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O corpo político de Juh Duarte e o que seu assassinato nos revela

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“Eu tô aqui pra confundir”, escreveu Juh

Juh Duarte, que trabalhava como Policial Militar, havia saído de casa na última quinta-feira (02) para se encontrar com amigos em um bar na favela de Paraisópolis, São Paulo. Em dado momento, quatro homens encapuzados entraram no espaço e levaram Juh. Seu corpo foi encontrado na segunda-feira (06) dentro do porta-malas de um veículo, alvo de tiros na cabeça e na região da virilha.

O assassinato chocou muita gente, repercutiu nas mídias hegemônicas e nas redes sociais. Houve debates de diversos níveis, explanando a violência sofrida também por policiais, e até tentativas de transformar em um debate partidário. Teve quem comparasse a repercussão do caso com o de outros, vide Marielle Franco. E mais recentemente, houve o questionamento se Juh se identificava enquanto mulher lésbica ou homem trans.

A mobilização se dá porque há inúmeros casos de pessoas trans e travestis que foram assassinadas e que nem mesmo após a morte tiveram seus nomes sociais e identidade de gênero respeitadas. Muitas travestis foram enterradas como homens, sendo associadas e contabilizadas como homens gays. E muitos homens trans morreram sendo associados e contabilizados como mulheres lésbicas. A prática é vista como apagamento e uma segunda morte dessas pessoas.

A questão foi levantada e viralizou depois que um segundo perfil de Juh nas redes sociais foi descoberto e divulgado em formato de print. Ele também foi publicado na página chamada “Diário Secreto de um Homem Trans”, que incluiu o nome do grupo em cima da foto, e em diversos outros grupos. Nele, a vítima se identificava enquanto Dudu. Até então sabia-se que Juh namorava mulheres, tinha uma expressão de gênero masculina, mas não havia comprovação de que se identificava enquanto homem.

Diante do segundo perfil – que teria sido apagado pouco depois – diversas outras pessoas também fizeram postagens e ressaltaram que Juh era homem trans. Ao serem procuradas, disseram que não conheciam a vítima, mas que se sensibilizaram com o caso e com o apagamento das pessoas trans. Os sites Põe na Roda e Observatório G divulgaram que Juh seria homem trans. Segundo Agripino Magalhães, fonte entrevistada pelo Põe na Roda, a informação foi obtida devido ao segundo perfil e por uma fonte amiga que ele não soube informar o contato.

Descobrimos que o segundo perfil de Juh/Dudu foi printado e divulgado pelo pesquisador Eduardo Michels. Ele disse que, apesar de “não ter elementos suficientes para dizer se Dudu tinha ou não identidade transgênera, pode afirmar que é uma pessoa com vivência corporal e cultural compatível com uma funcionalidade trans e que estavam nitidamente presentes em seu 1º perfil, antes de ser deletado da rede social”. Ou seja, considerou que visualmente Juh/Dudu fosse uma pessoa trans, sem a confirmação de terceiros.

“Vale lembrar a todos que a informação de que se tratava de uma pessoa trans, não esta disponível para a mídia, somente para o gueto. Nós disponibilizamos esta informação, ligando o nome civil ao nome social, com o qual a vitima se apresentava na rede, para que a mídia pude-se ligar o nome a pessoa e fizesse a relação de necessária, o que acabou não acontecendo porque o perfil social da vítima foi rapidamente deletado, como sempre acontece nesses casos de apagamento da LGBTfobia”, escreveu.


REPERCUSSÃOJean Wyllys (PSOL-RJ), David Miranda (PSOL-RJ) e outros políticos e candidatos também escreveram um texto ressaltando que a vítima é homem trans, e não uma mulher lésbica.

“Há um verdadeiro cenário de guerra patrocinado por uma política de segurança pública voltada para a gestão da pobreza, distanciada das reais necessidades da população das periferias. No Brasil, a segurança pública segue a lógica militarizada do confronto, sem que isto tenha a mínima capacidade de prejudicar o funcionamento das facções do crime organizado. E os resultados são, constantemente, medidos em índices de mortes em confronto. A polícia que mais mata no mundo é também a que mais morre. E quem morre não é apenas um agente do Estado. Dudu dos Santos Duarte, policial militar, era um homem trans e negro, como são as vítimas preferenciais dos crimes violentos no Brasil”, escreveu Wyllys.

Por outro lado, os operadores de segurança pública LGBTI, RENOSP LGBT, não mencionam que seria um homem trans. E Bruna Benevides, responsável pelo Mapa de Assassinatos de Pessoas Trans da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a Antra, também informou que não houve a confirmação de que Juh seja homem trans e que o caso não será listado.

