Pop e Art Pride

Pessoas trans e travestis revelam suas atuais histórias de amor e mostram que o afeto importa

Por Neto Lucon
Arte: Alberto de Avyz

O Dia dos Namorados é comemorado nesta terça-feira (12) e a grande mídia, empresas e lojas já começam a fazer suas matérias, ressaltar histórias e a indicar produtos (sim, não esqueçamos que é uma data comercial) para quem o amor sorriu. O foco são os casais héteros cis, com algumas exceções estrategicamente posicionadas e pontuadas.

Todos os anos, o NLUCON mostra que a regra é ressaltar a diversidade e investir nos amores plurais. Já falamos de casais lésbicos formados por mulher trans e cis. Já falamos de casais héteros, formados por mulher trans e homem trans, ou mulher trans e homem cis. Já trouxemos o romance de um casal gay, formado por homem trans e cis…

Em 2018, contudo, ao invés de trazer uma ou outra história, decidimos democratizar o momento e pedir para os próprios leitores e leitoras enviarem suas fotos e contarem brevemente suas histórias. Afinal, falar de amor e afeto é muito importante. Em 24h, recebemos dezenas de mensagens, fotos e declarações de amor. Muitas delas derrubam mitos e nos fazem suspirar.

Vale lembrar que ninguém precisa namorar para ser feliz ou completa/o. Há quem prefira estar solteira, vivendo outros tipos de história. Há quem acabou de se livrar de um embuste. Há quem ainda não teve a sorte de esbarrar com o par ideal, mas que está bem. Há quem esteja num processo de amor próprio, descobrindo a maravilha de estar na própria companhia (…). Até porque há quem esteja em relacionamentos tóxicos e, nestes casos, é melhor estar sozinho/a que mal acompanhado/a.

Agora, respire fundo e confira as histórias:

Raphaella O Hara e James – 2 anos
“Esqueci do primeiro encontro, dormi e não fui. Mas ele não desistiu”

Raphaella é mulher trans e James é homem cis


“Eu e meu namorado nos conhecemos no Tinder, somos um exemplo que funciona (risos). Ele é inglês, moramos em Londres. São dois anos juntos de muito amor e companheirismo. No nosso primeiro encontro, eu estava tão cansada que esqueci e fui dormir. Fui ver no outro dia as mensagens dele e mesmo assim ele não desistiu. Pediu para sairmos e eu, com vergonha, fui para não o magoar. Houve uma conexão instantânea. Fui a primeira pessoa trans com quem ele se relacionou e logo me assumiu para os familiares, sem medo algum. Me receberam maravilhosamente como parte da família. Ele me deu força para eu mudar minha vida para muito melhor. O que mais admiro nele é o caráter imenso e a paciência comigo. Vivemos num país em que em relação ao preconceito é mais tranquilo. Mas, nas poucas vezes que passamos por algum inconveniente, ele sempre me defendeu com unhas e dentes. Amo para sempre”.

Fernando Carneiro e Steph Siqueira – 5 anos
“Já sofremos preconceito, mas ela sempre esteve do meu lado”

Fernando é um homem trans e Steph é uma mulher cis


“Conheci o amor da minha vida no dia 17/08/2013 numa festa. Por coincidência já nos conhecíamos virtualmente. Não esperávamos que iríamos ficar juntos e muito menos que iria durar esse tempo todo. Temos brigas como todo casal, mas nosso amor supera tudo. Já sofremos muito preconceito por conta da minha transexualidade, sim, mas ela sempre permaneceu ao meu lado. Ela foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. É carinhosa, companheira, paciente, tudo o que nunca tive. Sempre estamos juntos para tudo. Eu a amo demais”.

Melina Kurin e Leona Wolf – 13 anos
“Quando soube que ela é trans, dei minhas roupas, emprestei minhas maquiagens”

Leona é uma mulher trans e Melina é uma mulher cis


“Conheci a Leona na faculdade em 2004. Ela estava fazendo uma sala temática, eu me interessei no tema e nos conhecemos. Conversando, descobrimos que estávamos lendo o mesmo livro O Segundo Sexo, apenas tinha um exemplar na biblioteca e cada uma estava com um tomo, querendo sempre pegar emprestado o outro que nunca aparecia na biblioteca. Ficamos interessadas, mas nunca mais nos encontramos naquele ano. Se passaram alguns meses, no ano seguinte teve uma festa do curso de Ciências Sociais e nos reencontramos, eu lembrava dela, mas ela tinha esquecido de mim, paramos para conversar e conversa vai, conversa vem acabamos nos beijando e nunca mais paramos.

