Pop e Art Pride

Filme sobre artista travesti Maria Moraes é pura poesia, força e resistência nas ruas de Manaus


Por Neto Lucon

Maria Moraes é uma travesti de 21 anos que está mergulhada na arte popular nas ruas de Manaus. Faz intervenções, performances, dança brasileira, batuque, textos, conta história e evidencia por meio da arte o ativismo em prol das pessoas trans e travestis. Recentemente, foi protagonista do filme “Maria”, da Eparrêi Filmes.

A obra dirigida por Elen Linth e Riane Nascimento, evidencia o olhar, a poesia, as reflexões e performances da atriz. Mostra desde atividades triviais na capital do Amazonas, como comprar o cigarro, levar o cachorro de volta para casa, dobrar as roupas, até reflexões profundas que escancaram a vivência de uma travesti.

“Eu nasci aos 16 anos, numa cidade ensanguentada de corpos de peito e pau. Na infância eu já vivia no mundo de Maria, eu já era Maria, só não tinha nome”, diz a atriz, relembrando o primeiro vestido, a primeira sandália e o primeiro processo de hormonização. “Aos 18, foi meu primeiro aniversário, a primeira perlutan e o primeiro amor. Foi quando eu me amei”.

Ela também diz amar a cidade e que adora passar pelas praças e ver o sorriso das pessoas. Imagens do local e de outras ocupam a cena, evidenciando a relação. Maria, todavia, afirma que sempre fica com a cabeça abaixada. Ela conta que as pessoas ignoram as travestis, ao mesmo tempo em que só esperam vê-las a noite, em uma esquina de preferência. “Elas se surpreendem ao me ver de manhã”.

Diferente de outros documentários, o filme Maria acerta por não se limitar às curiosidades, ideias e propostas das cineastas cisgêneras em cima de uma personagem trans de rica bagagem. A sensibilidade do filme está em todo o processo, que contou com o olhar, a narrativa e a poética da própria Maria. Ou seja, mais que uma personagem a ser explorada, ela é criadora, narradora e dona da própria história. Também contribui para fazer cinema.

“Eu não sou só um corpo, eu sou muito mais que isso. Nós também somos luz do dia”, declara. “Maria, luz do dia, gostei”, continua.


Dentre uma fala e outra reflexão, Maria também faz algumas de suas performances e intervenções artísticas. As fotografias de várias cenas são poéticas, profundas e lindas. Em uma delas, a atriz dança com uma flor na mão, sendo que apenas a sombra dos seus movimentos é registrada. Em outra, performa com batom e reivindica o nome Maria na Rua 10 de Julho com Ferreira Pena, número 37. É o local onde mora, estuda, vai ao banheiro e onde acha que vai morrer.

Com a flor na mão, Maria brinca de “bem me quer, mal me quer”. A resposta vem com o resultado do filme, que vem sensibilizando o público e fazendo bonito em festivais. Dentre as vitórias, ele venceu o Prêmio Cineclubista de melhor Filme para Reflexão (FEPEC) do Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, Recifest, 2017, e levou o prêmio de melhor filme da região no Festival Olhar do Norte. Maria também foi premiada como melhor atuação. 

Vale a pena assistir e reverenciar.

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