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“Direitos humanos são inegociáveis”, diz Jaqueline Gomes de Jesus, candidata a deputada estadual pelo PT-RJ

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A luta por representatividade e pelos direitos humanos se faz presente nas eleições de 2018. Tanto que mais de 50 candidaturas de pessoas trans e travestis foram oficializadas neste ano e participam da disputa eleitoral – conforme divulgamos com exclusividade no NLUCOn clicando aqui.

A professora Jaqueline Gomes de Jesus é uma das candidatas a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT-RJ) do Rio de Janeiro. Trata-se de uma ativista intelectual, doutora em psicologia pela UnB, com pós-doutorado em Ciências Sociais e História pelo CPDOC/FGV, que soma aos nomes que visam “transformar a vida” da população.

Esta é a primeira vez que ela participa da disputa eleitoral. Mas não é de hoje que vem contribuindo com a política por meio do seu ativismo em prol dos direitos humanos, sobretudo da população de mulheres trans e negra. Pelas diversas ações, chegou a receber de Marielle Franco, vereadora que foi brutalmente assassinada no Rio neste ano, a medalha Chiquinha Gonzaga em 2017. E o prêmio Rio Sem Homofobia.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Jaqueline revela o que a motivou entrar na política partidária, quais são suas propostas, os desafios que enfrenta na campanha, o conservadorismo crescente, o indeferimento da candidatura de Indianare Siqueira a deputada federal pelo PSOL-RJ e o que representou a execução da companheira e vereadora Marielle Franco. Confira:

 – Nestas eleições temos uma quantidade significativa de candidaturas trans ao mesmo tempo em que vemos o número de candidatos mais conservadores disputando, inclusive sendo líderes nas pesquisas. Acredita que há alguma relação entre esses dois momentos?

Interessante essa observação. Tem relação, sim. Já era esperado ter esse discurso mais conservador estivesse nas eleições, porque é um movimento que vem crescendo em algumas décadas e que é um projeto de poder desse grupo fundamentalista político e religioso. Ele quer ocupar cada vez mais os parlamentos, as assembleias, o congresso. Inclusive o executivo, como temos exemplos da prefeitura do Rio. Já as candidaturas de pessoas trans eu vejo como positiva e de um movimento construtivo, considerando toda a lógica da legislação eleitoral e partidária. É uma lógica excludente, que demanda aprofundamento, conhecimento e questões financeiras, que batem e que prejudicam participação de quaisquer pessoas, principalmente das mais discriminadas, que são as mulheres negras e as trans. Então essas candidaturas trans é um movimento de abertura e que tem como resposta o movimento reativo e conservador. Observo muito o aspecto criativo e positivo das candidaturas trans.

– Jaque, você é professora, pesquisadora, ativista intelectual e transfeminista. Isso tudo contribuiu ou prejudicou para entrar na disputa política?

A minha formação pessoal, técnica, acadêmica e profissional serve de respaldo para as minhas ações, pelo que eu penso e faço. Eu fui gestora, sou pensadora, professora e isso tem contribuído enormemente para o meu fazer político de forma geral, independentemente de ação partidária, de política partidária. E isso contribui para o perfil diferenciado que eu trago da minha população e minha comunidade para a disputa política. O que foi responsável para me decidir candidatar foi ver o empenho dos partidos de forma geral, das pessoas engajadas dos diferentes partidos, que reconheceram o poder da minha ação política, de companheiros, de parceiros de luta, que reconhecem que o meu perfil traz um aspecto inclusivo para a campanha política. Eu represento a renovação da política, então esse é o momento para eu participar.

–  Acha que é importante ter uma deputada que é mulher transexual e negra? Por qual motivo? Como os/as eleitores/as tem recebido uma candidata que é mulher transexual?

Não temos como avaliar ainda, pois não foi feito nenhuma pesquisa sobre como as candidatas estão sendo recepcionadas. Particularmente tenho sido recebida com muita alegria, com espanto às vezes, pois não esperam uma mulher trans concorrendo, ainda mais negra. Mas tem também o ímpeto de quererem essa representatividade pelo menos nas candidaturas, porque ela traz representatividade. E eu represento uma população que está excluída até mesmo das políticas públicas, quanto mais do processo da campanha política e partidária. É uma candidatura necessária e oportuna, considerando a nossa luta pela transformação da política e pela transformação da vida das pessoas.

– Como está sendo sua campanha? Há dificuldades? Quais são? O que tem aprendido estando dentro do processo?

As principais dificuldades tem a ver com a burocracia, a legislação é muito complexa, as relações partidárias também. Existem muitos dedos, muitas questões tratadas internamente que não podem ser desvinculadas da ação política na sociedade. E no que se refere as relações da sociedade, as pessoas exigem muito o perfil determinado de candidato, que é o perfil do homem branco, cisgênero e empresário. Nós, enquanto mulheres, negras, LBTs, incluindo alguns gays que não estão nesse modelo de candidato, lutamos para mudar esse perfil. Tenho aprendido muito sobre isso e é o que posso levar para a minha comunidade como aprendizados para que nós nos fortaleçamos nas próximas candidaturas.

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– O que pretende fazer enquanto deputada estadual? Quais são suas maiores propostas e bandeiras levantadas nessas eleições?

A minha principal bandeira é o cumprimento das leis que já existem na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a intenção de garantir a manutenção a longo prazo de programas de direitos humanos, que hoje são apenas projetos de governo e não programas de Estado, como Rio Sem Homofobia, o combate à discriminação contra as pessoas, particularmente mulheres, população negra, LGBT, por meio de educação pública de qualidade, que chegue às comunidade mais carentes, que considere a rede já existente, inclusive em parceria com as instituições federais. Eu venho do Instituto Federal do Rio de Janeiro, então eu sei como é importante essa parceria em várias ordens do governo.

