Pop e Art

Série “Homem de Verdade” discute masculinidade(s) de homens trans, cis, gay e hétero

Por Neto Lucon

Masculinidade, machismo e preconceitos são temas da micro-série “Homem de Verdade”, dirigida por Diego Monteiro e exibida no Instagram (!!!). A obra, que conta com 15 episódios de 1 minuto cada, aborda o universo de três homens que se encontram. Eles têm vivências diferentes e dialogam de maneiras distintas com a masculinidade.

Um deles é Fabiano, homem trans vivido pelo ator Gabriel Lodi. Outro é Carlos (Gustavo Naval), um homem cis gay. E o terceiro é Rafael (Carlin Franco) um homem cis heterossexual – ele se relaciona com Cláudia (Elis Rubinato), o elo do encontro entre todos, e se vê diante de diversos preconceitos, machismos e referências do passado.

Em um dos diálogos, no momento em que saem para comprar bebidas, Rafael solta a Fabiano que já tinha visto um “homem virar mulher”, mas que nunca viu uma “mulher virar homem”. Então Fabiano devolve: “Já começa errado aí, Rafa, eu sempre fui homem. Só me definiram mulher quando nasci (…) Você acha que o que faz um homem é o que ele tem no meio das pernas?”. A pergunta o faz refletir.

Dentre o encontro, a série traz flashback e mostra como Rafael foi criado, evidenciando um sistema de machismos e preconceitos. Ele relembra de diálogos dos pais, que diziam dentre outras coisas que “homem não chora”, “é vergonha para o homem não sustentar a casa”, “determinadas atividades servem para questionar a sua orientação sexual” e que, caso não seja, héterocis é anormal. 

Ao longo dos capítulos, por meio da afinidade estabelecida entre Rafa e Fabiano, há diversas reflexões, desconstruções e possíveis transformações. Sobretudo quando Rafael se mostra bravo com o fato da namorada pagar as contas de casa em um momento de crise. “Eu te entendo”, diz Fabiano. “Mas eu me pergunto se a gente não foi ensinado a tudo isso. E fica com esse monte de peso nas costas”, continua, incentivando a ir a uma balada.

Assista a série na íntegra clicando aqui.

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HOMENS APOIANDO FEMINISMO

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, o diretor Diego Monteiro afirmou que a série surgiu logo após assistir a uma campanha publicitária da Natura que abordava vários homens e suas especificidades (lembre clicando aqui). Também por meio da necessidade de problematizar e mostrar como as masculinidades podem ser tóxicas para todos e todas.

“Era um clipe que falava que todo homem é homem, tanto o gay, o trans, o que dança, usa maquiagem. Pensei: essa mensagem é importante, mas e se isso fosse contado em uma história? Então elaborei o roteiro e criei uma história para falar sobre isso”, conta.

Monteiro afirma que considera importante falar sobre o assunto porque o feminismo tem evoluído e que é relevante incluir e problematizar também as masculinidades tóxicas dos homens, que atrapalham a igualdade de direitos. “Chegou o momento dos homens se questionarem, questionarem o jeito, a maneira como agem. Acho que há várias coisas que podemos somar com mulheres e homens juntos”, declarou.

Ele afirma que, particularmente, também procura desconstruir as masculinidades e comportamentos impostos. “Eu me defino pansexual, não tenho tabus em ficar com homem e mulher, uso maquiagem, saia. Isso sempre foi muito tranquilo para mim, mas sempre via no meu entorno como isso ainda é tabu. As pessoas falam que eu sou mal resolvido, mas eu sempre digo que elas não podem projetar esse tabu em mim. Então eu vejo que há muita pressão para ser o homem de verdade, assim como as mulheres, e que isso nunca é positivo”.

REPRESENTATIVIDADE TRANS

O personagem trans Fabiano é encenado pelo ator também trans Gabriel Lodi. A escalação com representatividade (!!!) foi feita por meio de indicações de amigos do diretor – Lodi integra o elenco de Os Satyros – e de uma importante contribuição mútua para a elaboração de Fabiano e dos discursos que compõe a série.

“Ter o Gabriel interpretando foi fundamental. Não dá para imaginar um ator cis fazendo. Quando cheguei nele, ele perguntou: ‘posso ver o roteiro antes?’. Eu disse: ‘Você não pode, você deve’. E construímos o roteiro juntos com o cuidado da vivência dele”.

Gabriel Lodi em cena: ator contribuiu com o roteiro


Dentre as contribuições, Gabriel falou sobre as cobranças sociais para que fosse reconhecido enquanto homem e das desconstruções que teve ao longo dos processos de autoidentificação. “Falar grosso para assim ganhar lugar de fala, eu vejo hoje que é absurdo, ridículo. Ninguém é menos ou mais homem que ninguém”.

* Vale lembrar que Gabriel integra o elenco da peça “Cabaret Transperipatético”, a primeira peça com elenco todo não cis, encenada nos Satyros, em São Paulo. (saiba mais clicando aqui). 

NO INSTAGRAM?

Um fato curioso é que a série é totalmente exibida por meio do Instagram – sim, o Instagram não é ferramenta de divulgação, mas de exibição oficial. Isso ocorre porque a micro-série é fruto da produtora Smarty Talks, que é especializada em filmes para celular.

“Como as pessoas estão usando muito o Instagram no celular, então optamos por essa rede social”, contou. Até o momento a série tem quase 2,5k seguidores e os vídeos somam mais de 64 mil visualizações.

O feedback, segundo o diretor, tem sido bem positivo. “Todos os dias temos comentários falando super bem. Dizem que a maneira como levamos a série não ficou pesada e que dá mostrar para o pai e mãe. Acho importante a militância ativa, mas também considero que a parte soft, com uma abordagem mais suave, mostrando todos os lados, também é complementar e tão importante quanto”.

Para quem assistiu e curtiu, os pedidos de uma segunda temporada são frequentes. E ela deve acontecer até dezembro deste ano. Outros temas, como a bissexualidade, devem entrar e compor a obra. Agora, é assistir, compartilhar essa primeira temporada, fortalecer o trabalho e aguardar…

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