Beleza Pop e Art

Magô Tonhon estrela campanha da Skol e reflete sobre corpos trans, gordos e negros na publicidade

Por NLUCON

A arquiteta urbanista Magô Tonhon é a mulher trans que estrelou a campanha da Skol que figurou neste carnaval. Gorda e gostosa (dispensamos o “empoderada”, ainda que seja, mediante a uma postagem da modelo) ela aparece ao lado de mulheres cis e homem cis celebrando a diversidade dos corpos.

A curadoria foi da jornalista Flávia Durante e as fotos de Murilo Mendes contaram com Genize Ribeiro, Gabriel Seabra e Erika Theodoro. Elas e ele foram pintados pelo artista Douglas Reder. Em eventos externos, houve ainda a presença da modelo Michele Simões, que usa cadeira de rodas. 

Magô contou em entrevista ao site Universa, do UOL, que sua relação com o corpo sempre esteve em questão. Tanto no período em que faziam pressão para que ela se visse como um menino, quanto quando passou a positivar os quadris – característica atribuída ao feminino, que pensou em removê-lo com cirurgia anteriormente – no processo de se entender mulher trans.

Ela diz que a campanha contribui para que novas referências sejam dadas às pessoas e que rompa com a norma cis, hétero e branca padrão. “Não teremos a potência para representar a pluralidade de todos, mas é necessário redesenhar as referências de corpo e de beleza. Se eu tivesse nascido uma geração mais tarde talvez tivesse sido mais fácil se eu visse pessoas como eu, mas estou cada vez mais perto de ser a pessoa que sempre sonhei para mim”, declarou.

QUESTÃO VAI ALÉM DA AUTOESTIMA

Ao NLUCON, a arquiteta urbanista afirma que aceitou participar da campanha, porque há várias questões a serem levantadas em cima do corpo gordo, trans e/ou negro. A primeira delas é que há um componente político de fazer corpos gordos, trans e negros um nicho de mercado. “A medida em que aparecemos, em que compusemos campanhas e estes corpos aparecem em peças publicitárias, podemos afirmar que é gerado um alargamento de quais corpos estão autorizados a servir de modelo para estrelar campanhas”, pontua.

Ela também questiona o motivo desses corpos somente agora passarem a ser vistos como passíveis de compor essas publicidades. “É porque essas empresas são benevolentes e sem nenhuma intenção? Definitivamente não. Se há algum mérito é o nosso de poder então fazer dos nossos corpos em tempos de carnaval e de culto ao corpo padrão, UMA OPÇÃO POSSÍVEL DE EXISTÊNCIA nos imaginários de quem está vindo e que certamente verão disponíveis muitas representações de corpos possíveis”.

Magô aponta que existem questões que antecedem ou que tornaria o olhar mais complexo para este momento histórico. Ela indica o texto de Jéssica Ipólito, mulher cis, negra, gorda e lésbica, “A Discussão é sobre nicho de mercado no carnaval – não tem nada a ver com autoestima” (leia aqui).

Sobre a Skol, ela diz que a empresa é conhecida por cultura por ano a repetição da norma padronizada da cisgeneridade e da branquitude. “Para mim, saber que houve esse momento em que a empresa passou a se interessar por nós talvez seja o único mérito. Não somos, historicamente, incapazes de contribuir com nossas lutas, de transformações ainda que pequenas e limitadas como no caso de uma empresa, resolver nos fotografar para dizer que nosso corpo é possível. Nosso corpo não só é possível como historicamente, se pegarmos o culto promovido por ela, até então também foi negado. Este é o ponto”.

BASTIDORES E TRANSFORMAÇÕES

Nos bastidores, Magô afirma que surgiram questões a serem problematizadas, como o fato de ser tratada no masculino logo na recepção por um homem, mas destaca que a equipe esteve aberta e a ouvir – sobretudo por ser composta esmagadoramente por mulheres. Magô foi a única mulher trans.  

“Essas problemáticas que surgiram nos bastidores serviu para que eu compreendesse mais uma vez a importância dos curtos-circuitos gerados em toda cadeia de trabalho só com a presença de corpos gordos, trans e/ou negros. Não é em vão esses choques, esses tensionamentos são necessários e ao meu ver são prova de que é insuficiente colocar corpos e identidades de gênero que não se conformam à norma branca cis hetero padronizada sem que se preocupe e se responsabilize pelos choques que estes corpos são capazes de causar no pensamento e no tratamento que está pautado e atravessado o tempo todo pela norma”.

Ativista e militante “assumida”, ela diz que assume com frequência posturas que militam e tencionam ambientes e corporações para que o fruto destas tensões se instaure pequenas transformações. “Essas transformações não devem ser desprezadas. A nossa atuação enquanto militante não é a mesma a depender do lugar que ocupamos nas mais variadas frentes de batalha. De alguma forma, ainda que pontualmente, eu acredito que tenhamos sim causado transformações sem o qual aquelas pessoas todas envolvidas neste trabalho não esquecerão”, finaliza.

Confira as fotos:

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