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Psicólogo Thomaz responde: “Percebo que sou pessoa trans, mas tenho nojo e vergonha; o que fazer?”

vergonha

Estreia hoje a coluna “Psicólogo Thomaz Responde”, em que a população trans e travesti poderá tirar dúvidas, pedir orientação básica e sugerir temas tanto relacionados à transgeneridade quanto outros temas que perpassam a vida das pessoas trans.

Thomaz Oliveira é formado em psicologia pela Universidade Paulista (CRP 06/145487), realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e idosos sob a ótica psicanalítica, além de palestras sobre diversidade sexual e identidade de gênero.

Na vida pessoal, é homem trans (e essa informação só é relevante para que as pessoas trans se sintam mais confortáveis em se abrir com alguém que conhece as questões de dentro e, dadas as especificidades, sente na pele o que é ser uma pessoa trans no Brasil).

Quem quiser participar, mande sua pergunta para holtneto@gmail.com com o título: “Dúvidas Thomaz Oliveira”. A cada coluna ele responderá um tema ou pergunta. Caso prefira que seu nome não seja exposto, garantimos o anonimato. Segue a pergunta e logo em seguida a resposta do profissional:

Pergunta: Sou C.*. Eu tenho 23 anos e sou de São Paulo-SP. Desde que eu me entendo por gente, nunca me encaixei plenamente no que é esperado do meu gênero designado ao nascer, o feminino. Sempre fui uma criança diferente das outras. Isso se confirmou quando comecei a ter contato com diversos assuntos e pessoas LGBT. Me assumi bissexual em agosto de 2017 para minha mãe e duas pessoas da minha família e hoje me enxergo como panssexual. Isso por si só já significaria MUITA coisa na minha vida, mas esse ano comecei a ter dúvidas sobre minha identidade de gênero, e vi que não-binarie me representava. Embora ainda me identifique com coisas do universo feminino, também percebo que sou trans (longa história). Mas toda vez que eu penso nisso, sinto nojo de mim mesmo/a, uma vergonha inexplicável. Penso que isso é besteira, que na verdade eu tô inventando coisa etc, mesmo sabendo que isso não é verdade. O que posso fazer para me ajudar nesse processo de autoaceitação? * leitor/a pediu para não ser identificada/o

Resposta:

UMA DAS FACETAS DA TRANSFOBIA: O ATO DE NÃO SE ACEITAR. Chegou a hora de conversarmos um pouco sobre isso…

Esta história contada por uma pessoa não-binárie de São Paulo me levou a uma interessante reflexão sobre autoaceitação. Das batalhas encaradas por uma pessoa trans ou travesti hoje, aceitar-se pode ser um dos maiores desafios pessoais enfrentados por parte da população T. A real problemática que gira em torno dessa questão é que, talvez, não estamos dando a devida atenção para essas pessoas.

Talvez isso se dê pela delicadeza da questão como um todo, afinal existe a possibilidade de as pessoas não se sentirem confortáveis para se abrir sobre o tema ou, a real dificuldade de encontrar espaços que sejam seguros para debater a autoaceitação dos nossos corpos T, assim como pode ser o fato de um dos debates mais comuns feitos atualmente, por nós e por pessoas cisgêneras, seja a dificuldade que pessoas trans e travestis enfrentam para serem aceitas em espaços que lhes pertencem (sendo que a verdade é que todos os espaços devem ser nossos). Pode ser um dos itens citados acima, todos ao mesmo tempo ou nenhum deles, o que não podemos ignorar mais é: estamos falando da transfobia deles de cada dia.

Ao realizar uma afirmação dessa, posso facilmente ser mal interpretado. Afinal, a pessoa que não se aceita é transfóbica? Reproduz transfobia? Ela tem culpa? Rapidamente podemos pensar em uma série de questões sobre isso, mas já me adianto em pontuar que não, não há culpa em sofrer para se aceitar. A realidade é que nascer, crescer e viver em uma sociedade transfóbica e binária pode nos deixar marcas, físicas e psicológicas, que levam tempo para cicatrizar. Marcas que demandam muito cuidado, principalmente psicológico para que em algum momento se possa compreender que, tudo bem ser quem se é ou deseja ser, que é mais que saudável questionar sua própria identidade e não há motivo para se sentir mal por isso. O caminho para essas conclusões pode ser longo e principalmente doloroso, mas quando passamos a construir uma relação saudável conosco, acaba se exteriorizando também.

Podemos não falar sobre a não aceitação de pessoas trans e travestis consigo mesmas, ou até mesmo não perceber que isso pode acontecer, mas a dificuldade que essa população pode enfrentar em se aceitar é “só” – altos níveis de ironia – transfobia, em uma de suas diversas formas. Sutilmente levando (novamente) pessoas que não são cisgêneras a se sentirem mal pelo simples fato de serem quem são.

Nesse momento entramos na questão apresentada no e-mail e mais importante desse texto: existe algo que possa ajudar nesse processo de autoaceitação? Eu sinceramente queria que houvesse algo, uma fórmula que agisse de imediato e fizesse as pessoas se aceitarem, mas infelizmente, se ela existe, eu desconheço. Contudo, eu acredito que exista um caminho que possa facilitar o seu fortalecimento e, consequentemente, de sua identidade. Possivelmente a maior dificuldade será encontrar de fato este caminho, pois acaba sendo algo tão singular que só você vai conseguir identificar, afinal ele é seu. Um espaço seguro na internet, um amigo ou grupo de amigos que você se sente confortável para conversar, aquela atividade que faz você se sentir bem. Apenas sugiro que você concilie a busca desse caminho com a terapia. Uma escuta profissional, capacitada e que esteja preparada para acolher você e suas demandas será essencial para te auxiliar nessa jornada. E que ela seja muito bem-sucedida!

Thomaz
Thomaz Oliveira é novo colunista do NLUCON

Quer participar? Envie sua pergunta para holtneto@gmail.com . Caso prefira, não precisa se identificar!

Contatos Thomaz:
Contato: (13) 99710-0882
thomaz.psicologia@gmail.com
fb/insta: @thomaz.psicologia

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