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Quem foi Amancay Diana Sacayán, a ativista travesti que fez história na Argentina

Por Neto Lucon

Amancay Diana Sacayán foi uma das ativistas travestis que marcaram a história da política da Argentina. Tanto em vida, quando dedicou sua trajetória na luta por direitos, quanto em sua trágica morte, cujo assassinato em 2015 motivou neste ano na primeira condenação por travesticídio.

Nascida em Tucumán, Amancay veio de uma família pobre e soube desde cedo que teria que lutar muito para conseguir viver ou sobreviver no mundo. A percepção de que era uma travesti ao longo dos anos, e a revelação para o mundo de sua identidade de gênero aos 17 anos, a impulsionou para a militância.

Ela trabalhou durante muitos anos como profissional do sexo e sabia que estava na área, bem como 95% da população trans, por falta de oportunidade no mercado formal de trabalho. Na militância, foi integrante do Movimento de Libertação Antidiscriminação, ILGA, e conseguiu por meio de seu ativismo marcar os direitos da população trans.

“Diana queria realmente viver, amar. Foi uma pessoa muito doce. Ela tinha humor, frescor, era rebelde e corajosa. Ela, como todos nós, abraçou o ativismo como salva-vidas. Então, encontramos sentido em nossas vidas miseráveis “, disse Lohana Berkins, uma de suas amigas e colegas de ativismo.

CONQUISTAS E BATALHAS

Além da presença em diversas manifestações, Amancay foi peça fundamental para que o Ministério da Saúde de Buenos Aires emitisse uma resolução que hospitais respeitassem a identidade de gênero de pessoas trans e travestis. Lutou ao lado da deputada Karina Nazábal para que houvesse Leis de Cotas Trabalhistas para pessoas trans em Buenos Aires.

Isso sem contar que em 2012 foi a primeira travesti a receber os documentos retificados das mãos de ninguém menos que da ex-presidenta Cristina Fernández Kirchner. O nome Amancay foi escolhido de uma flor amarela típica da América do Sul e o Diana de uma amazona guerreira. Não era por acaso que pode ser visa em fotos com flores na cabeça ou gritando e lutando nas ruas.

Ela também escreveu para o El Teje, o primeiro jornal trans que foi às ruas em toda a América Latina, e para o suplemento Soja de Página/ 12. Também fez colaborações nas obras “Em busca do nome próprio” (2006) e “Cumbia, competeos e lágrimas” (2008), que falavam sobre a trajetória de vida das travestis e pessoas trans.

A conquistas não vieram sem ataques. Em um pré-debate sobre direitos trans, ela disse que foi insultada e agredida por homem em um trem para La Plata. Também alegou que foi agredida por agentes da Polícia Metropolitana. “Ela não perdoaria uma violação, nunca ficava calada”, declararam amigas à imprensa local. Em 26 de agosto de 2015, seu último ano de vida, denunciou: “Um senador me mandou calar a boca”, emendando “Cotas de trabalho para trans já”.

 


O ASSASSINATO E A LEI DO TRAVESTICÍDIO

Amancay foi encontrada morta aos 40 anos em seu apartamento no dia 13 de outubro de 2015, com pés e mãos amarradas, amordaçada e apresentando sinais de alto grau de violência. Em seu corpo havia 13 facadas.

O crime chocou o país e mobilizou a militância LGBT, que pedia punição ao assassino e regras mais rígidas no combate à transfobia. O assassino confesso foi Gabriel David Marino, de 25 anos. Ele foi julgado e condenado a prisão perpétua em junho de 2018 pelo 4º Tribunal Penal Oral da capital argentina.

Foi a primeira vez na história da Argentina que a Justiça reconheceu o assassinato de uma travesti como travesticídio, ou seja, “homicídio agravado por violência de gênero e ódio à identidade de gênero” da pessoa travesti ou trans. 

A ativista trans Lara Bernasconi apontou o ativismo de Amancay e a importância de avaliar tais crimes como eles realmente são, de ódio. “ A comunidade trans teve que quebrar o paradigma de que não é apenas um assassinato, mas que foi um travesticídio”. Vale dizer que em uma das manifestações, Amancay pedia basta ao travesticídio e “Nenhuma a menos”.

MENSAGEM

Em um dos textos, a ativista já falava sobre sua possível morte. Talvez soubesse que, devido ao seu trabalho, estivesse na linha de frente da transfobia, exposta e pudesse sofrer mais violências. Ela deixou a mensagem:

“Quando eu partir, não quero pessoas de luto. Quero muitas cores, bebidas e muita comida. Aquela que eu precisava quando era criança. Quando eu partir não aceitarei críticas, mas seria razoável que me dessem uma montanha de flores. Aquelas que os mil amores pelos quais sofri nunca souberam como dar. Quando partir, não quero brigas na despedida. Eu amo minhas amadas travas, meus irmãos de rua, de vida e de luta. Quando eu partir, sei que algumas consciências vão se abrir com o humilde ensinamento de resistência trava, sudaca e originária”.

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