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"Enquanto o protagonismo não for trans, continuaremos sendo mortas", diz atriz Gabriela Loran


Por Neto Lucon

A atriz Gabriela Loran, de 24 anos, fez história na televisão ao se tornar a primeira mulher trans/travesti a atuar na novela teen Malhação: Vidas Brasileiras, da TV Globo. Ela interpretou a professora de stiletto Priscila, também mulher trans, e amiga de Leandro (Dhonata Augusto).

Gabriela foi vista por mais de 4 milhões de pessoas – levando em conta que a trama registrou em média 20 pontos de audiência, com dados atualizados do IBOPE. E também levou diversas mensagens importantes contra a transfobia e em prol da população trans.

Quando entrevistada pela mídia hegemônica, aproveitou para falar sobre “representatividade trans”, em prol da empregabilidade e corpos presentes de pessoas trans nos espaços artísticos. Gabriela sabia que, após sua participação, cairia para zero o número de artistas trans trabalhando na TV.

Após a rotina de gravações, a atriz topou conversar com o NLUCON. Na verdade, topou responder as perguntas de vocês, nossos/as leitores e leitoras que estão no Instagram. Falamos sobre Malhação, bastidores na TV Globo, transição, transfobia, representatividade e muito mais! Confira:

– Você chegou a assistir alguma temporada de Malhação? A novela chegou a fazer parte da sua vida?

Malhação fez parte da minha infância e adolescência, porque minhas irmãs sempre assistiram. Então também peguei a novela muito nova. Lembro que chegava da escola de manhã, almoçava, assistia Sessão da Tarde e, depois, Malhação. Eu gostava, mas nunca me senti representada, obviamente. Foi uma época em que eu era alienada. Foi uma época em que eu não me sentia representada pelo fato do tema transexualidade não ter espaço na mídia, mas graças a Deus isso mudou nos tempos atuais.

-Musa, você quebrou uma barreira e tanto. Uma representatividade numa novela teen! (@dandara.vital). Você tem consciência disso? De qual maneira você sente que esse pioneirismo contribui para a luta das pessoas trans e travestis?

Dandara, rainha, maravilhosa, ícone de atriz! Sim, Dandara, agora eu tenho noção do quão foi importante esse pioneirismo. Tanto que não quero ser a única. É muito importante, porque estou em uma novela teen, num horário em que jovens estão assistindo. Jovens assim como eu, que assistia e que não se sentia representada. Hoje, vejo que o peso maior é esse: poder fazer que outras meninas se sintam representadas e vistas, que há outras pessoas como elas. É muito importante. E não só para nós, que somos pessoas trans, mas para outras que não são trans, entender que: nossa, uma trans chegou ali. É muito empoderador.

– Como foi sua trajetória até chegar em Malhação? (@laurazanotty). Chegou a fazer teatro? Teve dificuldade de participar de grupos de teatro? (@Giovanniozne)

Minha trajetória até Malhação foi muito estudo, me formei na faculdade Cal de Artes cênicas, em Laranjeiras. Fiz muito teatro, muitas vezes sem receber nada, porque a arte no Brasil não é valorizada. A minha primeira vez na TV foi em Malhação mesmo. Nunca tive dificuldade de fazer parte de grupos de teatro, porque nunca quis entrar em nenhum grupo específico em todas as oportunidades surgiram convites. 

– Você se inspirou em alguém para seguir a carreira de atriz? Em quem? (@lauramzanotty)

Me inspirei muito no Jorge Lafond, que era a Vera Verão, maravilhosa em cena. Habitava a personagem de uma maneira espetacular. Rogéria também foi inspiração. Atualmente me inspiro na Laverne Cox, de Orange is the New Black, Viola Davis, Lupita Nyong’o, essas mulheres que trazem representatividade.

– Como foi o processo de seleção para Malhação? (@aliciapieta). Chegou a fazer alguma preparação específica para a sua personagem?

