Entrevista Pop e Art

“População trans vive processo de globalização interessante e perigoso”, diz Viviane Vergueiro; entenda

Por Neto Lucon
Fotos: Adeloyá Magnoni

Quem pesquisa, estuda ou quer saber mais sobre conteúdos referentes à população trans e travesti certamente já leu, escutou e acompanha o trabalho da pesquisadora, professora, ativista e transfeminista Viviane Vergueiro.

Formada em Ciências Econômicas, ela viu sua vida se transformar quando se entendeu mulher trans. Após uma viagem um curso de teoria Queer na Bahia, em 2012, se jogou nas ciências humanas e sociais, tornando-se mestre em cultura e sociedade.

Hoje é pesquisadora no Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade da Universidade Federal da Bahia e tem um dos mais importantes nomes contemporâneos do ativismo intelectual. Sua pesquisa atravessa, dentre outros temas, o transfeminismo, processos de colonização e as vivências trans numa sociedade cissexista.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, realizada antes da conquista histórica do STF, ela fala sobre os desafios históricos, sabores e dissabores de ser uma pessoa trans no Brasil. Também fala um pouco sobre sua vida pessoal e os processos desta caminhada. Vamos lá:

– No Brasil, ainda temos uma data para a população trans e travesti em que falamos sobre “visibilidade”. Em termos de visibilidade, o que ainda hoje precisamos falar e refletir?

Temos atravessado uma desesperança no sentido da política, talvez uma dificuldade de digerir o quanto o capital corroeu até mesmo os processos de reforma dentro do capitalismo, das centro-esquerdas no Brasil: não tem Estado Democrático de Direito onde odebrechts, ruralistas, cristianismos conservadores, militares e jbs’s comandam as ações e os votos, das esquerdas às direitas. Mas tenho sentido que a comunidade trans e travesti está criando muitos espaços, contextos e formas de resistência bastante críticas e potentes nos últimos tempos, uma continuidade das lutas históricas das comunidades daqui que tem dialogado com muitas lutas e estratégias noutros contextos internacionais. Hoje, além de visibilizar o genocídio, as mortes, tragédias e episódios de violência contra as comunidades trans e travestis (de maneiras cada vez mais autônomas), nós temos conseguido construir outras histórias e valorizar resistências e memórias. O movimento trans e travesti, junto de pessoas aliadas, tem fortalecido – apesar da falta de muitos apoios – espaços como casas de acolhimento, redes autônomas de formação educacional, … Tem sido algo muito bacana de perceber e absorver, e é algo muito positivo dentro de um contexto de significativas violências e cerceamento de direitos, e que a gente precisa valorizar.



– O Brasil é um país colonizado, ao mesmo tempo em que aparenta ter uma relação bem “própria” em relação à nudez, às liberdades e sexualidade em períodos do carnaval, por exemplo, e um moralismo exacerbado em outros momentos. Nossa relação com o gênero, identidade de gênero e com a transfobia também advém dessa colonização? Ou possui algo particular?

Muitas populações, em uma infinidade de perspectivas sobre os corpos e suas localizações socioculturais, foram violentadas pelas colonizações europeias, sendo que estes processos envolvem afetividades, práticas sexuais, identidades e expressões de gênero – para além, portanto, das dimensões econômicas e macropolíticas de exploração. Se pensarmos nos apagamentos de formas de vida de muitas populações, esse é um ponto em comum de muitos dos mundos que nos constituem, que nos restaram. Ao pensar a América Latina, por exemplo, temos conexões (de ancestralidades e genocídios) sobretudo com gêneros não-binários, não héteros cis que foram tidos como impossíveis, exterminados, controlados, catequizados, evangelizados.

Simultaneamente, estes corpos e gêneros, sempre atravessados e localizados a partir das réguas do supremacismo branco e cristão produziram e produzem resistências e a possibilidade de que corpos e práticas sexuais existam e se expressem. Compreender que fazemos parte de uma história, e que ela também nos torna viáveis no mundo, me parece algo bastante importante de perceber, e de maneiras bastante significativa entre as comunidades trans e travestis.

Estas dinâmicas coloniais, assim, não são somente extermínio e proibição, mas também operam de outras maneiras, como você colocou, por ex., nos momentos de liberdade como o carnaval. A colonização hierarquizou os corpos e a gente deve pensar como colocamos alguns deles em posições de inferioridade ou de exotismo, e como os extermínios também acontecem quando não podemos ser mais complexas que os estereótipos sobre nós.