Já se passaram 13 anos juntas, 8 morando juntas. Quando nos conhecemos ela ainda era ele, mas eu notava que havia alguma diferença, mas justamente isso me enamorava ainda mais. Fazem uns dois anos e fizemos um curso sobre gênero, e isso mexeu muito com ela, ela começou a estudar compulsivamente sobre transgeneridade, até que ela me contou sobre sua conclusão. Eu tive medo: família, trabalho, sociedade, etc e que isso também tivesse a ver comigo, que não gostasse mais de mim. Conversamos muito e seguimos em frente juntas, dei algumas roupas minhas, emprestei minhas maquiagens e saímos para comprar roupas, makes e acessórios. Leona tinha saído do casulo, sentiu meu apoio, mas sentiu o baque do primeiro dia de batom, do primeiro dia de saia… É, a vida de uma mulher não é fácil, de uma mulher trans então…
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Pensamos bem por onde andar, nos mantermos fortes para poder reagir caso aconteça algo; os olhares de reprovação são constantes e deixam as pessoas confusas, mas nós encaramos e vamos embora. Nós sabemos que muitos casais se desfazem nessas circunstancias, mas nós nos mantemos forte e unidas. Antes eu sentia que algo estava sendo ocultado, hoje eu não sinto mais isso, mas não era escondido de mim, era dela mesma, mas o amor é fundamental para seguir em frente.

Karen Maria e Leandro – 2 meses
“No segundo dia ele me pediu em namoro”

Karen é mulher trans e Leandro é homem cis

“Eu já estava desistindo de encontrar alguém normal, até que conheci esse Zé no Badoo. Do nada combinamos e batemos papo. No segundo dia, ele me pediu em namoro, só faltou o anel de coco (risos). Falou: ‘Bora morar juntos?’ e eu aceitei. Ele já me apresentou para a família toda, para os amigos e tem zero vergonha do nosso amor. Ele ainda fala algumas asneiras, devido à criação machista e LGBTfóbica, mas sempre diz: ‘Eu esqueço tudo que aprendi do que é ser homem por amor a você”. E diz: ‘Preciso ler mais, me atualizar mais, eu tô ficando defasado como cidadão’. É um hino de namorado, não é perfeito, porque é homem (risos), mas estou muito satisfeita com meu relacionamento. Estamos dois meses juntos e espero que dure muitos e muitos anos”.

Márcia Fernanda de Oliveira e Danilo de Almeida – 7 anos
“Ele foi meu cliente, pagou o programa, mas ficou para um café”

Márcia é travesti e Danilo é homem cis


“Sou prostituta e sempre tive metas a conquistar, então estava decidida a não me relacionar com ninguém, a não ser em trabalho e por dinheiro. Eu o conheci no dia 02 de janeiro de 2011, quando tinha 26 anos. Ele já me ligava insistentemente no fim de 2010, mas fui enrolando porque dava preferência àqueles que já conhecia. Até que deu certo e agendamos. Ele chegou, pagou o combinado e após o programa ofereci um café para ver se ele se mancava e ia embora. Só que ele fumava e aceitou (risos).

No dia seguinte, ele me mandou uma mensagem desejando sorte na primeira aula. Fiquei feliz, surpresa, mas falei para ele só me procurar para programa. Ele me pediu uma chance e eu disse que não me relacionaria com ninguém enrolado – pois ele havia dito que se relacionava com uma mulher cis mais velha e casada. Na mesma semana ele marcou outro programa e nos vimos. Dias depois, e me chamou para sair. Combinei em um barzinho bem movimentado da cidade em um sábado à noite, só para deixar ele em pânico (risos). Mas para a minha surpresa ele tirou de letra. Depois, saímos mais três fins de semana nos mais variados programas; barzinho, cinema, banho de cachoeira.

No dia 29 de janeiro ele me pediu em namoro com aliança e tudo. Aceitei e logo fomos morar juntos. Na mesma época a pessoa com quem ele se encontrava descobriu meu site de trabalho e ligou me ameaçando, avisou que falaria para a família toda dele é por aí vai… Com menos de dois meses de namoro conheci a família toda dele, ele nunca (até hoje) falou ou entrou no assunto da minha transexualidade, sempre foi da opinião que não devemos satisfação pra ninguém, e nunca tivemos problemas com familiares ou amigos.