“Ficamos extremamente indignadas com este assassinato, e o nosso levantamento é comprometido com fatos que atestem se tratar de uma violência específica contra a identidade de gênero das pessoas trans. Fazemos um trabalho minucioso de investigação em memória das vítimas e em respeitos ao luto dos familiares. Defendemos a autodeclaração para o reconhecimento de nossas identidades desde que seja assumida publicamente pela própria pessoa, caso contrário correríamos o risco de estar expondo algo que é de foro íntimo e pessoal. Além de, neste caso específico, causar o apagamento do assassinato de uma mulher lésbica negra e periférica ao impor um processo de que chamamos como “transexualização de pessoas cis” onde lésbicas masculinizadas estão sendo compulsoriamente identificadas com pessoas trans. Isso é um ato claro de lesbofobia. E nós enquanto ANTRA somos contra toda e qualquer forma de discriminação!”, diz o comunicado.

GOSTAVA DE CONFUNDIR

Alguns homens trans disseram que conheceram Dudu com o nome Eduardo e que chegaram a sair por duas vezes em São Paulo. “Quando outro homem transgênero diz pra mim que conheceu o Dudu em grupo de WhatsApp ano passado voltado para a galera trans e saiu com ele duas vezes, além do mesmo se apresentar como Eduardo, creio ser uma fonte confiável”, comentou o psicólogo Bernardo Nascimento.

Porém as fontes não toparam falar com o NLUCON, alegando não ter tanta proximidade assim com a vítima. O único que topou falar oficialmente foi Robis Ramires, que é homem trans, conhecia a vítima e chegou a morar com ela.

Ele afirma que Juh se identificava enquanto lésbica, se apresentava como Juh Duarte, mas que gostava de confundir. “Juh não era homem trans, apesar de não se importar e ser chamada de ele ou ela. Alguns amigos chamavam de Dudu, mas a maioria chamava de Juh, a Juh. Ela sempre dizia que era lésbica, mas gostava dessa parte de confundir e de dizer que seria pai”, conta.

Robis diz que não acredita que a identificação enquanto lésbica parta de um desconhecimento sobre as identidades trans. Ele aponta que muitas pessoas fazem a associação porque ela aparenta ser um.  “Não é falta de informação dela ou algo, porque ela me conhecia desde os 15 anos”.

Em uma conversa no Facebook, Juh explica suas questões de gênero para uma amiga que questiona por que falou “eu tô bolado”, no masculino. “Há mais coisas entre o céu e a terra do que o cérebro humano pode processar. Eu tô aqui para confundir”. Em outra postagem, ele divulga uma brincadeira no Facebook cujo resultado mostra que ele pensa 100% como mulher. “Para calar a boca de vocês que dizem que penso como homem. hahaha”.

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Robis e Juh: “Ela não se importava de ser chamada de ela ou ele”

UMA VIDA QUE IMPORTA

Robis afirma que ficou chocado e triste com a notícia do assassinato e destaca que foi uma grande perda, sobretudo por ser uma pessoa maravilhosa e que o ajudou muito em diversos momentos.

“Quando convivemos presencialmente, me incentivou a trabalhar e estudar. Concursada, me inspirou por um longo período, conheceu minha família em Palmital, ajudou a levar minha moto que estava no interior até São Paulo. Eu não tenho palavras para descrever o sentimento de carinho e afeto que tenho e de como estou triste com essa morte trágica”, diz.

Outros relatos divulgados pela mídia hegemônica também evidenciam a pessoa que foi. “Com ela não tinha tempo ruim”, disse uma amiga. “Eu dizia que antes dela, chegavam os dentes dela, porque ela tinha aquele sorrisão. Se você chegava triste, ela te levantava. Adorava uma bagunça”, contou outra. “A Juh era alegre pra caramba”, disse um colega.

Ou seja, independente de qual caixa Juh/Dudu estivesse, é preciso se atentar que uma vida foi ceifada. A vida de uma pessoa que faz parte da comunidade LGBT e negra. Uma vida que foi interrompida, talvez no meio de um processo ou que tivesse uma expressão de gênero masculina, ainda que não identidade de gênero.

E, diante da impossibilidade de dizer que se trata de um homem trans e para além do tratamento condizente ao gênero identificado – que é importantíssimo, uma vez que diversas pessoas trans e travestis são desrespeitadas em seus nomes sociais e identidade de gênero mesmo após a morte – talvez o mais importante não seja criar uma disputa do corpo assassinado de quem não está mais presente, mas se atentar ao assassinato e sua elucidação. Afinal, é uma vida que importa.

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2 comentários

  1. A hipocrisia da comunidade LGBT nesse caso é gritante! Vc não vê ninguém mencionando nada sobre o caso! Só pq ela era PM, então quer dizer que esse movimento nojento se preocupa só com os LGBTs que são de esquerda e podres iguais a eles?

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  2. Matéria totalmente desnecessária e ainda por cima baseada em um rumor, nem a vitima deixou claro se ela se identificava como homem trans ou não e alem do mais isso é um detalhe tão trivial. Uma policial morreu na mão de bandidos covardes e você esta preocupado se ela era um homem trans ou não, ah faça-me um favor.

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