Pop e Art Realidade

Tentaram calar Marielle Franco, mas sua voz ecoou


Por Neto Lucon

O assassinato de Marielle Franco na quarta-feira (14) abalou grande parte do Brasil. Socióloga e mestra em administração pública, ela simbolizava a voz da mulher negra, da favela, da mãe solteira, LGBT e que luta pelos direitos humanos. Também tinha voz potencializada por ser vereadora da Câmara do Rio de Janeiro – a quinta mais votada das últimas eleições.

Sua presença em mesas, debates e manifestações eram constantes, assim como a construção de uma política que escrevia e atuava na ótica de quem vive o drama. Criada na Maré, ela reivindicava “o lugar de favelada para fazer política de outra maneira” e estava disposta a combater as opressões naturalizadas em nosso Brasil em diversas esferas.

Lutava, por exemplo, para que aqueles que entrassem na favela não precisassem mais acender a luz e para aqueles que saíssem não precisassem mais escutar de agentes de segurança que não matou ninguém. Também falava sobre questões envolvendo a mulher, negra, e que vive em comunidade, bem como assédio e violência sexual, maternidade, mãe solteira, creche a noite para aquelas que trabalham e estudam no período. Também tentava incluir dias contra LGBTfobia, visibilidade lésbica e contra o Encarceramento da Juventude Negra no calendário municipal.

No último ano, o NLUCON escreveu duas notas sobre Marielle. Uma em que ela propiciou a entrega da medalha Chiquinha Gonzaga à professora, pesquisadora e transfeminista Jaqueline Gomes de Jesus, a primeira mulher transexual negra a receber a honraria, no Dia Internacional da Mulher. Outra nota foi por contratar como assessora a estudante de serviço social Lana de Holanda, que é mulher trans. Lana contava que recebeu um crachá com o nome social.

Dentro de um sistema com tantos políticos conservadores e fundamentalistas religiosos, Marielle parecia ser um dos poucos suspiros. Abarcava em sua figura e no seu discurso tantas vozes, tantos rostos, tantas vivências e políticas que reivindicamos. Trazia um ativismo interseccional e acolhedor, defendendo que a revolução seria “feminista, classista e com o debate da negritude”.


Para quem não sabe, Marielle começou no ativismo pelo direito à vida, ao trabalho e a educação dentro do curso de Ciências Sociais, da PUC-Rio aos 23 anos. Ela havia retomado aos estudos, depois de ter interrompido aos 19 para criar a filha. Seu professor de história era o atual deputado estadual Marcelo Freixo, de quem se tornou assessora parlamentar. Posteriormente, tornou-se mestre em Administração pública e lançou a candidatura própria. 

Há duas semanas, tornou-se relatora da Comissão da Câmara de Vereadores para acompanhara atuação das tropas na intervenção federal na área de segurança do Rio. E denunciou contra policiais do 41º BPM de Acari. Há quatro dias, publicou nas redes sociais sobre o assassinato do jovem Matheus Matheus Melo, que poderia estar associado a mais um homicídio envolvendo a PM. Ela questionou: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

Na última quarta-feira Marielle foi assassinada aos 38 anos com tiros na cabeça. Após sair do evento Jovens Negras Movendo Estruturas, na Casa das Pretas, na Lapa, Centro do Rio, ela voltava para casa ao lado da assessora e do motorista Anderson Pedro Gomes. No caminho, foram seguidos por outro carro e alvejados. Apenas a assessora sobreviveu. Muito mais que um homicídio – crimes também lamentáveis e irreparáveis que ocorrem cotidianamente por motivos pessoais – a morte de Marielle representa uma execução. Trata-se de uma ação premeditada que busca evitar que a pessoa faça, fale ou se envolva em determinada questão. Ou seja, um assassinato para calar a voz de Marielle.

Quem matou ou mandou matar achava que seria mais uma morte. Afinal, quem liga para as mortes das mulheres negras, da favela, que se relaciona com mulher e que tem no discurso pautas voltadas para os direitos humanos? Quantas morrem e ninguém fala nada? Quem matou ou mandou matar achou que amedrontaria futuras militâncias. Afinal, quem se arriscaria a se colocar na linha de frente de novo? Quem pensou nisso, errou o tiro. Marielle era uma das representantes da própria luta contra essas opressões e contra o próprio genocídio da população negra. Ainda que muitas mentiras venham sendo espalhadas e que certamente tentarão culpá-la pela própria morte, esta luta não acabou naquele carro.

O assassinato provocou manifestações, reivindicações, chamou atenção da imprensa internacional, obrigou representantes políticos a se manifestar e colocou em xeque todo o sistema… Suas pautas continuam sendo levantadas ainda mais fortemente. A dor ainda persiste e a luta por justiça perdurará – ainda que a morte seja irreparável e a perda para a política seja imensurável. Mas uma coisa é certa: tentaram calar Marielle, mas sua voz foi ampliada e ecoa em todas e todos nós. Que Marielle seja sempre lembrada para que um dia a sua pergunta não seja mais necessária: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Marielle, Presente!

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