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Aos 51, Marcinha do Corinto revela como sobreviveu às transfobias e se tornou um ícone mundial

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Quando se fala sobre performances de travestis e mulheres transexuais, a paulistana Marcinha do Corinto é ícone absoluto no Brasil e no mundo. Com muito charme, beleza e talento, a pequena notável passou por inúmeros palcos, encantou plateias, venceu concursos de miss e deixou seu nome registrado na história.

Aliás, o sobrenome artístico – Corinto – refere-se ao extinto mega-clube paulistano dos anos 80 que valorizava os tempos de ouro dos shows de travestis. Ela era a estrela maior  da casa, encerrava as noites e logo passou a ser referida como “Marcinha do Corinto”, título que carrega com orgulho até hoje.

Quem assiste as performances da estrela, logo percebe que se trata de uma artista única, que renova suas apresentações com o passar do tempo, mas sem perder o charmoso espírito vedete.  O corpo esculpido, a sensualidade da dança, o olhar hipnotizante, os movimentos das mãos, a escolha da música e do figurino são alguns dos elementos de sua performance mágica.

Na vida pessoal, Marcinha carrega histórias que personificam vidas brasileiras: é bisneta de uma índia que foi laçada pelo avô para se casar. Também carrega o sangue negro do pai e o amor incondicional da avó materna, Yrene, que a criou quando a mãe morreu aos 9 anos. Já enfrentou momentos de transfobia e agressões. Mas resistiu bravamente.

Nessa segunda-feira (03), Marcinha completou 51 anos e topou pela primeira vez conversar sobre o NLUCON sobre diversos assuntos que marcaram sua trajetória pessoal e profissional. Quem é fã dela nos palcos, certamente vai admirá-la ainda mais pelo ser humano maravilhoso e inspirador que ela é. Confira:

– Marcinha, como é completar 51 anos?

Me sinto uma sobrevivente, pois sobrevivi a várias coisas da vida, sejam elas boas ou ruins, em momentos de alegria e tristeza, de lutas e perdas. Eu não gosto muito dessa minha data de aniversário, porque me faz lembrar da minha finada avó, Yrene, que é a pessoa mais importante da minha vida. A minha mãe morreu quando eu tinha 9 anos e quem me criou foi ela, que é a mãe da minha mãe. Tanto eu quanto as minhas irmãs.  Então passo essa data em casa mais quietinha com os meus cachorros (a Maya, uma rusky, a Bambi e o Guapo, dois shih-tzu).

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Marcinha aos 16 anos e a avó Yrene.

– Sendo um ícone de beleza, continua vaidosa?

Nunca perdemos a vaidade. Quem é vaidosa será sempre vaidosa. Tomo meus hormônios, me alimento muito bem, me cuido… Uma travesti ou transexual sem vaidade perde a beleza muito rápido. E eu continuo recebendo bons elogios. Isso tudo é fruto da vaidade, que me faz me cuidar muito.

– Você é considerada a travesti que mais ganhou concursos de miss. Sabe quantos títulos de miss conquistou?

Foram tantos que perdi a conta (risos). Imagine, eu sou travesti desde os meus 14 anos.

– Como foi essa sua vivência trans?

Quando eu era criança, as vizinhas da minha avó iam em casa e diziam: “Que linda ela é”. E minha vó respondia: “Ela não é menina, é menino”. Mas todo mundo me confundia com menina. Eu gostava de brincar de boneca e com tudo o que era feminino. A minha vó não via maldade alguma e achava bonitinho. Aquilo já era a minha feminilidade vindo à tona.

– Foi tranquilo ser uma travesti na família?

