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Jesus travesti foi vítima de bomba, censura e confusão, mas resistiu até o fim em Garanhuns

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A apresentação independente do espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, na sexta-feira (27) em Garanhuns, Pernambuco, foi alvo de novos ataques, ameaças, uma nova tentativa de censura por meio de uma ação judicial e até bomba. Mas resistiu até o fim em suas duas apresentações, com sucesso de público e muitos aplausos.

Inicialmente, a peça foi retirada da programação do Festival de Inverno de Pernambuco, a pedido do prefeito da cidade e em comunicado do Governo de Pernambuco. Depois, o Tribunal de Justiça determinou que o espetáculo voltasse a programação. Porém, durante a apresentação do monólogo, ocorreu uma reviravolta de última hora: uma nova tentativa de barrar a apresentação via judicial.

O desembargador Roberto da Silva Maia atendeu um mandado da Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região e determinou que a apresentação não fizesse mais parte da programação do Festival de Inverno de Garanhuns. O motivo é porque a peça, escrita por Jo Clifford e dirigida por Natalia Mallo, é protagonizada por Renata Carvalho, uma atriz que é travesti. Para eles, uma travesti não pode interpretar Jesus.

Segundo relato da diretora Natalia Mallo, tudo correu bem na primeira sessão. “No intervalo, um estrondo e muita fumaça. Muita cara de prenúncio. Então, após soltarem bombas no espaço, chega uma liminar judicial (a pedido da Ordem dos Pastores Evangélicos) pedindo mais um cancelamento, e nós decidimos desobedecer, com o apoio da nossa produção. Daí a segurança contratada (“contrapartida” oferecida pelo FIG) se volta contra nós e proíbe a entrada do público”.

Foi preciso que a própria atriz, Renata Carvalho, e a produção enfrentassem o bloqueio e abrissem a porta do local. “Renata quebrou tudo, expôs os covardes e berrou todas as verdades. A força era tanta que um batalhão inteiro da PM não teve coragem de agir. ‘Acalma ela!’, gritavam para mim, e eu pensei: ‘não’. Ouçam e aguentem. E permaneci dando suporte e vigiando a movimentação. Foi uma catarse e tanto”.

Cerca de 300 pessoas estavam presentes e entraram no espaço gritando “não vai ter censura” e “fascistas”. “Jesus disse: vai ter peça sim. A liminar cancela da programação oficial, mas vamos fazer outra sessão de maneira independente. Venham com amor”, declarou o artista Chico Ludermir, um dos responsáveis pela campanha de financiamento coletivo para a realização do espetáculo.

FOI RETIRADA TODA A ESTRUTURA

A decisão judicial proibiu que o espetáculo estivesse dentro do Festival, porém não conseguiu impossibilitar a apresentação da peça na ocasião. Isso porque o monólogo foi organizado por meio de iniciativa privada, quando artistas e produtores fizeram uma vakinha online para arrecadar dinheiro e trazer a peça à cidade, logo após a primeira retirada da programação. Inclusive a casa foi alugada com o dinheiro arrecadado, não do Festival.

A Secretaria de Cultura e a Fundarpe resolveram, então, retirar toda a estrutura montada no local, oferecida como mea culpa após serem obrigados a trazer de volta o espetáculo à programação, antes do novo impedimento ocorrer. “Assim, há o entendimento de que o espetáculo não aconteceu sob o apoio oferecido pela Fundarpe”, declarou Severino Pessoa, chefe de gabinete da Secretaria de Cultura de Pernambuco.

A peça continuou mesmo sem luz, som ou estrutura. O público foi colocado do lado de fora do toldo da Fundarpe, tomou chuva, mas apoiou até tudo acabar. “Cortaram o som (cantei a trilha sonora a capela), cortaram a luz. Tiraram o toldo que protegia o público da chuva, e a peça não parou. O público ficou até o fim, e foi a nossa proteção”, disse a diretora.

Enquanto a peça estava ocorrendo, iniciou-se muito barulho devido a desmontagem da estrutura – o que foi considerado mais uma tentativa de boicotar a peça, uma vez que ninguém parava mesmo após diversos pedidos. Foi preciso que novamente Renata Carvalho fosse, com muito enfrentamento, cobrar respeito e solicitar que eles fizessem a desmontagem depois e que parassem de boicotar a peça. O público vaiou enquanto os funcionários saíam.

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Público teve que ficar do lado de fora da estrutura da Fundarpe

Por fim, a segunda apresentação da noite conseguiu ser finalizada e muito aplaudida. Apesar de toda a polêmica envolvida, a peça fala sobre amor, respeito, acolhimento perdão – e também tira o véu da transfobia (preconceito contra pessoas trans e travestis) ao questionar: “E se Jesus voltasse como travesti?”. A repercussão do espetáculo evidencia a resposta. Vale dizer que, ainda que a peça não esteja na programação do FIG, foi a obra que melhor personificou o contraditório tema: “Um Viva a Liberdade”.

PIOR EPISÓDIO DESDE A ESTREIA

A dramaturga escocesa Jo Clifford escreveu um texto com diversos apontamentos sobre o festival e afirmou que ficou aliviada por Renata, Natalia e a companhia tentam escapado em segurança e terem se saído tão bem, com posicionamento poderoso e corajoso, em nome dos direitos humanos e da liberdade artística e expressão. Disse também que está furiosa com a maneira como elas foram tratadas.

“Que tipo de festival é este, eu me pergunto, que opera sob o slogan “Um Viva à Liberdade”; que convida uma peça a fazer parte dela, e então retira abruptamente o convite no último minuto porque supostamente ofende a igreja cristã. É assim que se celebra a liberdade? E que tipo de festival é este que, tendo sido informado de que sua retirada de convite é ilegal, cancela seu cancelamento, reinsere a peça em seu programa e, em seguida, retira-a novamente, assim que a sessão está começando?”.

Ao NLUCON, Renata Carvalho declarou que foi o episódio mais triste e de maior desrespeito que ocorreu até então desde a estreia do espetáculo, há dois anos.

“Foi o episódio em que a gente sofreu mais ataques, onde juntaram pastores, igreja, polícia militar, governo prefeitura e a própria organização do festival, a Fundarpe. Porque nos outros episódios, tivemos pelo menos o respaldo das pessoas que contrataram a gente. Lá não, eles estavam a favor da censura, a favor do espetáculo não acontecer. Foi com muito desrespeito mesmo. Garanhuns foi o mais triste episódio de Jesus”, declarou.

Renata e a equipe foram embora escoltadas da cidade, uma vez que muitas ameaças foram realizadas. Agora, “O Evangelho Segundo Jesus” segue para apresentações no dia 1 a 6 de agosto na Sede das Cias, no Rio de Janeiro (veja aqui).

Saiba o que rolou: 

  1. Peça com Renata Carvalho na pele de Jesus é censurada de novo; agora em Pernambuco
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  2.  Após censura, peça volta à Pernambuco por iniciativa independente de artistas
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  3. Daniela Mercury detona censura à peça com Jesus travesti, no FIG: “Arte é para libertar cabeça de merda”
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  4. Tribunal de Justiça determina que peça censurada com Jesus travesti volte a festival em Pernambuco
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  5. Peça com Jesus travesti é reinserida na programação do FIG: “Censura nunca mais”
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  6. Reviravolta: Durante apresentação, desembargador tenta cancelar espetáculo com Jesus Travesti
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  7. Mesmo sem estrutura, espetáculo resiste, público permanece e Jesus travesti é aplaudida em Garanhuns
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