Por sua vez, no Brasil, é só a gente pegar os inquéritos e documentos policiais no período da Ditadura, e notar como há um discurso fortíssimo de limpeza quando se fala da necessidade de a polícia de SP impedir o trânsito de travestis em determinadas áreas da cidade. E nessa colonialidade, temos que pensar o racismo e as identidades trans conectadas nessas questões. Como tornamos alguns corpos totalmente descartáveis nesse sistema, e como racismo e cissexismo se articulam enquanto projetos de sociedade, projetos em que são investidos recursos consideráveis. É por conta destes investimentos que temos de notar como os slogans de ‘escola sem partido e sem ideologia de gênero’ se tornam tão fortes de maneira caricata em vários contextos, e especialmente como pessoas trans e travestis (ou as infâncias de todes nós) estão em risco, a partir do que estes slogans desejam controlar e impedir.

– Por que ainda existe tanta dificuldade da sociedade brasileira em aceitar e acolher a população trans? Qual é o maior tabu a se vencer?

O maior tabu eu não sei… Mas seguindo esse caminho de pensar a colonização, a gente tem que pensar, em nossos presentes, a respeito de todas as questões que estão sendo produzidas na cultura, no nosso imaginário, e pensar junto com isso os mecanismos econômicos, na produção dos meios de comunicação de massa, a respeito das populações trans e travestis: somos uma população complexa ou um estereótipo? Há que se pensar, também, no intenso financiamento cristão em projetos de lei de educação supostamente sem partido ou ideologia de gênero e nos meios de comunicação, no sistema de saúde corporativista e conservador que nos patologiza e em como essas coisas se articulam para inviabilizar nossas existências trans e travestis. Em como elas são construídas para a gente não acessar os nossos nomes, as nossas identidades, e nenhum recurso sem que não haja constrangimentos. Esta é uma forma de a gente não existir, em muitos aspectos. É muito difícil apontar uma questão, mas essa inexistência, produzida com muitos recursos econômicos, é constituída para que a gente não exista, ou exista em subalternidade e inferioridade, e que outras gerações ‘gênero-diversas’ não possam se entender, ou só possam se entender a partir de limites restritos e por vezes traumáticos.

De alguma forma, a gente deve enfrentar e reexistir para que também tenhamos forças econômicas para resistir a estas ideologias de gênero, aos projetos de sociedade supremacistas. Penso que alguns caminhos em direção a esta autonomia vão no sentido de fortalecer trabalhos como o seu, por exemplo, ou para termos cada vez mais forte esse debate de representatividade trans na arte, contra o transfake… Afinal, já deu a desculpa de que não temos pessoas trans e travestis com talento para escalar num trabalho artístico, por exemplo. Quando uma mulher trans é capa da Time, quando nossa visibilidade se amplia, todo mundo quer botar o assunto na roda, mas muitas vezes coloca um ator cis para falar, ou segue operando com formas similares de exclusão e até caricatura. Este é um modelo que tem sido esgotado e que deixam muitas de nós na precariedade econômica. E se formos trazer este debate aos mercados formais de trabalho como um todo, nas produções artísticas e culturais… é babado, e é um debate que tem sido trazido de forma importante também. Representatividade trans já!

– Alguns grupos discriminados passam por processos históricos e por óticas diferentes discriminatórias até atingirem alguma dignidade social. Ou seja, são demonizados pelas igrejas, são criminalizados pela justiça, são patologizados pela ciência. Em qual momento você acha que a população trans e travesti vive atualmente?

Penso que a gente vive um processo de globalização interessante e perigoso, nestes tempos de visibilidade trans crescente. E essa visibilidade encontra um limite nas formas ocidentais de entender os corpos e identidades de gênero. Em um seminário numa semana de visibilidade trans, por ex., me lembro de um palestrante associando o ’surgimento’ das pessoas trans ao início da possibilidade técnica de cirurgias genitais. A associação imediata de pessoas trans e travestis a cirurgias em genitálias, e à noção de que necessariamente queiramos modificar nossos corpos, está ligada diretamente ao nosso imaginário sobre esta população, e apaga dimensões nossas que estão muito além de cirurgias, além de ignorar a existência de sociedades e culturas nas quais outras ‘tecnologias’, por assim dizer, poderiam tornar possíveis várias outras transições de gênero. Assim, essa visibilidade sem um entendimento histórico amplo dos projetos coloniais como formas de extermínio de múltiplas maneiras de entender corpos, identidades de gênero e sexualidades, pode desencadear alguns avanços em acesso a direitos, porém distanciar e seguir marginalizando partes consideráveis da população de identidades de gênero não cisgêneras, racializadas, imigrantes e trabalhadoras sexuais.