A minha vó demorou muito a me aceitar, chegou a me levar psicólogo, médico. Mas na última consulta, depois de umas quatro, ele falou: “Não tem jeito, o seu filho nasceu assim, não é safadeza, é a cabeça dele”. Então ela chegou em casa e me disse: “Já que não tem como mudar, você vai fazer um curso de cabeleireira, maquiagem, vai se formar, ter um emprego para lá na frente não sofrer”. E durante muitos anos, antes de viajar para a Europa, eu trabalhei nos melhores salões de São Paulo. Em outros momentos, eu fazia a experiência de três meses, era aprovada, mas quando eles viam a minha documentação me dispensavam.

– Quando foi que você se reconheceu enquanto travesti?

Conheci uma amiga, chamada Patrícia Costa, no ponto de ônibus na Vila Maria. Eu frequentava a matinê e todo mundo pensava que eu era mulher (cis). Ela perguntou o meu nome, eu falei o meu nome de menino e ela ficou apavorada. E quando ela falou o nome dela, eu também fiquei apavorada, pois apesar da aparência feminina ela tinha voz de homem. Comecei a trabalhar em salão de beleza com ela, aprendi a tomar hormônio com ela. Eu cheguei a colocar silicone quando era menor de idade, escondida da minha avó, junto com ela.

– E você se identifica enquanto travesti?

Me identifico, sim. Nos anos 80 os nomes que davam eram esses: os transformistas, as travestis e as operadas. Eu me defino como travesti, porque nasci menino, tomo hormônios, tenho cabelo e corpo de mulher e o sexo masculino. É hoje em dia que temos esses outros nomes e rótulos, como mulher trans, transgênero… Eu respeito, mas sou travesti.

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– Chegou a sofrer transfobia?

Eu sofri muito. Quando comecei a me hormonizar, eu ainda estudava e apanhava muito. Chegou uma época em que a minha vó ia me buscar no colégio para eu não apanhar. Quando morei no Jardim Brasil, cheguei a apanhar tanto que minha vó alugou um apartamento longe dali para eu não sofrer. Antigamente era pior. Quanto mais feminina, mais você apanhava, pois os meninos não se conformavam. Acho que continuei (sendo travesti) porque era o meu querer. “Eu vou ser assim e vou insistir”, pensava. Mas eu tenho amigas que desistiram no meio do caminho, que não aguentaram a pressão e foram ser homens. E outras que foram levadas pela violência. Eu sobrevivi a tudo isso.

– Hoje você é a referência de muita gente, mas quem foi a sua referência?

A minha inspiração foi Tuca Rubirosa. Ela era a referência, aparecia em programas de TV e teve um auge nos anos 80 a 82. Veio antes da Roberta Close e, desde então, passou a morar em Genebra, na Suíça, e não voltou mais ao Brasil.

– Você já se entendia artista ou foi algo que foi ocorrendo com o passar dos anos?

A minha finada avó sempre ia em um brechó em uma feira. E me deu de presente os LPs da Dalidá (cantora egípcio-francesa que foi a primeira a receber um Disco de Diamante. Ela cometeu suicídio em 1987, aos 54 anos). Fiquei ouvindo, ouvindo e decorei todas as músicas, como Salamá, Bambino, e comecei a fazer todas as músicas. Foi coisa do destino, mas o talento já estava ali.

– Quando foi que você começou a fazer shows?

Com 16 anos, fui para a Nostro Mondo, comecei a fazer as matinês e depois ganhei um concurso de dublagem no Bolinha. Daí fiz um teste na Corinto.

– Como era o teste para trabalhar como artista naquele período?

A dona Elisa Mascaro colocava um anúncio para bailarino e transexual. O teste era feito na quarta-feira. Tínhamos que fazer o teste maquiadas e vestidas. O meu número foi da Eliana Pittman e a Elisa pediu para parar no meio do teste. Achei até que ela não tinha gostado, mas ela disse que eu já me apresentaria naquele dia.

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– Corinto era o nome deste espaço e passou a ser o seu sobrenome artístico. Por que marcou tanto?

