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Travesti, negra e cearense, Dediane Souza comemora formação em jornalismo: “Coroação”

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“Enfim jornalista”, foram com essas palavras que Dediane Souza, de 30 anos, soltou ao comemorar na quinta-feira (30) a formatura do curso de Comunicação Social: Jornalismo, da Faculdade Cearense (Centro de Ensino Superior do Ceará). Segundo ela, é a coroação de uma travesti, negra e cearense.

“O momento foi de coroação, não só da minha luta, mas de todas as travestis e transexuais que não tiveram a mesma oportunidade que eu. Foi a coroação de toda essa resistência”, declarou com exclusividade ao NLUCON.

Durante a formatura, Dediane contou com o apoio e a torcida dos colegas – que sabiam da importância de uma travesti ocupar aquele espaço – e teve, entre as suas convidadas, diversas amigas travestis e apoiadoras. “Quero que mais gente se inspire. A universidade não é um espaço dado para a gente, é um espaço que viola direitos, mas que temos que ocupar e construir enquanto estratégia de sobrevivência”.

Além da militância trans, a jornalista afirma que o curso superior também é muito significativo dentro de sua realidade familiar. Ela é a primeira de todos os irmãos que conseguiu completar uma faculdade. “Sendo uma travesti, preta e nordestina, acreditei que a única forma de mudar a minha história seria por meio da educação. Foi o ativismo que me inquietou para isso, então é muito gratificante ter saído desse lugar que me foi imposto”, disse.

NA UNIVERSIDADE

A entrada na faculdade ocorreu em 2012 e ela permaneceu até 2014, quando teve que trancar o curso para trabalhar no Centro de Combate a Homofobia (hoje conhecido como Centro de Cidadania LGBT Arouche), em São Paulo. Retornou em 2016, quando voltou ao Ceará e decidiu dar continuidade à formação.

A jornalista afirma que já se inseriu na faculdade enquanto travesti, ativista e empoderada e que, por conta disso, teve a consciência de reivindicar o uso do banheiro e o nome social para que outras estudantes trans conseguissem futuramente.

Enfrentou diversos desafios, que vão desde o pagamento das mensalidades – “não participei de nenhum programa social, foi tudo pelo suor do meu trabalho, de contar moedas e de pessoas que fui encontrando no processo, que me ajudaram, por exemplo, com um freela – até a luta pioneira pelos direitos da população trans naquele espaço, que ainda tinha diversas marcações transfóbicas, como o desrespeito ao nome social.

Apesar dos estranhamentos, ela conta que também recebeu o apoio de muitas pessoas aliadas, que a incentivaram a concluir os estudos. “Dentro da minha trajetória conquistei muitas amizades, desde o corpo gestor, professores, que sempre disseram para eu não desistir, até colegas, que me apoiaram muito, desde me apoiar nos trabalhos até de socializar nos intervalos e fora do espaço da universidade”, afirma.

Segundo Dediane, o jornalismo é uma importante ferramenta para o ativismo que realiza e também para dar voz a grupos e pessoas invisibilizadas. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi um video documentário sobre mulheres cis pescadoras. “É um grupo que ninguém fala, mas que tem importância na economia do Estado”, conta.

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Dediane Souza

MERCADO DE TRABALHO

Com o diploma nas mãos, Dediane afirma que inicia outro desafio: o de ser inserida no mercado formal de trabalho em sua área. Ela conta que quase desistiu do curso por considerar as opções muito comerciais, mas que continuou visando outras estratégias para poder exercer a profissão.

“Não é porque sou jornalista que serei bem vista, pois fujo dos estereótipos. Você (referindo-se ao jornalista Neto Lucon) sabe muito bem como é tratar dentro da comunicação essa população, em como somos vistos como pautas marginais e de menor importância”, afirma.

Hoje Dediane trabalha como Coordenadora Executiva da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, no Ceará. “De alguma forma, dentro da minha função acabo exercendo papeis dentro da comunicação”, diz.

Ela declara que não se imagina trabalhando dentro de uma redação ou no jornalismo impresso, mas que tem interesse em TV e rádio no campo da produção. “Também estou pensando em uma comunicação alternativa, que respeita as travestis e transexuais e que constrói outro modelo de comunicação”, diz.

TRAVESTI SE FORMANDO É NOTÍCIA?

Com muitos relatos rotineiros de expulsão de casa, abandono escolar, violência transfóbica, mercado formal de trabalho fechado, prostituição por imposição e não escolha, a possibilidade de cursar uma faculdade ainda parece utopia para muitas pessoas da comunidade trans. Ao entrar no espaço, muitas violências ainda ocorrem e fazem outras tantas desistirem.

Segundo Dediane, só haverá mudança no espaço acadêmico sobre as pessoas trans quando grande parte começar a ocupar e deixar de ser vista como exceção. “O nosso corpo é estranhado, mas para que haja a naturalização vai ser necessário que a gente ocupe. E ocupe com esse espaço com esse corpo considerado clandestino e que vai, sim, sofrer penalidades”.

Ela diz que é preciso resistência para denunciar as violações e transformar os desafios em estimulo, mantendo a consciência no coletivo. “Essas violações devem ser transformadas em nossas fortalezas, para que a gente possa se alimentar dessas violações, sempre denunciando, ocupando e transformando para dar oportunidade para que outras pessoas como nós possam ocupar e escrever a história delas”, afirma.

Enquanto jornalista, Dediane diz que ainda é importante noticiar quando uma travesti tem uma conquista dentro da universidade, mas que luta todos os dias para que não seja mais necessário. “Às vezes é desconfortável ser apresentada como a primeira, sabendo que o direito não é igual para todas. Mas ainda se faz necessário ter essa divulgação para que outras tenham referência. Hoje, dentro da minha universidade, há várias pessoas trans ocupando esse espaço”, comemora.

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um comentário

  1. Fui professora da Dediane em algumas disciplinas e, apesar das faltas pela correria do seu trabalho, ela não passava anônima nas discussões feitas em sala e nas produções realizadas. Fico feliz com sua formatura, porque sei que as barreiras sociais criam uma sociedade desumana… Mas também, porque está cada vez mais urgente e necessário ampliar a criticidade no meio Jornalístico.

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