Eu não passei por nenhum processo. Fui convidada pela Gabi Medeiros, produtora de Elenco da Malhação para fazer o teste. Fiz um teste, que consistiu em ler o texto para a diretora. No dia seguinte ela me ligou, dizendo que eu iria participar e que seria a Priscila. Como a Priscila é muito a Gabriela e a Gabriela é muito a Priscila, eu não precisei de um laboratório para entrar na personagem. Tive uma preparação vocal e de texto com um preparador de elenco. Ele preparava a gente para as cenas, mas não foi um laboratório específico para a Priscila.

– Você sente que sua personagem mexeu de alguma maneira com você? Foi prazeroso interpretá-la? O que você carrega da Priscila?

Sim, ser uma atriz trans e representar uma personagem trans é muito forte, porque você está falando sobre o seu sofrimento. Quando a Priscila sofria preconceito, era como se eu mesma sofresse. A diferença era que a Priscila lida de outra forma, ela era mais sutil, ela via o preconceito e passava por cima dele sem perceber. Foi muito prazeroso interpretar ela, sim, pela representatividade. Eu estava presente com meu corpo trans, num lugar de privilégio, que é numa novela da Globo. Por mais que digam e que fale, a Globo é uma mídia de massa. O Brasil todo me viu, pessoas do Ceará me viram e viram que existem mulheres trans, sim e que vamos ocupar esses espaços. O que carrego dela comigo é a força que ela tinha, a força de sempre animar o Leandro, olhar pra cima, tentar quebrar os preconceitos que a gente constroi e que são construídos a partir da nossa questão social.

– Como foi a experiência nas gravações no sentido de tratamento? Pergunto isso porque uma vez fui fazer uma participação numa novela e a arara com os figurinos das travestis estava escrito “figurino dos travecos”. Na ocasião eu não fui maltratada, mas pequenos detalhes mostravam a transfobia. (@dandara.vital). Chegou a rolar alguma opressão ou preconceito por trás das câmeras? (@pambelli)

A minha experiência durante as gravações foram muito boas. Na verdade, cada produto tem uma equipe específica. Eu não sofri nenhum tipo de preconceito dentro do produto Malhação com ninguém. Fui super bem tratada da portaria até o camarim. Fiz mais amizade com as camareiras e com os cabeleireiros maravilhosos. A Marlene á maravilhosa. Se vocês forem ao PROJAC, conheçam ela. Quero muito agradecer a Gabi Medeiros por intercambiar com muito carinho essa oportunidade, também a Nat Warth por todo carinho durante as gravações e a Natalia Grimberg por permitir que isso tudo acontecesse, Patrícia Moretzsohn por criar essa personagem incrível, cheia de vida e representatividade e por dar essa oportunidade da Priscila de viver como uma Vida Brasileira. Na minha arara estava escrito Gabriela, mas acho que eles podem ter evoluído também. A gente tem que pensar que esse é o trabalho deles: eles precisam evoluir. Além disso, a regra tá mais difícil, porque eles sabem que existem leis que nos defendem. Posso dizer que toda equipe da Globo me deu muito suporte e respeito. Minha experiência foi incrível e sem dúvida eles estão nos dando protagonismo e espaço.

– Como você se sente diante de um elenco todo cis da novela? (@laurazanotty)

Eu não quero ser a única. Eu quero entrar num set de gravação e ter uma professora de estileto trans, uma motorista trans, uma garçonete trans e uma protagonista trans. Ninguém entende o que é para uma pessoa trans entrar em um lugar onde todo mundo é cis. Ninguém sabe o que você passa. Então, apesar de eu ter me dado bem com todo mundo, rola o estranhamento por você nunca ver ninguém como você. Isso é uma realidade, que está mudando e que precisamos cada vez mais tenham pessoas trans inclusas em todas as áreas.

– Como foi a resposta do público? (dandara.vital) Pergunto porque em outra participação que fiz, a autoria disse que não colocou pessoas trans, entre n desculpas, porque o público não aceitaria. Então queria saber que você falasse um pouco sobre isso, até mesmo para que se tenha a naturalização.