Sonhamos juntos, brigamos muito, passamos por momentos difíceis, mas sempre um levantando o outro. Brinco de falar que é meu noivo, pois tenho pavor de relacionamentos onde em dois ou três dias ambos se tratam como marido ou mulher. Sonho em casar de papel passado, véu e grinalda, porém sem depender do sexo pago pra me manter, estamos cada vez mais próximos, uma condição dele foi a de que eu não parasse de estudar em meio ai trabalho e nisso tenho vários cursos nas mais diversas áreas, desde cabeleireira até segurança no trabalho. São mais de 7 anos de muito amor e acima de tudo cumplicidade, essa história é sobre o amor, não de amor!!!”.

Isabella Santorinne e Raffa Carmo – 2 anos e 7 meses
“Nosso amor é armadura para lutar contra a transfobia”

Isabella é mulher transexual e Raffa é homem trans


“Sou uma mulher transexual de Belém do Pará. Este na foto comigo é meu marido, amante, parceiro, confidente e namorado Raffa. Ele é um homem Trans e nós formamos um casal heterossexual. Nos conhecemos em uma marcha denominada “Marcha de rodas as famílias” e foi amor à primeira vista. O Raffa é o primeiro homem trans que me relaciono. Posso dizer que sou muito feliz em meu relacionamento e muito mais completa também, pois estou ao lado de uma pessoa que me compreende e me entende por compartilhar da mesma realidade que eu, que é a vivência de uma pessoa trans.

E quando me perguntam se eu me arrependo de ter “trocado uma piroca por uma buceta” ou “um homem por uma mulher” tentando rebaixa-lo/inferioriza-lo, eu respondo: Eu não me relaciono com genitálias e sim com o gênero. Nesse caso, o gênero masculino, ou seja, com homens. Portanto, o fato de o meu namorado ter uma vagina não faz dele menos homem que ninguém. Assim como, eu não sou menos mulher por ter um pênis. Afinal, nossas identidades não devem ser medidas ou obrigatoriamente impostas pela genital que temos entre as pernas, e sim pela forma que nos vemos, nos sentimos e nos expressamos socialmente.

Acredito que o fato de morarmos juntos nos fortaleceu muito mais para conseguir enfrentar o preconceito e a não aceitação da sociedade de frente. O que mais gosto no Raffa é o homem verdadeiro, honesto, carinhoso e paciente que ele é, afinal para conseguir me “levar” tem que ser bem paciente mesmo (risos). Por fim só sei que a cada dia nos tornamos mais fortes para enfrentar esse país tão transfóbico e não esquecer que o amor que construímos é a nossa maior armadura”

Angel Oliver e Gabriel – 2 anos
“Ele é tímido e eu mesma pedi em namoro”

Angel é uma mulher trans e Gabriel é homem cis


“Conheci o Gabriel no Facebook. Ele me adicionou em um grupo de relacionamentos trans e aí começamos a conversar. De cara tínhamos mil gostos em comum e também descobri que ele morava próximo de mim no Rio de Janeiro. Nos encontramos e já rolou química de primeira. Saímos três dias seguidos e, no terceiro, ele me mandou uma mensagem linda e romântica pelo WhatsApp, enquanto eu dormia. Ele dizia que se apaixonou muito rápido por mim. Ele disse pelo zap porque é muito tímido (risos). Ao acordar e ver aquela mensagem linda eu mesma o pedi em namoro. Imediatamente ele aceitou. Estamos juntos há dois anos, sendo um de namoro e um de noivado. Ele me pediu em casamento quando completamos um ano e um mês juntos. Sim, ele me assumiu para toda a família e todos me respeitam”.

Zara Santana e Eudes Santana – 9 anos
“A transição no meio do casamento mostrou o quanto nos amamos”

Zara é mulher trans e Eudes é mulher cis

“Eu e minha esposa nos conhecemos em 2007 no Rio de Janeiro em um encontro de amigos de internet. Namoramos por quatro anos e depois fomos viver juntas. Dos 5 anos de casadas, a minha transição ocorreu a cerca de dois anos. Nessa nova fase, passamos por muitos desafios, muitas descobertas e um incrível fortalecimento do nosso relacionamento. Lidamos com o preconceito com a maior dose de serenidade e paciência que podemos extrair de nossos corações. Quando nos deparamos com certas situações procuramos conversar e explicar sobre o universo dos transgêneros, já que é uma condição ainda desconhecida por muitas pessoas.
A única coisa da qual não abrimos mão é que sejamos respeitadas, primeiro como ser humano que somos, depois como casal e também por respeitarmos toda e qualquer forma de diversidade. Temos uma relação tranquila e saudável, gostamos de viajar, de cinema, de estar com amigos, de boa comida, de assistir nossas séries de tv preferidas juntinhas com nossa cadelinha no sofá, adoramos conhecer pessoas, ouvir histórias e trocar conhecimentos e experiências. O que admiramos uma na outra é a coragem, a determinação, a capacidade de compartilhar e o senso de companheirismo. A transição nos mostrou o quanto nos amamos e o quanto somos capazes de nos aceitarmos como somos, o quanto ainda nos emocionamos quando dizemos “eu te amo””.