No campo da classificação médica, por sua vez, a gente está imaginando e esperando que as identidades trans não serão mais consideradas transtornos mentais na CID 11 e que as condições relacionadas a nós irão para outro capítulo – sobre Condições Relacionadas à Saúde Sexual. Isso nos aproxima da década de 90 nos debates sobre sexualidades, da despatologização da homossexualidade. Mas é importante dizer que esta formalidade de manuais diagnósticos não impede que, atualmente, psicoterapeutas continuem querendo reverter sexualidades não hetero e querendo fazer com que pessoas trans desistam de ser trans. Ou seja, não podemos desassociar estes processos de contextos conservadores mais amplos, em escala mundial e micro. Veja os investimentos da dita psicologia cristã para retomar a legitimidade da ‘cura gay’, por exemplo.

Nas intersecções, a gente tem um campo onde, me parece, seguimos enfrentando sérias restrições de recursos onde não há as condições necessárias para intervir de forma muito significativa: penso, aqui, sobre as precariedades das trabalhadoras sexuais trans e travestis. Temos deixado as necessidades e demandas dessa população, que tudo indica é a maioria de nós mulheres trans e travestis, muitas vezes em segundo plano, ou sem os devidos protagonismos das trabalhadoras sexuais. A gente vive um período de uma visibilidade exacerbada em algum grau, mas com limites ainda brutais para a maioria de nós em nossas realidades. Mas como Ricardo Sales disse, sobre o contexto corporativo: visibilidade é um passo, inclusão é outro. Neste sentido, acredito que precisamos, em uma leitura anticapitalista e interseccional, os prós e contras deste processo contemporâneo de visibilidade, em especial para pensar as condições de vida das pessoas trans e travestis: quanto estivermos falando de inclusão real e efetiva, para além de ser mais carne moída num outro lugar do cistema, aí sim acho que a visibilidade vai estar caminhando mais junto da transformação sociocultural do cissexismo.

Atualmente, temos enfrentado essa coisa que chamam de token, de volta e meia vir a notícia, ‘É a primeira pessoa trans em tal lugar’, de não sei de onde. A gente tem que ultrapassar isso, há que se ter um processo de “”normalização”” com muitas aspas, no sentido de a gente poder existir em muitas possibilidades, além dos estereótipos. É um período difícil, porque cada uma acaba ficando como porta voz, demandadas para responder às miradas e curiosidades cisgêneras, mas é um processo que tem potencial de garantir algum acesso a recursos. Hoje, as alianças são potentes e cada vez mais plausíveis. Pensar na saúde, quando temos alianças com profissionais, eu vejo uma diferença qualitativa nestas coalizões. Mas infelizmente, é preciso que estejamos sempre atentes às colonialidades que nos constituem, neste cistema.

– Como perceber ou avaliar que determinada visibilidade está sendo dada apenas como token?

Acho que aí entram as questões do compromisso ético com a transformação social, sabe. De que tipos de relação de trabalho, respeito a direitos autorais e disposição para enfrentar cissexismos institucionais estão implicados, ao se trabalhar com uma pessoa trans e travesti. Não utilizar a presença de pessoas trans e travestis de maneira conveniente, ser sensível às eventuais necessidades de privacidade e resguardo delas, e pensar e valorizar as contribuições daquelas pessoas enquanto profissionais, consultoras e parceiras nas iniciativas, estratégias e gestão de recursos. E acho que nós, enquanto ativistas e pesquisadoras, temos de estar constantemente atentas para identificar o que é aliança e solidariedade, e o que pode ser extrativismo e manutenção de hierarquias. E tensionar para que sejamos, efetivamente, agentes políticos em relação à visibilidade que precisamos.


– Você observa que as militâncias estão tendo um papel importante nos processos de humanização das identidades trans? Em qual sentido?

Eu penso que desde sempre, sabe. Considerando que durante a ditadura militar era tranquilo para essa gente dizer que tinha o objetivo de limpar a rua de nossa presença trávica, considerando os tipos de enfrentamentos e limitações que tantas de nós passamos para ousar dizer ‘sou eu, apesar de tudo que você e suas instituições dizem que sou’, penso que as militâncias, ativismos e trajetórias de vidas das pessoas trans e travestis têm sido um fiapo de esperança nestes tempos de conservadorismo neoliberal. Apesar de todas nossas tretas e baphos nas comunidades, acho que nos fortalecemos nestes anos, sob condições bastante complicadas.


– Sua pesquisa fala muito sobre despatologização das identidades trans. Por qual motivo é importante que as identidades trans e travestis deixem de ser encaradas como doença?


