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Homem cis acusado de jogar esposa do 4º andar também discursava contra trans, gays e feminismo

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A morte da advogada cis Tatiane Spitzer no dia 22 de julho em Guarapuava, no Paraná, chocou o Brasil. O principal suspeito é o marido cis, o professor de biologia Luís Felipe Manvailer. Imagens da câmera de segurança mostra ele dando tapas, chutes, socos, golpes de artes marciais na esposa… Levada à força ao apartamento, ela despencou do 4º andar.

É possível ver Luís Felipe ir atrás do corpo, carregar e levá-lo de volta ao apartamento. Depois, ele tenta limpar todas as marcas de sangue deixadas. Fugindo de carro, bateu o veículo próximo da fronteira do Paraguai. Não admitiu o crime. Alegou que a esposa se jogou e que estava abalado. Foi preso. A Polícia Civil o indiciou por ter jogado e matado Tatiane.

Com repercussão internacional, entendeu-se a importância de se discutir a violência contra a mulher e mais especificamente o feminicídio – crime de ódio que ocorre quando o homem se julga no direito de oprimir, violentar e até matar alguém devido ao gênero feminino ao qual ele se julga inferior. O feminicídio virou uma qualificadora do crime de homicídio em 2015 (Lei nº 13.104/2015), tendo como pena prevista a reclusão de 12 a 30 anos.

Segundo a socióloga Eleonora Menicucci, os assassinatos por feminicídio não são casos isolados, nem repentinos ou inesperados. Tampouco meramente passionais como costumavam ser enquadrados. “Eles fazem parte de um processo contínuo de violências, cujas raízes misóginas caracterizam o uso da violência extrema. Inclui uma vasta gama de abusos, desde verbais, físicos e sexuais, como o estupro, e diversas forma de mutilação e de barbárie”, declarou, segundo a Agência Patricia Galvão.

ANTES DAS MORTES

Segundo o Ministério Público do Paraná, Luiz Felipe praticou todas as formas de violência familiar e doméstica contra a vítima. Entre as situações mencionadas no documento, ele a chamava por diversos apelidos humilhantes, como bosta albina. impedia de gastar o dinheiro que recebia do trabalho de forma livre e chegou a rasgar as roupas que ela havia comprado por não gostar delas.

O MP alega inclusive que ele foi responsável por violência psicológica, obrigando a esposa a fazer todos os serviços domésticos, não ajudava nas tarefas e a proibia de contratar uma diarista. Sinal de que o machismo, a misoginia e as violências antecedem a madrugada da morte da vítima.

Isso por que essas opressões advém de uma sociedade marcada pela desigualdade de poder entre os gêneros, sobretudo de construções históricas, culturais, econômicas, políticas e sociais. É praticado pelo homem contra a mulher. A Organização Mundial de Saúde (OMS) informa que um terço (35%) dos homicídios de mulheres no mundo são cometidos por companheiros, maridos, conjugues ou namorados. As mortes de homem assassinados por suas companheiras é de 5%.

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PRECONCEITO DE GÊNERO

Outra questão que surge é que, antes da violência praticada contra Tatiane, Luiz Felipe procurava manter o discurso de “cidadão de bem”, sobretudo em suas redes sociais. Porém, se por um lado publicava fotos românticas e declarações apaixonadas, por outro ele fazia postagens e comentários contra movimentos sociais e conquistas de minorias que revelam muita coisa.

Nas postagens, que foram pesquisadas e divulgadas pelo site Diário do Centro do Mundo, ele zomba do movimento feminista, discursa contra o respeito de mulheres trans e travestis em espaços femininos – como a entrada da jogadora Tifanny Abreu, que é mulher transexual na liga feminina de vôlei – além de se ancorar em políticos de cunho conservador.

Todas essas questões, que parecem ser separadas por identidades, que aparentemente não dialogam entre si e que nem parecem fazer parte de um problema em comum (logo não despertam preocupação caso não faça parte), são ramificações que partem de um mesmo sistema. Um sistema patriarcal, machista, misógino, heterocisnormativo e racista feito para oprimir, violar e matar.

O discurso é contraditório, mas muito frequente em diversos espaços e em outros casos. É comum ver alguém dizer ser a favor da família, mas nos bastidores agredir a esposa. Aquele que se diz a favor dos direitos da mulher e ser contra o feminismo. É comum ver quem se diz contra o aborto e simplesmente não falar sobre pais que abandonam seus filhos. É comum ver quem defende que mulheres trans e cis não devem frequentar o mesmo banheiro pelo “risco de estupro”, mas fazer parte do grupo que mais estupra – o dos homens cis – e não se preocupar com isso. É comum ver alguém dizer a favor a família, mas expulsar um ente querido quando ele diz ser LGBT…

E, sim, dados os recortes e especificidades, todas essas questões tem relação com gênero.

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O QUE FAZER?

Há diversos movimentos sociais/ feministas, organizados ou individuais, em prol das mulheres e de outras minorias em direitos. Os grupos discutem maneiras, ideias e ações de empoderar tais pessoas, combater as violências e criar mecanismos que contribuam para uma sociedade mais justa, igualitária e com menos violência, opressões e mortes.

Contudo, ainda é desafio estourar a bolha, promover discussões em todos os espaços e mostrar que é importante falar sobre gênero. Há inclusive diversos políticos – homens cisgêneros, brancos, héteros e engravatados – empenhados em barrar a discussão. Há projetos que impedem que se fale sobre gênero nas escolas, por exemplo.

As desculpas são as mesmas maquiadas de preocupação com a família, com a mulher cis, com os bons costumes e até de não incentivar que crianças sejam LGBT (como se ser LGBT fosse intrinsecamente errado). Mas é perceptível que, pautado nas fobias e preconceito, o que há na prática é só a manutenção do machismo, da misoginia e de suas ramificações. É a perpetuação da ideia cultural de que há um gênero superior a outro, uma identidade de gênero superior a outra, uma orientação sexual superior a outra, tendo como centro o homem cis hétero e branco.

É preciso também fazer um debate sobre o preconceito racial, que atinge ainda mais fortemente as mulheres negras. O Atlas da Violência 2018, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) a taxa de assassinatos de mulheres negras foi 71% maior que a de mulheres não-negras.

Enquanto a sociedade como um todo não se atenta para a importância de discutir gênero, racismo, transfobia, outras opressões e não se organiza de fato com medidas para evitar estruturalmente as opressões, a ONU estima que 70% de todas as mulheres já sofreram ou irão sofrer algum tipo de violência referente ao gênero em suas vidas. Nos últimos oito dias, além da morte de Tatiane, outras 11 mulheres foram assassinadas por feminicídio no Brasil. E não há previsão nenhuma desse número diminuir.

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