Steffany Farias e Wellington – 11 anos
“Nos casamos perante a família, com festa e tudo”

Wellington é homem cis e Steffany é travesti

“Ele era separado de uma mulher cis e revolveu ser feliz com uma travesti. O primeiro contato foi na época do Orkut, a atração foi mútua e logo fomos morar juntos. Depois de um ano, nos casamos perante nossa família, com festa de enlace e tudo. Sei que somos muito diferentes, mas sei também que somos iguais no amor um pelo outro. Em setembro fazemos 11 anos de relacionamento. Temos dificuldades? Sim, temos. Mas quem não tem? Estamos aí, seguindo firmes e fortes e lutando. Preconceito? Nossa, ele passou por muitos. Ainda há uma pitada de preconceito, mas ele tira de letra. Ele é um verdadeiro gentleman, anda de mãos dadas, me leva para todos os lugares, como tem que ser. Ele me apresenta como sua esposa, com muito orgulho do que conquistou”.

André Albuquerque e Alice – 1 ano e 7 meses
“Quando ele me contou que é homem trans, enxerguei a pessoa que eu amo”

André é homem trans e Alice é mulher cis


Alice: “Conheci o André em setembro de 2016 pelo Tinder, depois de muito tempo tentando aceitar minha sexualidade. O André foi super importante desde as primeiras conversas, era sempre compreensivo e tranquilo. Depois procrastinarmos muito para nos conhecer, no dia 2 de novembro tomei a atitude de ir conhece-lo pessoalmente e, sem dúvidas, o feriado de Finados mudou completamente minha vida. Primeiro, ficamos super amigos, conversando sobre tudo, inclusive das nossas frustrações. Ficamos pela primeira vez dias depois e, durante dois meses, fomos apenas amigos que gostavam de se beijar. Os dias foram passando e cada partida eu sentia que uma parte de mim ficava para trás. Consegui assumir minha orientação sexual para meus pais e me declarei lésbica.

Mas, com quatro meses namorando, o André dava sinais de que não era uma garota e sim um garoto. Seja pelas nossas conversas sobre filhos, onde ele dizia que queria ser pai e não a outra mãe, ou pelos pronomes e jeito de pensar e agir. Eu não questionava. Certo dia ele teve uma disforia e foi dormir muito mal, sem falar o que aconteceu. Quando acordou, me escreveu contando o que sentia e como se identificava. Naquele momento tudo fez sentido para mim. Eu finalmente enxerguei quem era a pessoa que eu amava. Fui para casa dele e foi muito espontâneo. Ele já tinha deixado de ser minha mulher para se tornar verdadeiramente o meu homem, o amor da minha vida”.

André: “Nossa relação mudou com certeza a vida dos dois – e para melhor. Somos muito apaixonados. Alice me aceitou do jeito que eu sou, mesmo só tendo me assumido trans depois de estar namorando, pois foi quando entendi tudo isso. Somos muito companheiros e eu sou muito grato por tê-la na minha vida”.

João Hugo e Sellena Ramos – 2 anos e 7 meses
“Lutamos todos os dias contra o Cistema que tenta nos excluir”

João é homem trans e Sellena é mulher trans


João: “Nós nos conhecemos em Salvador durante uma viagem de ida para Goiânia em um evento universitário. Nosso relacionamento é comum, dividimos as tarefas do dia a dia, compartilhamos nossos momentos em diversos lugares, como praias, restaurantes, teatro, cinema, com os amigos e a militância, mas preferimos nos divertir em casa. O que eu mais gosto em Sellena é a persistência, honestidade, determinação, responsabilidade e lealdade e a forma que ela me olha”.