Podemos pensar na importância da despatologização como uma luta ligada à autonomia dos nossos corpos, expressões e identidades de gênero. Quando a gente pensa na despatologização, seja na classificação ou nas práticas cotidianas, isso tem a ver com as pessoas trans poderem (ou não) exercerem suas identidades sem constrangimentos, com dignidade e sem uma categorização diagnóstica violenta que seja requerida para acessar, digamos, o direito à saúde e à identidade.. Pensamos na despatologização, assim, para que mais pessoas sejam atendidas no serviço de saúde, para que façam suas cirurgias, para que se hormonizem sem a exigências de laudos. Porque quando você exige laudos psicológicos é o mesmo que dizer quem entra e quem não entra nos recursos de cuidado. Despatologizar é pensar que temos vários tipos de trajetórias, desejos em relação aos nossos corpos – e nem todo mundo deseja a ficção branca e cisheteronormativa da Barbie e do Ken. O modelo patológico faz com que o paciente ou objeto de estudo siga um script para dizer se essa pessoa é transexual de verdade e com disforia de gênero. É um modelo que controla nossa autonomia.

Isso vai impactar diretamente em alterar os nossos documentos, por exemplo. Quando a gente defende a despatologização, portanto, defende o reconhecimento do gênero nos termos da nossa Lei de Identidade de Gênero (PLC 5002/2013), que questiona a necessidade de juízes avaliarem a suposta verdade de nossas identidades de gênero, bem como que eles se pautem em especialistas de saúde mental para dizer quem somos. Novamente é a questão da autonomia: despatologizar é tirar o estigma das identidades trans e travestis, nesse sentido. Porque quando temos um resfriado ou temos algum problema de ortopedia, nos levam automaticamente para o departamento de DST/Aids, ou para a saúde mental. É assim que o sistema de saúde nos enxerga: entendem que somos corpos com DST, potenciais vetores de transmissão que precisam ser domesticados, e que desejam de maneira patológica e central hormônios ou cirurgias e, portanto, somente um ambulatório trans ou espaço específico saberia lidar com estas pessoas. Temos que despatologizar para que a população trans tenha acesso à saúde no geral, sem discriminações ou constrangimentos.

– Converso com algumas pessoas que dizem que, ao despatologizar, pode-se perder o acesso ao atendimento de saúde. Afinal, se elas não possuem um CID, todo o processo não precisaria e cuidados médicos…

Temos sempre que ter cautela ao pensarmos as revisões de manuais médicos e seus impactos nos cistemas de saúde, especialmente no contexto de golpes e desmontes institucionais em que a gente vive. Ou seja, se hoje o modelo do processo transexualizador está no âmbito da patologia clínica, não sou eu que vou dizer 100% que o processo se manteria se, na CID-11, as identidades trans não forem mais consideradas como transtorno mental, como está hoje na CID-10. Porque, a bem da verdade, o processo de esvaziamento e precarização da saúde pública vai para além das questões trans ou lgbt; e por outro lado, o cissexismo institucional posiciona os serviços como o Processo Transexualizador como serviços precários em recursos, insuficientes, e vulneráveis – não nos esqueçamos do kit anti-homofobia, por exemplo, vetado durante o governo Dilma.

Mas aí é que entra a nossa luta política conjunta, que engloba o SUS, a saúde pública e o nosso acesso à saúde integral e com dignidade. É com base nesta percepção das violências históricas específicas contra pessoas trans e travestis, que acredito que devemos defender o direito desta população acessar inclusive procedimentos lidos como estéticos, mas que são necessários porque ela é violentada quando não acessa esses procedimentos. E aí, para além de defender os poucos e precários ambulatórios trans que temos, vale também pensar em alianças e diálogos junto à saúde comunitária e da família, na importância dos agentes de saúde, e em como a formação sobre questões trans nestes espaços é tão importante quanto haver hormonioterapia disponível nos centros de referência.

Mas voltando à CID, e entendendo isso, acho importante dizer que o ativismo internacional não almeja, neste contexto atual, apagar toda a referência às experiências trans na classificação do CID. Esta referência não vai sair, mas ser remanejada, dentro da Classificação. Ou seja, a proposta mais atual é de que tenhamos 2 códigos (Incongruência de Gênero na Infância, Incongruência de Gênero na Adolescência e Vida Adulta) na CID-11, e não mais localizados entre os códigos da saúde mental, mas em um capítulo sobre ‘Condições relacionadas à saúde sexual’. Não é que não haja riscos, nestes processos de despatologização, mas ao meu ver vale a pena correr, porque a possibilidade de ampliar a saúde é muito maior sem o diagnóstico de patologia mental. Temos de pensar, neste sentido, em quem o cistema de saúde deixa de atender por não se ‘encaixar’ nos modelos patologizantes que definem quem é ‘trans de verdade’?