A dona Elisa me tinha como estrela maior. Eu era a estrela que ela mais gostava. As melhores roupas eram as minhas, os melhores números, quem fechava todos os espetáculos era eu. Eu fiquei muitos anos então as pessoas começaram a falar sobre mim como a “Marcinha do Corinto” e pegou. Não fui eu, foram as pessoas que me deram essa marca registrada. Para mim é uma honra por tudo o que eu passei e brilhei. Foi a história que eu escrevi e que estava escrita nas estrelas. Se um dia eu partir, todo mundo vai se lembrar de mim como a Marcinha do Corinto.

– Quais são as suas performances mais marcantes e os momentos de glória? Lembro do número em que você aparece como Iemanjá performando a música “Lenda das Sereia”. Outra em que aparece com uma peruca rosa e traz uma versão dançante de La Vie em Rose. Também lembro de uma performance com a Layla Ken na música Zombie, em que vocês se beijam no palco da Blue Space…

Essa com a Layla foi um número incrível, mesmo. O que as pessoas mais gostam é de Jurema (música de Rita Ribeiro) e a Pomba Gira, que eu cheguei a fazer em Paris. Em todas as minhas viagens, sempre pedem para eu fazer a Pomba Gira. Hoje, vejo que os meus momentos de glória foram os palcos que conheci pelo mundo afora, os videoclipes que participei de cantores… Também saí na revista Caras como rainha de carnaval. Enfim, são momentos que eternizaram a minha história.

– Como foi participar de programas de televisão nos anos 80, 90, 2000, sendo que a população trans não tinha essa visibilidade?

Foi uma quebra de tabu, porque o preconceito, a homofobia era muito maior. O Silvio Santos ajudou muito a levantar a nossa bandeira e naquela época foi muito bom para a gente. Acho que ajudou a abrir um pouco a cabeça do brasileiro e nos colocava para sermos elogiadas pela beleza e pelo talento. Porque na Europa já era tradição ter travestis em programa de televisão, em cabarés. Mas aqui era muito mais difícil. Tanto que quando a Roberta Close era jurada do Chacrinha, passando as quatro horas da tarde, chegavam cartas e mais cartas de pessoas dizendo que ela faria as crianças virarem a cabeça. Bobagem…

– Você não se incomodava quando Silvio perguntava o nome de registro?

Jamais, porque naquela época era a maneira de dizer que a gente era travesti e as pessoas entenderem. Lembrando que a desinformação era muito grande e o preconceito também. Quando as pessoas se deparavam com o nome masculino e viam a mulher que você é, elas sabiam que você atingiu a perfeição. Elogiavam a pele, o cabelo, a feminilidade…  Na Alemanha e na França, isso também acontecia, pois eles não acreditam que a gente era travesti. Mas ao invés de o nome masculino ser dito ao público, eles pedem para que no fim da apresentação a gente tire a calcinha.

-Ficar nua no palco?

Sim, para eles saberem que nós somos travestis mesmo, e não mulheres (cis). Temos que mostrar o genital no palco, faz parte do show. Na Europa, há muitas drags, mas quem reina são as travestis e transexuais, tanto que há vários cabarés voltados para nós.

– Como foi para as artistas travestis a chegada da Roberta Close na mídia?

Ela foi divina para a nossa vida, levantou a bandeira, abriu a cabeça brasileira. Ela é conhecida mundialmente, desfilou para Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier, fez comerciais, saiu na Playboy francesa, na brasileira. Ela é o nosso fenômeno e é única. Ainda hoje sempre falo com ela. Tenho fotos no verão da Itália. Ela é bárbara!

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– Você  chegou a trabalhar e morar para fora do Brasil, né? O que poderia falar sobre a ida para a Europa?

Eu fui com 16 anos para a Espanha. E a primeira vez, eu fui para me prostituir. Fui presa no dia do meu aniversário. Fiquei 40 dias no calabouço e fui expulsa de lá de volta para o Brasil. Logo em seguida eu comecei a trabalhar no Corinto. Em 1988, a minha amiga Patrícia Costa foi para a Itália e falou: “a história é diferente, é mais fácil, os homens te dão joias” e eu perdi o medo e fui. Mas eu já tinha uma estrada de shows, trabalhei com shows e em sites. Passei minha juventude inteira fora do Brasil e já faz uns seis anos que não volto para lá.