Sellena: “O que eu mais gosto em João é a paciência (comigo rs), o respeito, o cuidado, a fidelidade, o companheirismo, a responsabilidade, e o sexo rs. Nosso relacionamento representa resistência, lutamos juntos todos os dias contra esse Cistema que insiste em nos excluir, já passamos por momentos difíceis, delicados, e o mais importante é dormir e acordar juntinhos todos os dias. Namoramos há 2 anos e 7 meses e estamos morando juntos há 2 anos e 6 meses. ”.

Luana Pimentel e Camila – 4 anos
“Ela me ensinou o que é ter amor próprio e isso me mudou muito”

Luana é mulher trans e Camila é mulher cis

“Eu e minha namorada nos conhecemos antes da minha transição. Sempre fomos muito carinhosas uma com a outra, apesar de termos sido um pouco tímidas pra ter conversas sobre nós mesmas. Aos poucos ela me ensinou o que é ter amor próprio e isso foi uma das coisas que mais me mudou nesses últimos anos. Foi uma das forças principais que consegui para iniciar minha transição. Com o início da minha transição, há 1 ano e meio, muitas dúvidas pairaram sobre nossas cabeças, principalmente sobre o que seria o futuro da relação. Apesar dos momentos de dúvidas, nunca nos separamos e sempre nos demos o apoio que cada uma precisava no momento, mesmo que fossem conflitantes. Em um certo momento, minha namorada fez uma lista das coisas que gostava em mim, e em nenhum dos itens havia algo relacionado ao meu corpo ou algo que mudaria com a transição. A partir desse momento nos fortalecemos como nunca, somos confidentes, amantes e nossas melhores amigas. E não há nada que consiga mudar isso!”

Bernardo Schneider e Well Santo – 2 anos
“Primeiro ela me disse ‘não’. Depois sonhou comigo”

Bernardo é homem trans e Well é mulher cis


“Costumo dizer que Well foi minha salvação. Eu estava em uma fase ruim da vida, passando por várias rejeições quando ela apareceu em uma festa que, para falar a verdade, eu nem ia. Ela me atraiu logo de primeira, mas só vi beleza e um corpo lindo. Não tinha falado um “a” com ela e só ficava pensando em como conseguir algo, até que arrisquei. O “não” eu já tinha, fui atrás do “sim”, MASSS levei um “não” mesmo. Era complicado para ela, um homem trans pré-t e talvez ela não conseguisse me ver como um homem. Até preferi não ficar com ela se fosse para ela me ver como mulher. Curti a festa até o fim e no dia seguinte acordei com aquela ressaca. Peguei meu celular e no grupo da festa, quem estava me procurando? Ela mesma! Ela sonhou comigo. Começamos a nos falar todos os dias, a todo momento até que ela foi vendo minha história.

Hoje estamos juntos há quase 2 anos. Começamos a morar juntos recentemente e ela é a minha base. Ela me ajuda com absolutamente tudo relacionamento à transição, inclusive a primeira T foi ela quem me deu. Se uma parte da minha família me aceita hoje e sabe respeitar quem eu sou é graças a ela, que corrige cada pronome feminino que é dirigido a mim. Eu amo cada detalhe dessa mulher. Amo o sorriso, as covinhas, amo os olhos que me olham com firmeza, amo a voz e amo principalmente quem eu me tornei graças a ela”. 

Samantha Cabral e Fábio Martins – 5 anos
“Amar está além das construções sociais”

Samantha é mulher trans e Fábio é homem cis


“Eu sou ativista dos direitos humanos, especificamente em políticas públicas voltadas para a população trans e travestis de Recife, e graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco. E ele é formado em Teologia, Psicologia e atualmente gradua Filosofia também na UFPE. O amor nos aproximou pelas redes sociais e no decorrer desses cinco anos fomos construindo vários laços importantes para o caminhar juntxs. Laços, esses, que nos mantém cada dia mais firmes e unidxs.

Ele conseguiu ampliar a minha visão para além dos contextos locais, os estigmas enraizados em nossa sociedade, sempre com cuidado e paciência, me dando as mãos para que eu pudesse adentrar em novos caminhos e desafiar esses ‘monstros’ socialmente criados e que impede a evolução humana. Ele conquistou a minha família e todos os amigos. Os amigos dele me respeitam e gostam de mim. A minha mãe o tem como filho e o admira profundamente, assim como meu pai. A energia que criamos juntxs faz com que as pessoas consigam entender empiricamente que amar está além das construções sociais, que nossas capacidades enquanto viajantes nesse plano físico é a mesma que todos os outros navegantes, que a felicidade e a união não dependem unicamente do corpo físico.