– Estava lendo uma matéria sobre você no jornal O Globo e a jornalista pergunta se você ainda passava por transformações em seu corpo. Você diz que a única cirurgia que fez foi no joelho e que existencialmente foi muito importante. Para além do preconceito, você acha que existe uma tentativa de normatizar e cisnormatizar os corpos trans?

Sem dúvida, é parte da colonização que afeta a todas nós. Quando o jornalista me perguntou sobre isso, fiquei pensando no quanto esse tipo de pergunta é recorrente, e isso diz muito do que se passa na cabeça da sociedade cisgênera sobre nós. Temos corpos que são construídos em um sistema de consumo, além do mais, que são avaliados de acordo com critérios normativos de beleza, capacidade, capital cultural. O desejo de ter um corpo cisgênero, de que nossas feições estejam alinhadas ao lado cisnormativo, é constantemente produzido, assim. E especificamente com pessoas trans, é algo que está atrelado à legitimidade de ser o que somos: não ser passável é estar exposte à pergunta cisnormativa ‘é homem ou mulher’ de formas amplamente violentas. Para muita gente, todas nós – trans e cis – somos definidas pelo (suposto) órgão reprodutor, por x ou y que definiriam a verdade de um ‘sexo biológico’ ou até mesmo ‘divino’. E quando você não odeia o seu corpo, chega a pensar: “será que sou tão trans assim” (risos). São muitas camadas que nos colocam em xeque. Se a gente for associar a isso a camadas sociais e afetivas é um campo importante a debater: o afeto em nossos círculos sociais é cisheteronormativo? Os nossos corpos são submetidos à cisnormatividade o tempo todo.

– Vejo muitas vezes falarem sobre as problemáticas e dores de uma pessoa trans, mas percebo o quanto a cisnormatividade e essa cisgeneridade compulsória é tóxica para todas as pessoas, inclusive para as pessoas cis. Você acha que talvez as pessoas refletissem sobre a cisgeneridade elas talvez compreendessem mais a transgeneridade? Ou eu tô viajando aqui? haha.

Eu super concordo, não acho que é viagem não – e não seria problema se fosse, haha! Inclusive, é um ponto de aliança e empatia que em muitas oportunidades de conversa eu tento trazer, às vezes de forma mais irônica, às vezes de forma mais doce. Devemos pensar quantos corpos foram silenciados em expressões, trejeitos, brincadeiras, em nome dessa ideia de que “eu sou um menino, tenho que ser e me comportar assim”, “sou menina, tenho que ser e me comportar assim”. Em muitos espaços em que trago as violências trans, que não podiam brincar com brinquedos associados a determinado gênero, por exemplo, volta e meia há pessoas cis que se identificam com isso. São outros graus e processos, mas eu acho bem interessante relacionar a cisnormatividade afetando pessoas que não são trans. Tem um potencial de aliança muito forte ali. Já há uma aliança potencial das bichas afeminadas, das sapas mais masculinas, que tem uma dimensão da expressão e até da identidade de gênero, no sentido de refletir sobre isso de existir e se relacionar como homem ou mulher no mundo, que atravessam as pessoas que não são trans.



– Pedi para alguns leitores e leitoras fazerem algumas perguntas para você. O Gael Makalski perguntou: “Eu queria saber como você vê a questão de trans binários, na atual realidade onde cada vez mais se está quebra do esses padrões normativos… E a que ponto isso pode ajudar ou atrapalhar a uma pessoa se identificar como trans?


Oi Gael! Veja, eu acho que se caminharmos no sentido de haver mais autonomia e mais possibilidades de ser para as identidades de gênero, melhor. Se, por ex., tivermos mais pessoas experimento a fluidez não binária de gênero, penso que vai ser menos difícil e ‘exótico’ (no sentido de como o cistema exotifica isso) pensar em ‘transicionar’, para quem esteja se perguntando se é ou está trans travesti. O que me parece atrapalhar, muitas vezes, é como a legitimidade de algumas pessoas trans e travestis fica sendo comparada com a de outras na base de como elas são, se comportam ou se parecem com pessoas cis, ou de como questões de raça-etnia, classe e capacidade não são pensadas quando se analisam as questões trans (deixando, por vezes, questões críticas das comunidades trans e travestis negras em segundo plano). Que a gente possa des-binarizar esse cistema todo 🙂

– A Juciane BG Nossa declarou que você é maravilhosa e que teve a oportunidade de vê-la no Desfazendo Gênero. Segue a pergunta: “Gostaria de saber como ela analisa a transfobia nas relações intrafamiliares e afetivas/amorosas? Quais aspectos podem ser apontados na realidade das mulheres trans e dos homens trans? Não querendo cair na binaridade, mas no caso, haveriam violências especificas para trans homens e trans mulheres nesses ambientes? Estou desenvolvendo uma pesquisa nesse sentido e seria uma honra poder saber um pouco do que ela pensa sobre esse tema!

