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Lucy Clark estreia como a 1ª mulher trans árbitra de futebol: “Esperei a vida inteira”

arbitra
Lucy Clark, de 46 anos, fez história ao ser a primeira mulher transexual a atuar publicamente como árbitra de futebol. Sua estreia ocorreu neste domingo (26), em uma partida do futebol feminino em Londres, e vem chamando atenção da imprensa internacional.

Em entrevista ao Sunday Mirror, ela admitiu estar nervosa com a reação das pessoas e disse: “Espero que o mundo me aceite pela pessoa que sou. Eu posso desconfiar que as pessoas ficarão um pouco chocadas, mas eu sou a mesma pessoa. Só vou parecer um pouco diferente”, diz.

Antes mesmo de dizer ao mundo que é uma mulher, ela já atuava como árbitra, tendo mais de 100 jogos dos times masculino em seu currículo. Ela afirma que levou quase 30 anos para se aceitar enquanto mulher trans e que está bastante empolgada por finalmente poder trabalhar sem levar uma vida dupla.

“Quando eu assoprar esse apito, finalmente poderei ser eu mesma. Esperei a vida inteira por isso. Vai ser bom não viver em dois mundos diferentes e ser eu. Eu quero inspirar os outros a serem quem são”, conta.

A volta aos gramados ocorre por meio do acolhimento da Federal de Futebol. “O futebol é para todos e em 2014 a FA anunciou uma política, bem como um guia de informações distribuído em todos os clubes, para incentivar as pessoas trans a participarem do futebol”, diz o comunicado.

CARTÃO VERMELHO

Lucy é casada com uma mulher cisgênera, Avril, e tem três filhos. Durante três décadas, foi lida enquanto homem cis, mas escondia um segredo. “Descobri aos sete anos. Não me sentia como os meninos da escola, queria estar na escola das meninas, como minha irmã. Eu não queria fazer o que os meninos fazem, mas me joguei no futebol porque era ‘isso que os meninos faziam’”.

A paixão que desenvolveu pelo esporte a fez resistir em muitos momentos, ainda que viver em uma identidade que não era aquela que ela de fato se identificava tenha sido bem difícil desde então.

Na adolescência, lutou para lidar com as mudanças provocadas em seu corpo pela puberdade e chegou a tentar suicídio aos 15 anos. “Em mais de uma ocasião, eu ficava no topo do prédio onde eu morava pensando em acabar com tudo isso. Tomei comprimidos, bebi álcool… Tive problemas no meu estômago. Uma porcentagem grande de pessoas trans tentam suicídio. Quando conseguem, nós não sabemos”, diz.

Após anos de casada, Lucy bebeu muito e conseguiu revelar para a esposa que era “uma mulher presa em um corpo de homem”. Ao contrário da expectativa negativa, a esposa não a discriminou, mas a apoiou. Isso já faz 18 anos. Hoje, elas compartilham maquiagem, compram roupas juntas, vão juntas fazer as unhas e cultivam uma união brilhante. “Avril também pega minhas roupas, apesar de termos estilos próprios. Ela vê algo e diz: ‘eu gosto disso’”, conta.

Ela diz que diversos amigos ainda não sabem de sua verdadeira identidade de gênero e que tem sido um processo revelar. “Um amigo árbitro apareceu para uma xícara de chá esta semana. EU tive que me trocar rapidamente e colocar uma camiseta folgada”, lamenta. Ela frisa: “Ninguém escolhe ser transgênero. Não é legal. Todo mundo deseja que você não fosse, mas sou quem sou e essa é a vida que a vida me deu ”

PRÓXIMOS PASSOS

Lucy toma hormônios há três anos, se prepara para a cirurgia genital em 2019, mas dispensa a feminilização facial. “Por sorte, eu não tenho pomo de Adão”. Para atuar em campo, ela realiza coaching de voz. “Estou pensando como posso fazer o apito falar mais. Mas esse não é o meu jogo, sou vocalista”.

Nesta nova fase, ela admite que será muito complicado lidar com a torcida. “Jogadores eu posso lidar, dando cartões amarelos ou vermelhos. Os problemas podem surgir dos torcedores. Estou me preparando para comentários depreciativos. Não quero perder o controle e nem colocar reclamações em clubes sobre o comportamento dos torcedores. Mas criei uma casca, tenho que ter”.

A árbitra já sonha com o futuro como árbitra, mas diz saber das limitações. “Eu adoraria ter chegado à Premier League, mas provavelmente sou muito velha. Levaria 10 anos para chegar lá e eu estaria com meus 50”. Ela diz, contudo, que pretende subir alguns níveis – como sempre quis. “A única coisa que está mudando, desde o anúncio da transição, é o nome que eles colocam na ficha da equipe no início da partida”.

Segundo ela, o objetivo de falar sobre sua trajetória é para inspirar outras pessoas e também ajudar na luta contra a transfobia. “A comunidade trans está melhor agora que há 30 anos e espero que melhore nos próximos 30. Quando eu falo, espero poder fazer a diferença”, finaliza.

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