Pop e Art Pride Realidade

Minha amiga morreu pela transfobia – Géia Borghi, presente!

Por Neto Lucon

Essa pessoa que está ao meu lado na foto é a Géia Borghi. Uma enfermeira, filha, irmã, amiga e mulher transexual. Ela vivia com a mãe, que era deficiente visual, era uma das melhores profissionais da ala da pediatria do Hospital Mario Gatti, em Campinas, uma artista desde os tempos do Bolinha, e uma das pessoas mais generosas que conheci.

Géia sempre me recebeu com muito afeto, atenção e inteligência. Visitei sua casa diversas vezes, saí para andar de carro, tomar café no centro da cidade, fui para balada acompanhar as performances, recebi fotos autografadas e mensagens no Facebook de apoio ao trabalho.

Para além da amizade, ela também foi capa do livro reportagem que escrevi em 2008, Por um Lugar Sol, que falava sobre a vida daquelas que driblaram a transfobia e se inseriram no mercado formal. Livro que não publiquei porque todas as editoras que encaminhei entortavam o nariz: “Livro de travesti no mercado formal de trabalho? Ninguém quer saber disso”.

Neste dia, visitei a casa de Géia e passei uma tarde maravilhosa entre amigos. Ela fez café, serviu em uma taça, me indicou o livro da Carmen Miranda, mostrou os figurinos dos shows, conversei com a mãe dela e conheci um namoradinho da época. Papeamos sobre a vida e da experiência que ela teve em um acidente de carro. Ela me deu uma foto dela servindo ao exército. Foi a última vez que a vi com vida.

Géia foi encontrada morta no dia 9 de outubro de 2014 em Monte Mor. Estava carbonizada e com um tiro no peito ao lado de um veículo em chamas. Estava com os braços amarrados e com uma mordaça no momento da morte. Em seu velório, o caixão estava lacrado. Por instinto, levei uma foto dela de um show e coloquei em cima. Todos se despediram por meio desta foto. No túmulo, ainda estava o nome masculino.

Quando alguém fala que eu não deveria me envolver mais, pois a luta trans não é minha, penso em Géia e em tantas travestis, mulheres transexuais e homens trans que passaram por minha vida, me transformaram, trocaram energias comigo, marcaram, e simplesmente partiram por conta do preconceito em diversos níveis. Penso na Claudia Wonder, na Mirella de Carlo (que recebeu um prêmio ao meu lado semanas antes de seu assassinato), na Laura Vermont, Allóes Carvalho, Kyara Barbosa, Marcia Medeiros, Kayla França, Melina…

Desta forma, digo que a luta não é só minha, não é um assunto que se refere apenas à população LGBT ou trans. Essas mortes não são individuais. Além da perda imensurável dessas vidas e de toda dor envolvendo, todos perdem. Família sofrem, amigos sofrem, pessoas próximas sofrem, a comunidade fica abalada e com medo de ser a próxima ou o próximo. Em uma manifestação na morte de Géia lembro da fala de uma pessoa que disse que Géia cuidou dela quando era criança e que recentemente ajudou a cuidar da filha dela. E de uma enfermeira que disse que ela era a melhor em achar veia de bebê e que todos do Hospital estavam de luto. A transfobia interrompeu isso. A transfobia vem matando pessoas incríveis. É assunto de todo mundo.

Escute mais, sensibilize-se mais e apoie mais essa luta.

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