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“Minha filha curte demais minhas mudanças”, diz Cézar Sant’Anna, pai e homem trans

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Fernanda e o pai Cézar: “Minha única preocupação foi ela”

Cézar Sant’Anna tornou-se nacionalmente conhecido no último ano ao participar da campanha “True Colors”, do GGB. No trabalho, que chegou a ser premiado em Cannes Lions, na França, ele aborda a relação de um homem trans que deu à luz seu filho e comemora o primeiro Dia dos Pais.

Para quem não sabe, homem trans é a pessoa que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem. Ele gerou seu filho porque seu corpo biológico e órgãos reprodutores permitem e, em respeito a sua identidade de gênero, é definido como pai.

Vale dizer que na campanha Cézar atua ao lado de um ator mirim, mas a história é real. Ele é pai da pequena Fernanda, de 12 anos, fruto de um relacionamento antes de dizer ao mundo que é homem trans. A filha não ficou com ciúmes por não aparecer no vídeo. Ao contrário. “Quando assistimos ao comercial, ela me abraçou e disse: que orgulho”.

Convidado pelo NLUCON para uma entrevista exclusiva, ele topou responder algumas perguntas e também tirar as curiosidades dos nossos leitores. Aqui ele fala sobre ser pai, autoaceitação, processos, dar à luz e os os bastidores da relação com a filha. Vale muito a leitura!

– Recentemente foi o Dia dos Pais, você comemorou com sua filha? Com ficou o Dia das Mães depois que você revelou ser homem trans?

Eu comemoro todos os dias com a minha filha. Mas nestas datas específicas eu recebo os dois presentes e minha filha confecciona dois presentes para o Dia dos Pais. Um para mim e outro para o outro pai dela.

– Sua gravidez foi planejada? Qual foi a sua reação quando descobriu? (@umdanielrodri…) Você engravidou antes ou depois da transição?

Minha gravidez não foi planejada, apesar de estar no relacionamento há 4 anos. A minha reação foi de pânico e felicidade (risos). Eu tinha apenas 19 anos e foi uma grande surpresa. A melhor até hoje. Eu engravidei antes da transição. Fui me perceber trans quando minha filha tinha 9 anos.

– Eu sou homem trans, tenho vontade de gerar meu filho, mas tenho medo das transformações no meu corpo. Como foi a sensação de estar grávido? Houve algum tipo de negação?

Foi a melhor sensação do mundo. Sentir que está gerando uma outra vida é sensacional. Isso compensa todas as mudanças que ocorrem no corpo, algumas indesejadas pela ótica estética dos padrões de gênero. Mas é transformador gerar um outro ser humano. Não tive negação alguma e foi uma delícia!

– Sabe o que aconteceria se tivesse iniciado a hormonioterapia? É possível ser pai após a transição?

É possível gestacionar depois de iniciar a transição, porém só é possível interrompendo a hormonioterapia, pois o uso continuo dos hormônios interrompem o funcionamento normal dos nossos órgãos reprodutores.

– Quando e como foi que disse ao mundo que era homem trans? / Sua história é linda! Sua família é linda! como foi seu processo de autoconhecimento? (@fgadebora.viei…)

Obrigado! Foi há três anos que disse ao mundo que sou homem trans. Um grande desafio a viver. Porém a minha única preocupação era com a minha filha. Ela aceitou numa boa e ajudou em todo o processo. Meu processo de autoconhecimento foi primeiro me perceber trans e depois eu li muitos artigos e livros de pessoas trans, para amadurecer esse sentimento. Todos os passos que eu dei no sentido de me adequar ao meu gênero, só reforçaram a minha vontade de seguir em frente.

– Em algum momento o fato de ter uma filha pesou na sua decisão de revelar ao mundo que é um homem trans? Isso foi uma questão? / Precisava de ajuda com isso, pois também tenho uma filha de 17 anos, mas me descobri homem trans agora (souzakauan82)

Em algum momento sim. Mas eu sempre confiei na educação diversa que eu sempre dediquei a minha filha. Isso ajudou a ela ter estrutura para entender a minha transição e facilitou muito o meu processo de adequação de gênero. A minha filha já tinha 9 anos quando eu iniciei a transição e hoje ela tem 12. Era meu maior medo ela ter problemas quanto a isso.

– Como foi falar para ela?

Durante toda a vida dela eu sempre dei uma educação diversa e sem criá-la numa bolha. Minha primeira “saída do armário” foi quando eu assumi naquele contexto minha orientação afetiva, e então eu vivia como mulher cis e lésbica. Isso sempre foi aberto em nossa casa, sobre qualquer coisa, seja temas de preconceito ou racismo e até política. Então isso a ajudou a ter estrutura para receber as informações necessárias e saber como lidar quando foi meu momento de transição. Ela foi a que menos deu problema. Conversei com ela e ela entendeu quais seriam as mudanças e, vou te contar…Ela curte demais! (risos).

