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Vítima de transfobia, professora Nathalha Silva troca indenização de R$ 20 mil para dar aula a agressores

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Natalha em imagem da BBC News, do fotógrafo Leopoldo Silva

A professora Natalha Claudinei Silva Nascimento tornou-se notícia na última sexta-feira (31) ao dar aula sobre respeito a população trans, gênero, direito e violência, dentro do Fórum de Justiça de Brasília. Os alunos: 40 funcionários de uma pastelaria acusada de tê-la discriminado e a agredido por transfobia.

Diariamente ela sofria xingamentos dos funcionários da pastelaria Viçosa, localizada na rodoviária de Brasília, quando passava em frente para pegar ônibus para sua casa. No dia 26 de abril de 2017, diante das ofensas, ela se aproximou para pedir para que eles parassem, mas um se aproximou, a derrubou e a agrediu com violência.

“Fiquei sem reação. Humilhada, só me perguntava por que aquilo acontecera comigo. Estudei, trabalhei, tentei ser o melhor que pude, mas o fato de ser uma mulher transexual me fez construir toda a minha vida em cima do medo, desde criança”, afirma à BBC News.

Natalha recorreu à Justiça e pediu R$ 20 mil de indenização por danos morais. Mas na conciliação judicial, decidiu trocar a quantia em troca da oportunidade de dar uma aula sobre questões de gênero à equipe da pastelaria. “Foi a ignorância que me fez sofrer por todos esses anos e quero acabar com ela com educação”, explica sobre a decisão.

Segundo a professora, não há dinheiro no mundo que pague a sua dignidade e respeito e que a sua maior vontade é que a transfobia deixe de existir. “Moro na favela mais perigosa do Distrito Federal e quero transitar livremente sem ter medo de morrer ou ser assassinada por ser quem sou. Para mim, o único jeito de viver isso é pela educação, que pode transformar uma sociedade violenta, preconceituosa e corrupta”, diz.

Para a juíza Marília de Avila e Silva Sampaio, do 6º Juizado Especial Cível de Brasília, a proposta de aula ao invés da reparação financeira foi inédita em 22 anos de magistratura. “Natalha foi muito firme e corajosa. Foi positivo ver pessoas aprendendo sobre discriminação de gênero exatamente de quem sofre a violência. Precisamos mudar, e são pequenos passos como os de Natlha que farão a mudança gigante de que este país precisa”, afirmou.

O funcionário responsável pela agressão física foi demitido. E a proprietária da pastelaria, Patrícia Rosa, reconhece que falhou por não ter orientado seus funcionários sobre o respeito à população trans. Ela frisa que a aula de Natalha foi muito importante para que novos episódios não aconteçam.

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Durante a aula de Nathalia aos funcionários. Foto: Tribunal de Justiça do Distrito Federal/Divulgação

EXEMPLO

Natural de Açailândia, município do Maranhão, Natalha conta que desde sempre soube das violências que a população trans sofria e que sentia medo de morrer. Tanto que só foi revelar ao mundo a mulher que é quando se mudou para Brasília, aos 22 anos.

“Eu tinha uns 10 anos, estava na escola, quando ouvi que haviam matado um gay. Curiosos, fomos todos ver quem era. Não era apenas um gay. Era uma travesti, vestida com roupas femininas e com o órgão genital mutilado e enterrado na própria boca. Ali, ainda criança, senti o peso do tamanho da punição a quem ousasse sair da regra e aprendi a conviver com o medo de mim mesma e do que poderia me acontecer por ser quem eu era”, diz.

A professora relata que já chegou a passar por inúmeras situações de preconceito – tanto dentro do seio familiar quanto de colegas de trabalho e da igreja. Mas afirma que o episódio da pastelaria a fez pela primeira vez saber o que são direitos humanos. “Não sabia o que era um fórum, uma audiência, uma reunião de conciliação, não fazia ideia de que poderia lutar pela minha dignidade humana sem estar sozinha”.

Durante a aula, a professora se surpreendeu com a receptividade. Ela esperava cara fechada e rejeição, mas todos chegaram sorrindo e dando boa tarde. “Achei estranho, esperava bate-boca, mas encontrei atenção. Até brinquei com eles que, quem aprendesse a lição de que ‘respeito não tem preço’ já estaria aprovado. Eles riram bastante”, conta.

Ela abordou os temas:

  • aspectos biológicos e comportamentais dos transgêneros;
  • modelos sociais;
  • atendimento ao público;
  • direitos;
  • violência aos desiguais;
  • e a importância das denúncias contra atos discriminatórios.

Diante da experiência positiva – e de finalmente não ter que escutar agressões na volta para a casa, trazendo uma transformação positiva naquele local – a professora afirma: “Foi a melhor indenização que eu poderia ganhar na vida”.

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