Nunca esqueço do primeiro abraço, do primeiro beijo, do nosso primeiro encontro, dos áudios de Mariza Monte, dos nossos vinhos e diálogos pelas madrugada a fora. Não esqueço dos nossos cuidados diários, nem dos nossos esforços em continuar firmes numa jornada que por vezes se torna tão árdua, mas que com a presença dele se torna possível de prosseguir. Que possamos construir algo tão forte que os furacões passem sem causar um simples arranhão nessa estrutura e que possamos reconstruir juntos caso consigam. Eu o amo muito e que venham os próximos meses e anos ao lado dele. A música Dengo, de Anavitória, fala muito de nós”.

Guttervil e Fernanda Kawani – 2 anos
“Somos companheires, atencioses e sempre de bem com a vida”

Guttervil é agênero e Fernanda é travesti


“Nos conhecemos em um bar na Praça Roosevelt, temos dois anos de casades, muita cumplicidade, parceria e amor. Tanto na vida pessoal como profissional. Temos a mesma profissão e somos socies em uma produtora que somente faz trabalhos com pessoas trans e loja colaborativa somente com pessoas trans.

Sobre o preconceito, ela é mais safa e sabe lidar mais com jeitinho tirando sarro da pessoa, dando em troca uma resposta inteligente. Já sabe lidar. Eu ainda não sei muito bem. Sou objetivo e direto, às vezes até um pouco estúpido e sem paciência.

As qualidades que falamos sempre uma pra outre: somos companheires, antecioses, parceires, trabalhadores, guerreires, personalidades fortes e sempre de bem com a vida. Gostamos de experimentar comidas diferentes, gostamos mesmo de comer e fazemos isso sempre juntes”.

Thiago Etalracs e Renatta Axely Pereira – 4 anos
“Ela fazia cover da Beyoncé e eu era louco pelos shows dela”

Thiago é homem trans e Renatta é mulher trans


“Nos conhecemos em uma baladinha LGBT. Na verdade eu é que conhecia ela, pois ela fazia show cover da Beyoncé, e eu era louco pelos shows dela. Um belo domingo acabamos nos falando a primeira vez, e no fim da noite consegui o número dela com uma amiga. Mandei mensagem no whats, mas não conversamos muito naquela noite… Na segunda, chamei ela pra tomar sorvete no shopping, mas eu não tinha esperança nenhuma que ela aceitasse, mas ela aceitou. Fiquei doido e corri pro shopping. Conversamos muito, ela me contou a história dela num geral e eu contei algumas coisas sobre mim. Por fim uma amiga dela me chamou pra ir ver filme com elas, e eu aceitei. Mas não estava na intenção de nada, pois era lerdo, inseguro e inocente. Para fechar a noite com chave de ouro, rolou o primeiro beijo.

Depois de muitos trancos e barrancos, ficamos juntos oficialmente. Foi quando através dela eu me entendi homem trans. E desde o início tive muito apoio dela, que me ajudou a ser o homem que sou hoje. A minha primeira consulta, aplicação de hormônio, luta pelo respeito com as pessoas, tudo foi com a ajuda dela… No aniversário de namoro eu pedi ela em casamento, com um anel da loja que ela sonhava ter. Fomos morar juntos em Curitiba e não demorou muito mudamos para São Paulo. Há quatro anos então estamos firmes e fortes. Um casal que muitos disseram que não ia durar, que não combinávamos, que estávamos apenas tapando feridas passadas. Sofremos no começo, mas isso nos deixou mais fortes. Hoje sei o sentido de ter uma parceria que eu posso contar para tudo. É uma noiva incrível e que só eu e Deus sabemos a sorte que tenho por tê-la”.

Maya Ribeiro Posse e Márcio Eduardo Machado de Moraes – 2 anos

“Ele não entendia nada o que era ser trans”

Maya é mulher trans e Márcio é homem cis

“Nos conhecemos há dois anos e três meses em um aplicativo de relacionamento. Ele não entendia nada sobre o que era ser trans, mas mesmo assim saímos. No dia seguinte, ele já estava com saudades e mandando mensagem. Acho que queria atenção (risos). Eu, toda desconfiada e com medo de ser só mais um, demorei a me soltar. Com mais intimidade fomos saindo, ele deixou de lado o receio e fomos para as baladas e bares de São Paulo. Como o mundo é pequeno, sempre encontrávamos alguém conhecido, então ele decidiu abrir o jogo para a mãe antes que alguém contasse na frente. Para a nossa surpresa foi tudo de boa. Fomos morar juntos com cinco meses de namoro e hoje, apesar do ciúmes e insegurança da minha parte, me sinto mais tranquila. O vejo sempre apaixonado e encantado. Ele é menos tímido que eu e mais malandro em relação ao preconceito. No começo, um ou outro amigo questionava com ele: por que logo ela? E ele respondia: “Porque foi ela quem eu escolhi”.