Sei que muitas vezes eles não querem nos dar o protagonismo, mas o protagonismo é nosso, mana. A resposta do público nas minhas redes sociais foi incrível. Eu só recebi mensagem maravilhosa, de muitas meninas trans, de pessoas orgulhosas pela Globo ter dado esse espaço de botar no folhetim uma mulher trans. Porém teve duas ocasiões que me senti desconfortável. Uma das postagens no Facebook, em que as pessoas usavam palavras muito pesadas nos comentários. Não tinha nada a ver com a Globo, mas com as pessoas que seguiam. Eu li uns três e parei, porque não queria filtrar aquele tipo de coisa. Teve também um site religioso que repostou uma entrevista que eu dei e eles mudaram o meu gênero durante toda a entrevista. Onde tinha “ela” eles colocavam “ele”, onde tinha “atriz” eles colocavam “ator”. Foi muito constrangedor. Nas demais, foram só coisas boas e frutíferas.

Referências de Gabriela Loran



– Você é a favor do movimento representatividade trans? Por qual motivo?

Sem dúvidas eu sou do movimento de representatividade trans, porque ela tem a ver com a sobrevivência dessas pessoas trans, que somos minoria. Enquanto a gente não for vista na TV, nos outdoors, enquanto não derem o protagonismo para nós, não tiver trans no banco, no mercado e em todos os lugares, a gente vai continuar sendo mortas, porque o preconceito acontece pela ignorância. Quando não sabemos o que algo é, normalmente repudiamos aquilo. Quando você vê que existe, tem noção que é real, tenta começar a entender, então você acaba começando a respeitar.

– Por outro lado, como você reage na hipótese de só ser chamada para papeis que sejam mulheres trans e não mulheres cis? (@trans_preta)

Obviamente eu sou uma atriz, eu vou aceitar uma personagem a partir do que vier. Se eu achar interessante a proposta, sim, tá valendo. Mas enquanto eu puder falar e atuar em personagens trans, é mais válido e frutífero para mim, porque estarei falando sobre minha bandeira. Mas se me chamarem para interpretar uma mulher cis, tenho que mostrar a minha faceta enquanto atriz. Mas acho que o momento pede que estejamos ocupando o espaço de personagens trans. A Daniela Vega acaba de ganhar o prêmio de “melhor filme estrangeiro” no Oscar, num filme que a atriz é atriz e a personagem é trans. Precisamos falar sobre isso.

– Como lidar em um ambiente com escassas oportunidades e ao mesmo tempo, quando chamam artistas trans para determinado trabalho, ele tem conteúdo transfóbico? Você já passou por uma experiência assim? O que faria?

Sem dúvida já passei por essa experiência. Esses dias fui chamada para um espetáculo, em que faria uma mulher trans, aí quando fui ler o roteiro e ele estava cheio de besteiras. Como eu percebi que era ignorância e não maldade, eu expliquei: “gente, se a gente quer falar sobre isso, não pode ser assim. Fica melhor se for assim, assim e assado”. Porque muita gente quer falar sobre nossa pauta, mas não quer dar o protagonismo para a gente. E aí que eles erram, porque eles não sabem o que a gente passa, não sabem como tratar determinado tipo de assunto, como nossa vida gira, então cometem essas ignorâncias. Cabe a nós nos impormos nesses momentos. “Se for assim, eu não quero, tá errado”. “Se o projeto for esse, eu não quero linkar a minha imagem com isso”.

– De alguma maneira, você busca dar acesso a outras mulheres trans e travestis? Como? (@trans_preta)

Sem dúvidas, eu busco dar oportunidade para essas mulheres. Se nós não fizermos por nós mesmas, ninguém vai fazer. Então não pode ter inveja. Não pode ter: “Ai, não vou indicar ela, porque ela é mais feminina”. Não pode existir isso. A gente tem que estar unida, senão a gente vai continuar morrendo. Quando eu não posso fazer um trabalho, eu sempre indico uma amiga minha. Ligo, pergunto pra ela o que ela acha e indico. A gente tem que empoderar as nossas.