Juciane, querida…agradeço pelo maravilhosa 🙂 Ah, famílias e afetividades… são questões complexas e que me parecem estar relacionadas aos sofrimentos e violências que várias de nós, pessoas trans e travestis, passamos nas nossas trajetórias de vida. Violências na escola que não são bem acolhidas em casa, violências sexuais contra crianças ‘diferentes’, pedofilias em instituições religiosas…
E acho que tem questões comuns e específicas, no cissexismo contra mulheres trans e travestis, e homens trans. Para não alongar muito, mas acho massa pensar sobre como a transmisoginia e a questão da passabilidade afetam a vida ‘pós-transição’ de minas trans e travestis (algumas de nós, com uma trajetória considerável de ‘socialização masculina’; outras, em uma trajetória dissidente – viada, bicha, menina – desde cedo), e como a misoginia afetou a história ‘pré-’ e ‘pós-transição’ de homens trans, questões de violência sexual corretiva, etc. Na história afetiva, podemos pensar nas associações das mulheres trans e travestis aos estigmas do trabalho sexual, o que é diferente da dinâmica transfóbica sobre homens trans (do invisível ao exótico).

Acho que vale muito, sem binarizar como você disse, pensar sobre estas especificidades do cissexismo, e também sobre os elementos que fazem convergir outras questões. A patologização de nossas experiências de gênero, por ex., implica em algumas dificuldades compartilhadas, que podem ser pensadas como questões de autonomia corporal. O que nos traz para a aliança com importantes debates feministas, por ex. Espero ter trazido algumas coisas para pensar, tamos aí.

– Já a Paula Maia perguntou: Qual é a sua opinião sobre a jogadora de vôlei Tiffany, que é uma mulher transexual e está jogando num time ao lado de mulheres cis e vem recebendo vários ataques? Muitos de cunho transfóbico e outros pautados numa preocupação de que seria injusto…

Nossa, qualquer pessoa trans existindo em público e disputando espaço é delicado sempre, né? Eu não vou mentir que me dá uma agonia enorme, pensar nas energias cissexistas que as pessoas depositam diante do sucesso e rexistência de alguém como a Tiffany. Vou tentar colocar a questão de maneira rápida, pois várias outras pessoas falaram muitas coisas bacanas sobre isso. Bem, o cistema, por mais avançadão que esteja, nunca vai ter um critério cristalino para definir quem é ‘biologicamente homem ou mulher’, porque estes avanços vão justamente no sentido de que (1) a parada é mais complexa que um binário de cromossomos, hormônios e-ou características corporais; e (2) a identidade de gênero, a forma como existimos e nos percebemos nas nossas sociedades e culturas, é um elemento crítico sem o qual a ideia de ‘sexo biológico’, de corpo, não pode fazer sentido.


Se a gente filtrar um pouco os cissexismos da neurologia, da endocrinologia, podemos notar que há interações profundas entre nossos (des)encaixes no mundo e nossos processos corporais.
Sobre Tiffany, assim, a questão é dar forças a ela enquanto mulher trans, no direito de poder existir e trabalhar em algo que ela aprecia. E irmos re+pensando o cissexismo binarista das nossas divisões de gênero nos esportes, nas fronteiras que isso traz, nas violências que isso já ocasionou na história de atletas, etc. Para mim, é bem difícil as pessoas pagarem de endocrinologistas, neurocirurgiões e psicólogos para ficar avaliando se Tiffany pode ou não jogar no esporte feminino. Não podemos esquecer das pessoas, nisso tudo, sabe? Mas aí eu ia precisar falar dos problemas (e lavagens de dinheiro) nos esportes competitivos, também, e é uma outra conversa… mas é isso, capitalismo, desconfiança e competitividade acabando com o mundo.

– Você é formada em Economia e já atuou em editorias internas de empresas. Você já havia dito ao mundo que é uma mulher trans na faculdade?