Léa Genefordi e Eli – 1 ano
“Logo perguntei para ela: o que é ser mulher?”

Léa é mulher trans e Eli é mulher cis


“Conheci ela em um aplicativo voltado para solteiras lésbicas. Logo perguntei para ela, “o que é ser mulher para você” e ela me respondeu: “Ser mulher para mim é ter consciência e autonomia para viver do modo que me dá prazer e alegria. É não me deixar levar ou sufocar por estereótipos ou crenças limitantes do que eu devo ou não fazer ou ser sendo mulher. É ser firme e forte, mas sem perder a doçura. Não ser dependente da aprovação ou amor de ninguém para continuar seguindo no que acredito.” Soube que eu não ia encontrar preconceito com ela. A única coisa que ela vê é minha essência. Os preconceitos em relação a nós são muitos na cidade, mas juntas pisamos na cara da ignorância, da homofobia, da transfobia ou do racismo com alegria. Ser visíveis e feliz é nossa forma de lutar. O que eu mais gosto nela é essa energia que ela tem, nada faz ela desistir, ela sempre dá um feedback positivo e se esforça no quotidiano para ser uma pessoa melhor, e isso irradia dela. O que ela mais gosta em mim é meu coração grande e meu sorriso tímido, e os esforços que eu faço para agradar as pessoas que eu amo. Gostamos de fazer caminhadas ou assistir filmes debaixo do cobertor. Juntas cuidamos da minha filha de 2 anos e adoramos brincar de esconde-esconde. Nosso núcleo familiar é um sucesso puro, um amor puro, uma prova que a realidade existe independentemente das etiquetas”.


Linus e Leonora – 1 ano e 8 meses
“No terminal de ônibus, escutei uma voz chamando meu nome”

Linus é homem trans e Leonora é mulher cis

“Tínhamos um amigo em comum, que falava de mim para ela e vice versa. Então, a gente se adicionou no Facebook, mas nunca conversávamos. Certa noite, eu estava voltando de SP e fui direto para o terminal que fica ao lado da rodoviária. Ouvi uma voz chamando meu nome, Linus. Caminhei até ela e lembrava mais ou menos de quem era, só quando ela disse é que lembrei. Ficamos lá no terminal conversando por mais de três horas. De lá para cá são 1 ano e 8 meses, sendo que moramos juntos há um ano e meio.Temos uma relação normal. Ficamos juntos depois do trabalho, cozinhamos juntos e por aí vai. Temos um relacionamento aberto, eu não sou muito ciumento, mas ela é um pouco sim. Sobre o preconceito, tentamos manter bastante a calma, mas quem sofre mais é ela, pois todos que me conhecem mesmo, pensam que sou mulher, então acham que ela é lésbica, mas ela é bi, igual a mim.  O que eu mais gosto nela é o respeito que ela tem por mim, o jeito que ela me enxerga. E o que ela mais gosta em mim é o fato de eu sempre estar do lado nela, nos momentos em que ela mais precisa. Adoramos comer, assistir filme, jogar, falar sobre assuntos super diversos e ver a novela favorita dela, Deus salve o rei, da TV Globo”.

Thomas Nader e Giulia – 3 anos
“Não poderia ter namorada melhor para meu recomeço de vida”

Thomas é homem trans e Giulia é mulher cis

Nos conhecemos a quase 3 anos através de um grupo de amigos no watts eu estava prestes a ir morar na Argentina e não tinha começado a transição. Contei pra ela logo na primeira conversa e desde aquele dia soube que tinha conhecido a pessoa que eu iria construir toda minha nova vida. Já estamos juntos a 2 anos e meio e acredito que não poderia ter uma namorada, melhor amiga e parceira melhor do que ela durante toda minha transição e meu recomeço de vida.