– Você se define mulher transexual, mulher trans, travesti?

Eu me identifico enquanto mulher trans e travesti. Acho que a palavra travesti carregava um significado que não condizia com a palavra, então quero ressignificar essa palavra. Eu não me incomodo de ser chamada como atriz trans, porque é o que eu sou. É claro que acima de tudo eu sou atriz, e Gabriela mulher trans. Então sou uma atriz que é mulher trans e isso não é um problema.


– Com quantos anos você deu início à transição de gênero? (@paulinho_cesarccs). Você se hormoniza? (larsousacs) Além do corpo, o que mudou com a hormonização?

Eu comecei a minha transição com 23 anos, hoje eu tenho 25, então faz dois anos que estou em transição. Transição não, porque o ser humano em si está em transição. Eu estou me conhecendo ainda. Então, faz dois anos que me conheço. Me hormonizo também há dois anos. O humor muda, a pele muda, acho que é isso.

– Chegou a fazer cirurgias? Hoje você está satisfeita com o que vê no espelho? Gostaria de passar por algumas cirurgias ou modificações?

Nunca fiz nenhuma cirurgia. Só arranquei dois sisos (risos). Me sinto satisfeita com o que vejo no espelho, pois agora me reconheço enquanto Gabriela mesmo. Acho que tudo tem seu tempo, não sei se gostaria de fazer alguma cirurgia. Como a gente está em constante transição, não sei como será amanhã. Hoje eu digo não, mas amanhã pode ser diferente.

– Você sente que por ser uma mulher trans e negra sofre muito mais preconceito? (kaosdrawshere). Você já sofreu transfobia em algum lugar público? (@paulinho_cesarccs)

Sim, sinto mais preconceito por ser trans e negra. Já é uma minoria ser trans e ser negra é outra minoria. Primeiro eu me identifiquei enquanto mulher trans, depois me identifiquei enquanto mulher trans e negra. Ou seja, meu corpo e três vezes mais objetificado enquanto uma mulher trans branca. Obviamente que são sofrimentos diferentes, mas existe e tem uma carga história de questão racial por causa disso. Já sofri preconceito em um ônibus, no shopping, bar, lugares públicos. Pessoas trans sempre sofrem transfobia, a não ser que você seja 100% passável.

– Desses galãs de Malhação, qual faz mais seu estilo? Dado (Claudio Heinrich, de 1995 a 1998), Mocotó (André Marques, de 1995 a 1999), Luciano (Micael Borges/ 2009) ou Hugo (Leonardo Bittencourt/2018)?

Desses o que mais me fascinou foi o Micael Borges. Para além da melanina, obviamente, ele vem do Nós do Morro e tem uma representatividade importante. Então, o Micael Borges é o que mais faz meu estilo.

– Já sabe qual será seu próximo trabalho na TV? (heyrozitz) Qual é o seu sonho e o que deseja alcançar em sua carreira? (lauramzanotty)

O sonho que eu desejo alcançar na minha carreira é a estabilidade financeira. Infelizmente viver de arte no Brasil ainda não é possível. Então meu sonho é poder sobreviver de arte, poder me sustentar com o meu ofício, do qual me formei durante anos e continuo aí na luta. O glamour existe, mas o dinheiro por trás é quase zero. A gente precisa de mais oportunidade, mais representatividade e que possamos receber um salário digno de atriz.

– Quer deixar alguma mensagem?

É uma fala da Renata Carvalho, pode dar os créditos: “A gente tem que entender que transfobia não é um problema das pessoas trans. A transfobia é um problema de pessoas cis. Não fomos nós que criamos a transfobia, fomos vocês. Então cabe a vocês resolverem isso”.

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