– Sua filha te chama de mãe, pai, trans pai?

Isso foi ao longo do processo de transição. Então quanto mais eu atingia a passabilidade mais ela também se adequava a me chamar de pai. Eu jamais impus a ela ou a ninguém que deveria a determinada data me chamar de tal maneira. Quando a gente está em transição, quem está ao nosso redor também está “transicionando”. E eu acredito que qualquer imposição é uma forma de violência. Assim como me impuseram certo momento que eu deveria ser e agir como uma mulher, eu não reproduzo essa coação. Ela teve o tempo dela e o mais importante na nossa relação é como nós nos relacionamos e não o nome que eu tenho pra ela me chamar. Tanto que ela me chama de pai na rua e me chama de mãe em casa. Ela entende que socialmente é mais razoável me tratar assim e que também não tem problema nenhum me chamar de mãe. Eu posso ser O mãe dela!

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“Eu sempre confiei na educação que dei para minha filha”, diz Cézar

– Você já realizou a retificação do nome civil e sexo? Caso sim, como fica a certidão de nascimento dos filhos? (mary_xu_12).

Ainda não retifiquei meus documentos. Assim que retificar eu tenho obrigatoriamente atualizar os documentos dela. E então ela terá no registro nome de dois homens e dois pais.

– Como você se sente sendo pai, homem trans dentro de uma sociedade preconceituosa como essa que vivemos?

É um desafio. Porém eu tenho muito bom humor e já possuo uma estrutura para enfrentar os desafios. Nunca vou caminhar no sentido de anular ou esconder o meu passado ou partes da minha historia. O mundo precisa saber que pessoas trans existem e eu sempre vou reforçar nesta sociedade que eu sou um homem que gestacionou, amamentou e cuida todos os dias da minha filha.

– Já ouviu alguma piada por ter gerado um filho e ser homem trans? (@mv90_) Como lida com a transfobia que você e eventualmente sua filha pode passar? Tem algum caso para falar?

Nunca ouvi nenhuma piada assim, mas também nem ligo. Grande parte das opiniões contrárias vem de pessoas totalmente ignorantes e bem distantes da minha realidade. Então nada do que elas falam é relevante pra mim. A minha filha segue e mesma linha… Ela bate com os ombros e deixa a pessoa, no caso o amiguinho da escola, falando sozinha. Uma vez um coleguinha dela perguntou: como ela conseguia viver assim. Ela respondeu: “eu vivo muito bem, meu pai me ama e me dá tudo que eu preciso pra ser feliz, muito melhor do que algumas famílias por aí, que os pais ficam brigando”.

– Qual é a coisa mais importante que você ensinou para sua filha? Você vê ela reproduzir esse ensinamento?

Respeito. E eu vejo ela atuando ativamente quando presencia alguma ação preconceituosa de amigos da escola.

– Mudou alguma coisa depois de ter sido lido como mãe e, depois, como pai? O quê?

Sim, muito! Como homem que cuida da filha, da casa, estuda e trabalha as pessoas aparece para me elogiar me chamando de “homão da porra”. É algo que eu não concordo, pois eu sempre fiz as mesmas coisas… Mas como homem eu sou elogiado, porém como mulher “não estava fazendo nada além da minha obrigação”. O que é verdade independente do gênero que eu tenho.

– Pretende ser pai novamente?

Sim, mas não desejo gestacionar. Se eu for pai novamente eu quero ser aquele pai que fala com o bebê na barriga da mãe (risos), que acorda a noite e troca as fraldas e tudo.

– O que você acha que a gente ainda precisa falar sobre homens trans que geraram seus filhos?

Falta falar que a criança não vai sofrer, quem não vai perder a mãe, que nós somos família. Existe uma ideia muito marginalizada da população LGBT em geral. Sempre fomos colocados à margem da sociedade e estamos ocupando nossos lugares novamente. Temos nossa família e vamos gerar novos núcleos familiares. Não há problema nenhum em ser quem você é. O medo que nos impõe muitas vezes é um preconceito velado,

– Você é hétero? Está solteiro?

Sou hétero, sim. Não tô solteiro, não (risos).

– Você tem noção do quão extraordinário é isso? Tu é um lutador, cara! (@joaodelsun)

Ainn… Não tenho não. Minha vida é muito normal para mim…(risos). São tantos desafios todos os dias que, para mim, é algo rotineiro. Mas no que eu puder ajudar os outros eu sempre estou disponível.

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um comentário

  1. Que linda que ficou essa matéria. É muito bom ver como as crianças são legais. Pra elas basta explicar direitinho que entendem perfeitamente qqr situação e sabem respeitar.

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