Helena Agalenéa, Kaian e Gabriel – 8/9 meses
“Me relaciono com dois caras cis”

Helena é mulher trans e Kaian e Gabriel são homens cis


“Eu me relaciono com dois caras cis – que não se relacionam entre si, mas podem ser livres para viverem seus outros afetos também. Um deles é hetero e o outro bi. Um detalhe importante: não chamo essas relações afetivas estáveis e românticas de namoro (embora muitas pessoas leiam assim). São meus parceiros, amigos queridos. Estudando, cada vez mais entendo como a monogamia foi um instrumento de dominação. Acho sim que podem existir relações monogâmicas saudáveis, mas não para mim. Já sou desviada, quero afetos e amores desviados também.Sei que essas relações serão duradouras, não importa quais formatos elas tomem. Sei que são relações estáveis, com bastante responsabilidade afetiva, com dois caras que me dão amores muito mais gostosos dos que eu idealizava na minha adolescência passional. O sexo nunca foi escroto com nenhum deles, pelo contrário: meu corpo é tratado feito um templo sagrado! Me sinto livre pra ser 100% eu mesma.

O Kaian (na foto com Helena) veio antes e está na minha vida há quase 5 anos. Nos conhecemos quando ele se mudou pra a república onde eu morava. Eu nem era assumida na época. Ele virou “meu melhor amigo hetero” e eu nutri uma paixão intensa por ele, secreta, já que eu era o “amigo gay” dele. Ele foi a pessoa que mais esteve ao meu lado, me salvou de tentativa de suicídio, foi a primeira pessoa que me chamou de Helena, pra quem me assumi trans e que me admirava pela coragem de ser quem sou. Ele foi essencial pro meu processo de transição ser mais confortável. Mesmo assumida mulher, minha paixão continuou secreta e eu bancava a amiga conselheira das meninas que ele ficava. Isso aumentava a minha disforia. Começamos a ser muito afetivos um com o outro quando deixamos de morar juntos. Nos víamos todas as semanas e dormíamos de conchinha sempre, sem nada acontecer além de carinhos. Um ano depois declarei meu “desejo” por ele. E ele por mim. Sinto que “fui apaixonada por 4 anos e não falei nada por medo de rejeição e, quando assumi, recebi um “eu também”. Eu fui a primeira pessoa trans com quem ele se relacionou, fui o primeiro “eu te amo” desse aquariano também (risos). Hoje temos uma relação muito saudável, amo escrever cartas para ele, passo dias na casa dele assistindo série com ele e a mãe. Ele é super engajado e foge muuuuito do que se espera de um “homem hetero branco cis”. Ele também me incentiva em todos meus projetos, assistiu minha peça sobre empoderamento LGBTQ+ 3 vezes (ele assistiu todas minhas peças até hoje), organizou eventos de representatividade trans comigo, é um cara incrível! Sentimos muito que nossa relação tem essa missão de mudar as realidades as nossas voltas. Ele é realmente um parceiro de luta.

O Gabriel eu me relaciono tem quase 10 meses. Nós nos conhecemos num ano novo. Eu tinha um crush nele e no ex-namorado dele (atual na época) e queria muito ficar com os dois (risos). Com o ex dele eu acabei trocando uns beijos numa festa, mas com ele a coisa foi acontecer só uns 8 meses depois, quando eu puxei papinho no Facebook (risos) Eu estava num processo de empoderamento, querendo me relacionar enquanto uma mulher trans que aceita o próprio corpo. O Gabriel ia ser mais uma relação casual, mas nossa… Desde a primeira vez fiquei balançada. Ele me conquistou e me ajudou muito a amar mais meu corpo. E ele também não é ciumento! Conheço outra parceira dele que é uma FOFA e eles vão inclusive assistir minha peça juntos no próximo fim de semana! Ele me faz me sentir inteligente também, muito! Jogamos jogos direto, ele me deixa muito confortável emocionalmente. Ele e o Kaian se dão bem, se conhecem pouco, mas as poucas vezes que se viram foi bem legal! Se eu fico uma semana sem ver o Gabriel já fico morta de saudades, No nosso segundo encontro ele já estava trocando afetos publicamente comigo o que me deixou confusa. Ele é um cara muito massa e foi muito bom me relacionar com uma pessoa cis que entendia tudo sobre transexualidade por já ter se relacionado com outras pessoas trans. Já tenho a plena certeza de que ele estará “pra sempre” na minha vida.

Fui apaixonada 3 vezes na minha vida. Uma foi na adolescência, nem sei se conta mais (risos). Mas é lindo pensar que as outras duas vezes que amei homens em lugares passionais fui (e sou) correspondida!!! E eles dois fazem as melhores piadas de tiozão do mundo (risos). Vou dormir do dia 11 pro 12 de junho com um, e do 12 pro 13 com outro. :3″

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