Nessa época eu nem sabia das identidades trans, ou melhor, não as pensava como uma possibilidade para mim, em um mundo universitário de classe média. De todas formas, a maneira como eu me percebia desde o final da adolescência até parte da fase adulta, e que fui pesquisando e interagindo, era mais no sentido do crossdressing, percebendo minha expressão de gênero feminina como algo casual, esporádico, uma espécie de hobby. Foi só depois de formada que eu trabalhei em uma empresa na qual tive oportunidade de trabalhar fora do Brasil, no Canadá, e lá foi onde eu pude ter maior liberdade de experimentar e pensar minha identidade e expressão de gênero. Nesses quatro anos que eu fiquei lá, o processo foi surgindo e eu fui vendo que não era só um hobby em que eu saía ‘montada’ no fim de semana: notei que tinha algo a mais que isso, e foi uma agonia que eu vivi por alguns anos, de pensar ‘então viviane é uma existência que não está só em montagens, nesse lugar do escondido’. Foi um crescente… comecei a sair em alguns bares onde meninas trans frequentavam, às vezes eu até ia de boy, mas no geral ia montada… Quando comprei uma peruca nova e olhei no espelho, certo dia, vi que não estava só montada, que era uma existência, algo mais profundo. No processo de pensar a minha volta ao Brasil, eu pensei: vou sair desse armário e enfrentar esse processo de abertura um tanto pública, e isso foi a partir de 2012.

– Você lembra da primeira travesti, mulher transexual/ trans, que viu pela primeira vez? E o que pensava naquele período sobre ela?


Eu lembro de uma personagem que tinha me marcado muito, a Sarita (da novela Explode Coração, 1996). É uma personagem e uma forma de vida que me fascinava, mas que era algo que colocavam como vergonhoso e impossível pra normalidade na cisheterolândia. De pessoas trans do dito mundo real, eu me lembro de passar na minha cidade nos pontos de travestis, lá pela adolescência e início de vida adulta. Eu ficava muito curiosa. Foi um dos primeiros contatos, antes da transição, de fazer a linha do cliente, t-lover, como boy, conversando com algumas mulheres trans e travestis…mas foram coisas esporádicas. Como disse, minhas interações foram mais constantes a partir das liberdades que sair do país viabilizaram.



– Você é de São José dos Campos e atualmente mora na Bahia. Ir para Salvador teve relação com sua transição de gênero?

Teve sim, de forma significativa. Em 2011, eu voltei para casa dos meus pais depois de uns bons anos morando sozinha. Só que eu voltei no armário, inicialmente, pois eu ainda não vivenciava socialmente minha identidade de gênero enquanto mulher trans, por assim dizer. Foi uma coisa de voltar para o armário, naquele momento. Mandei tudo que tinha associado ao feminino para a casa de uma amiga. Eu fiquei nesse armário alguns meses, mas fui frequentando algumas rodas de conversa do CRT, , e então aos poucos pessoas na família começaram a desconfiar. Só que chegou um momento que estava desconfortável demais e rolou um curso de teoria queer em Salvador, em janeiro de 2012. Fui para ficar uma semana, acabei ficando mais uma semana e, quando voltei para São José, eu estava decidida a voltar para cá, para tentar o mestrado. Em Salvador, pensando mais enquanto ativista e implicada no meio acadêmico, fui estudar questões relacionadas a identidades de gênero de maneira muito entrelaçada às minhas próprias vivências. E assim foi rolando a minha transição de gênero social, onde meus aprendizados enquanto transfeminista, pesquisadora e profissional vieram de muitas pessoas incríveis, algo que me deixa muito feliz neste afirmar-se viviane que parecia tão inconcebível.

– De qual maneira a sua transgeneridade atravessa sua vida profissional hoje em dia?


Minha identidade de gênero constitui uma parte significativa do que tenho feito atualmente, em parte porque acho que é um compromisso político necessário, diante dos genocídios cissexistas, mas também porque é uma forma de se afetar e estar em contato – intelectual, existencial, presencial – com pessoas incríveis que têm lutado por outros mundos possíveis. Quando penso nas coisas que tenho aprendido e compartilhado com tantas pessoas trans e travestis, fico muito grata à vida, e ciente de meus privilégios. É uma questão delicada, trabalhar sobre questões trans e travestis sendo uma pessoa trans e travesti, porém me parece um lugar importante de se estar.

De todas formas, também penso na necessidade de enfatizar que minha vida profissional não se limita a falar e pensar sobre questões trans. É um enredo da colonialidade que me parece importante destacar… nesse sentido, trabalho e penso sobre estas questões pelas razões acima, porém isso não me limita a elas. Assim como não limita nenhuma de nós, pessoas trans e travestis.

– Ser formada em Economia te dá uma visão diferente de como esse sistema observa a população trans? Vemos, por exemplo, algumas empresas chamando as pessoas trans para trabalharem… É algo que devemos apenas comemorar ou pode haver ressalvas?