– E sobre saúde, segurança, economia…

Quero trabalhar por um mandato coletivo, ou melhor, uma mandata coletiva formada principalmente por um conselho de mulheres. Quero lutar por uma saúde pública e gratuita de qualidade, considerando a descentralização, a necessidade de medicamentos, inclusive para pessoas com HIV/aids, atendimento obstétrico, atendimento de saúde das mulheres, protocolo de saúde para mulheres lésbicas e bissexuais. Também quero lutar pelos direitos das pessoas em situação do sistema penitenciário para a socialização, principalmente das crianças e adolescentes do sistema socioeducativo. Quero ter foco para o desenvolvimento econômico sustentável, que reconheça a economia solidária e as potencialidades do nosso estado, principalmente para as pessoas marginalizadas, como mulheres negras e trans.

– Há quem pense que, com o Brasil em crise, é preciso primeiro arrumar a economia para depois pensar em direitos humanos. O que dizer a essas pessoas?

É a mesma questão que foi colocada e superada desde a época da ditadura. Diziam que primeiro era preciso aumentar o bolo para depois dividi-lo. Só que o bolo aumentou, ou seja, o Brasil se tornou a quinta economia do mundo naquela época, e desigualdade se mantinha ou aumentou como a gente vê agora, principalmente a população em situação de rua. Os direitos humanos são inegociáveis, temos que lutar por eles. A questão econômica anda em paralelo, por vivemos em uma sociedade capitalista. Mas os direitos humanos não podem ser subalternizados pelas questões econômicas. Se for repartir pouco, que repartamos pouco. Não precisamos que haja somente muito para que haja repartição de direitos e garantias de acessos de bens e serviços pela sociedade.

– Recentemente algumas candidatas trans assinaram um documento que apoiaram todas as candidaturas. A ativista transvestigenere e vereadora suplente Indianare Siqueira era um nome forte no Rio de Janeiro para as eleições. O que achou do PSOL ter indeferido na candidatura dela?

Dessa formação da Frente Trans Política que formulamos e organizamos no início do ano, com candidatas e candidatos de diversos partidos, acertamos que nossa candidata a deputada federal seria a Indianare Siqueira. O posicionamento do PSOL, no caso da Comissão de Ética, infelizmente no que tange a disputa política, prejudicou o nosso planejamento a nossa representatividade. Poderia ser feito antes, para que Indianare se colocasse em outra disputa partidária, se fosse o caso. Sentimos falta da nossa companheira que fortaleceria enormemente a nossa luta, mas ela segue. Segue como parceira, pedra fundamental e que não vai deixar de fazer campanha. Indianare é das ruas, é de todos os espaços em que haja discussão democrática. Ela fortalece todas as candidaturas trans, independentemente de partidos, e está junto com todas as pessoas transvestigeneres para fazer revolução. Eleição sem Indianare é golpe e nós contamos com o engajamento de todas, todos e todes para que as candidaturas trans seja preservadas e seguirmos em frente, contribuindo para uma sociedade mais democrática de fato.

– Você disputa as eleições no Rio de Janeiro que assassinou Marielle Franco. Isso te dá medo? O que esta morte representa?

A execução da minha companheira Marielle foi um choque, um trauma e é difícil explicar. Foi um dos piores dias da minha vida. No dia eu tive a “sorte” de estar acompanhada quando soube da notícia, pois não sei como estaria o meu estado de saúde naquele momento se eu estivesse sozinha. No começo eu tinha medo. Hoje eu tenho muita força para seguir em frente e tenho que aprender mais conscientemente sobre questões de segurança. Já tive consultoria com um coletivo feminista sobre segurança, orientações. Mas é muito difícil porque nós não somos especializadas nessa área, principalmente eu que faço parte de uma população historicamente discriminada, população alvo de feminicídio, que juntam todas as marcas do feminicídio, por ser mulher, por ser negra, por ser trans. A execução de Marielle representa um legado de luta, que nós temos que seguir em frente, apesar dos pesares, e tomar cuidado para preservar a nossa vida e das companheiras todas.

– Muito se fala que os partidos utilizam de pessoas LGBT como candidatas apenas para somar votos na legenda, mas que não oferecem chances reais desses candidatos e candidatas vencerem. O que pensa sobre isso? Seu objetivo é realmente vencer as eleições?

Com certeza, meu amor. O objetivo é vencer, porque a campanha didática e educativa já é uma vitória em si, mas temos que focar na vitória das eleições em nome de todas as pessoas que compreendem a democracia como algo que inclui a diversidade e em nome de todas as pessoas que deram a vida para que eu chegasse nesse momento, da minha família, da minha comunidade, da população negra, das mulheres que lutaram para eu estar aqui, das pessoas LGBT que lutaram para eu estar aqui, das que sucumbiram e das sobreviveram, mas que não conseguiram chegar onde cheguei. Então a minha luta não é isolada, é luta coletiva e histórica. Mesmo que não alcance vitória como resultado uma urna quantitativa, ela vai repercutir como grande conquista. Farei o máximo para que esse reconhecimento partidário e da comunidade mostre que minha candidatura é competitiva. Farei tudo o que puder dentro da ética e da política limpa e da valorização da diversidade para que nós vençamos essas eleições.

– Quem quiser acompanhar a sua campanha, como faz?

Pode me seguir na fanpage Jaqueline Gomes de Jesus, o grupo  Professora Jaqueline Gomes de Jesus. Tem o meu Instagram. Tem também o financiamento coletivo, Doação Legal. E quem quiser mandar e-mail, é só mandar tocomjaque@gmail.com.

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