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João Nery denuncia que pessoas trans idosas enfrentam dificuldades para aposentadoria e acesso à saúde

Por NLUCON
(Com informações da Agência Senado)
Foto: Pedro França/ Agência Senado


O escritor João W. Nery – autor dos livros Viagem Solitária,Vidas Trans e o considerado o primeiro homem trans a passar por cirurgias no Brasil – participou no início do mês de uma reunião da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), em Brasília, e denunciou os desafios de ser uma pessoa trans idosa.

No depoimento, ele discorreu sobre a vida de pessoas trans e declarou que muitas travestis e mulheres trans não recebem aposentadoria na velhice. Isso porque muitas levaram uma vida na prostituição por falta de outras oportunidade de emprego. E pela profissão não ser regulamentada, não são aparadas na velhice. 

“A média de vida de uma travesti é de 35 anos de idade. Ou ela morre de aids ou morre de drogas ou morre assassinada. Outra causa comum é o suicídio”, informou.

Para aquelas que conseguem driblar a transfobia e chegam na velhice, a situação não é de descanso. João relata que muitas acabam passando pela destransição de gênero (voltam a ser reconhecidas como homens) só para conseguiram acesso aos tratamentos médicos, serviços assistenciais e receber amparo da família.

“Muitas travestis chegam à velhice sem família porque fugiram de casa. Para ter tratamento médico, voltam a se vestir como homem porque a documentação é masculina. Você abre mão da sua identidade de gênero para ter acesso à saúde e talvez à família, porque eles só vão aceitar se você estiver vestida de homem”, lamentou.

Ele afirma que conhece vários casos de mulheres trans que tiveram que se vestir de homem para entrar em um asilo, mas que ao terem sua transexualidade descoberta, foram expulsas.

SEM APOSENTADORIA

Aos 68 anos, João também afirmou que não recebe aposentadoria por sua primeira formação como Psicólogo. Tudo porque, há 30 anos, ele foi obrigado a mudar a documentação na clandestinidade em um cartório e, com isso, perdeu o currículo, a carreira e o direito de dar aulas em faculdades do Rio de Janeiro. João, então, teve que começar do zero e ter outras profissões.

“Estou aposentado, mas não tenho aposentadoria. Tive várias profissões que não exigiam formação. O estado nunca me ressarciu dos danos morais que me causou”, declarou. Hoje, João vive da venda do seu livro – Viagem Solitária – e ainda se entrega ao ativismo voluntário, ajudando jovens trans e a população LGBT idosa.

Vale informar que somente neste ano o Supremo Tribunal Federal permitiu a retificação da documentação diretamente no cartório, e sem laudos médicos. Segundo o escritor, a iniciativa é válida, mas no país que mais mata travestis e transexuais no mundo e que o mercado de trabalho ainda é um entrave “são necessárias leis que nos protejam”, declarou.

Na Câmara dos Deputados corre, por exemplo, a PL 5.002/2013, de autoria dos deputados federais Jean Wyllys (PSOL/RJ) e Érika Kokay (PT/DF). Com o nome de João Nery, ela visa garantir diversos direitos, desde a retificação de nome e sexo sem a necessidade de autorização judicial (que teria um peso de lei), até o acesso à saúde por meio do Sistema Único de Saúde para pessoas trans.

GAYS CIS IDOSOS TAMBÉM SOFREM

O artista Bayard Tonelli, gay cis de 69 anos, também participou da reunião e contou a trajetória do grupo Dzi Croquettes, que nos anos 60 desafiam os padrões, se maquiavam e ousavam nas performances teatrais. Hoje, ele diz que sente na pele o descaso que gays cis idosos sofrem e a falta de acolhimento do governo.

“Idoso na nossa sociedade não tem direito a nada. Não há respeito pela sabedoria. Dentro das minorias isso é ainda mais terrível. Pelas amizades que fiz na carreira, tenhoa cesso a médicos etenho estrutura, mas nada de apoio governamental. Sou marginalizado”, afirmou.

A audiência, que fez parte do Mês do Orgulho LGBT, contou com a iniciativa e presença das senadoras Marta Suplicy (MDB/SP) e Regina Sousa (PT/PI). Elas opinaram que a atual composição do Congresso Nacional é conservadora e que há dificuldades para o avanço das pautas da população LGBT. As senadoras se comprometeram, contudo, que lutarão por políticas públicas inclusivas e que garantam o acesso a serviços.

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