetos que falem sobre a temática, mas desde que sejam atores cis.

Para Bernardo, artistas trans precisam continuar se mostrando e se unindo


– Quem é a favor do Transfake diz que o papel do ator é justamente interpretar qualquer pessoa…

É a mesma coisa de dizer que a arte é para todos, quando sabemos que infelizmente ainda não é. Muita gente não tem acesso à teatro, cinema, museu. Por que será que a maioria das pessoas que estão nos melhores cursos de teatro é cis, branca e de classe média alta?
É muito utópico falar dessa liberdade do ator quando não levamos em conta o nosso contexto político e as opressões que recaem sobre algumas populações.

– Além das manifestações, o que é preciso ser feito?

Os artistas trans precisam continuar se mostrando e se unindo. Esse meu espetáculo Bird ganhou o edital de fomento às artes, mas o prefeito não pagou o edital. Estamos resistindo. É importante que esses artistas se unam para ver o que podemos fazer juntos, levar a conversa e o debate para onde ainda não chegou. Levar para as comunidades, para o subúrbio, levar justamente para onde a TV domina com mais força. Eu moro em uma comunidade e uma vez quando fui cortar o cabelo, escutei durante quarenta e cinco minutos uma propaganda de TV horrorosa que dizia: “Diga não à ideologia de gênero e diga sim à ideologia de Genesis”. E isso está sendo consumido porque é isso o que está sendo oferecido.

– Bird deve voltar em 2018?

Estamos revendo algumas pautas, mas tudo indica que sim.

– Sua cirurgia vai ocorrer nos próximos dias. Está calmo ou ansioso depois das pausas e interrupções?

Estou ansioso demais, mas ao mesmo tempo confiante. Sei que vai ser ótimo. Quero muito ir à praia porque não sei o que é o mar há três anos. Assim que ficar recuperado, vou ao Leme dar um mergulho. É o que mais quero voltar a fazer.

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