Acho que essa formação traz, de cara, um aspecto muito complicado em relação às comunidades trans e travestis, que é a precariedade e falta de dados e informações, em especial dados e informações que não sejam produzidos a partir dos vieses patologizantes – me parece haver distorções e vieses de seleção sérios nos estudos pautados pela patologia do dito ‘transexualismo’, por ex. Então, como economista, é bem desolador perceber como o cistema não tem nenhum interesse em produzir análise e ferramentas para garantir nosso bem-estar e autonomia econômica, como comunidades trans e travestis.


Acho que é importante pensar sobre as complexidades destes processos de ‘inclusão corporativa’, sabe. Se por um lado não podemos negar que podem ser processos que garantam alguma dignidade a algumas de nós pessoas trans e travestis, não se pode deixar de lado a análise crítica de (1) como essa inclusão é mais mobilizada para hipervisibilizar a ‘presença trans’ como propaganda da diversidade corporativa do que efetivamente enfrentar o cissexismo institucional do espaço, nem de (2) como esta inclusão não desestabiliza nem transforma as relações crescentemente precarizadas, ‘flexibilizadas’ de trabalho destes tempos, e nesse sentido como a ‘propaganda da diversidade’ serve como uma distração pra deixarmos de dar importância aos processos mais gerais da retirada de direitos das pessoas trabalhadoras.

Essas preocupações certamente não vêm somente da formação em ciências econômicas, tão centradas no cistema capitalista globalizado e suas reproduções de expropriações e ‘gestões de genocídios’…

– Vi que alguns lugares o seu sobrenome vem assinado com o “V” minúsculo e abreviado. Há alguma reflexão neste sentido?


Eu usei em alguns momentos o “v” minúsculo por fazer referência a Vergueiro, sobrenome de família por parte de mãe. Usei este v. junto de viviane no minúsculo também, em parte porque não sabia se minha mãe iria gostar de ver o sobrenome dela associado a mim e ao meu trabalho, em parte por me inspirar no trabalho e rexistência de bell hooks e associar o uso do minúsculo à denúncia do cissexismo em não reconhecer meu nome, Viviane Vergueiro Simakawa, como legítimo. Mas aí chegou um momento em que quis usar por extenso, achei que era importante… Foi um processo de perceber que ter nome e sobrenome é uma forma de se autodeterminar no mundo, de saber de onde se veio e para onde se quer ir, como me ensinou em várias ocasiões a intelectual, ativista e inspiradora Vilma Reis.


– Quais são os passos, trabalhos e projetos para 2018?

Sigo nas pesquisas do doutorado, onde me proponho a pensar a produção de dados e informações sobre as populações trans, travestis, não binárias e de perspectivas não ocidentais, colaborando para a construção de espaços onde possamos dialogar e lutar sobre questões trans e travestis (entre ativistas, pesquisadoras, profissionais, públicos em geral), e tentando fortalecer a percepção de que é necessário mais protagonismo e presença trans e travesti para debater as suas/nossas demandas políticas. Vai por aí… e tentando ficar bem, porque este será um ano difícil e imprevisível. Me preocupa muito como a crescente militarização pode impactar sobre as comunidades trans e travestis nas intersecções de raça e classe, em como podemos fazer a visibilidade trans ser efetiva pelo nosso bem-estar como um todo.


– Sabemos que de todas as mazelas que a população trans e travesti sofre no Brasil. O que essa vivência trans trouxe de positivo em sua vida?

Em minha trajetória de classe média, quase sujeito universal (de vivência como homem cis hetero), dentro da branquitude por parte de mãe, e ancestralidade japonesa por parte de pai, nessa trajetória pequeno-burguesa de “vai para faculdade, sai com um emprego bacana e vai fazer sua vida”, ter a oportunidade de transicionar, de me autoafirmar como trans, e fazer parte de uma comunidade que resiste a um genocídio, com tanta criativdade, com tantas possibilidades de alegria, isso para mim é um grande presente e aprendizado nessa vida. É algo que me faz uma pessoa humana mais empática, mais complexa e me desafia constantemente a desestabilizar os privilégios que me constituem. Mas nesse contexto histórico, para a gente que quer se formar e atuar sobre esse mundo, esse é um presente que vem acompanhado de muitos amargores. Mas a gente forma comunidades de formas surpreendentes, ainda assim, e espero que melhoremos a cada dia nisso. Entendendo a nossa vivência trans como produzida em comunidades, com outras pessoas trans e travestis, eu acho que tem muitas lições e processos de resiliência aí para investirmos em estratégias e ferramentas voltadas à nossa autonomia, à nossa dignidade.

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