– Como foi sua vida na Europa?

A vida lá é maravilhosa, você tem respeito e não passa necessidade. Com 100 euros você enche um carrinho de supermercado, compra um perfume, é o paraíso. É por isso que tem muitas meninas que vão e não voltam mais.

– Por qual motivo você quis voltar?

(suspira) Eu voltei porque achei que já tive a experiência e ela não me preenchia mais. Apesar de tudo, preferi viver no meu Brasil, com minha humildade e com o calor humano que o brasileiro tem. O modo que o brasileiro vive é muito bom, ele é muito bom, ele gosta de ajudar as pessoas.

– Certa vez, li em uma entrevista que você não se incomodava em namorar gays. Continua assim?

Eu não gosto de homens (heterossexuais). Já tive gogoboy, já tive experiências que não gostei. E com os gays, é diferente. Ele é mais amoroso, ele te entende mais, é mais companheiro. Eu tenho uma pessoa que estou há dois anos, o Hércules, ele é tudo na minha vida, ele é companheiro e ele é gay.

– Mas gay não é aquele que gosta de homem outro? Você não é um homem…

É mentira quando dizem que gays não ficam com travestis. Eles ficam, sim. Eu já tive vários namorados gays, o Dalton, o Rafael de Niterói. Tem gay que gosta de machudo, tem gay que também encara mulher e travesti, tem gays que não gostam de travesti. Tem muitos gays e gays nesse mundo.

– Chegou a se casar?

Várias vezes. Tive relacionamentos que duraram anos e anos. Não gosto de ficar falando, pois tudo que a gente comenta, as pessoas colocam o olho. Elas são maldosas, torcem o contrário.

– Algum arrependimento ao longo dos 51 anos?

Arrependimento todos nós temos. Você pode ter deixado de fazer alguma coisa para você e depois se arrepender. Você pode ter tratado uma pessoa mal e depois se arrepender. Eu queria voltar atrás para fazer tudo diferente. Os anos passam, você adquire juízo, aí se pergunta: por que eu não fiz diferente?

– Você está me dizendo que não teve muito juízo?

Eu nunca me droguei, não fumei… Mas gastei muito, conheci os melhores hotéis, os melhores casacos de pele, as melhores joias, eu luxei muito. Se fosse para voltar, teria mais juízo nesse sentido.

– Hoje você continua trabalhando e…

Sim, eu trabalho.

– O que o palco representa para você hoje?

Eu gosto muito do palco, ele me preenche, me engrandece, me faz sonhar. Me faz esquecer de tudo de ruim. Eu gosto de fazer performances únicas. Pesquiso muita música, gosto de estar sempre inovando e de fazer diferente. Não gosto de entrar e ficar na mesmice. O meu estilo continua sendo a vedete e procuro dar e fazer o melhor possível para que as pessoas achem um número bonito.

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Marcinha do Corinto

– Como recebe e é recebida pelas novas gerações de travestis e mulheres trans?

Eu respeito todas, todas, todas. Mas essa geração nova, bem nova, elas não respeitam a gente não. Elas se acham as melhores, que são as pioneiras, mas esquece que quem abriu as portas para todas elas foram as travestis antigas, as vedetes do Rival. Foi o que a Io-Iô (Vieira de Carvalho) postou: antes de vocês disseram que são a primeiras rainhas de bateria trans, não esqueçam que já existiu Vera Verão e Eloína dos Leopardos. A Eloína foi rainha na Beija-Flor. Mas eles esquecem ou talvez nem saibam e dizem que são as primeiras. Mas há um apagamento da história e uma desvalorização de quem lutou tanto para isso acontecer hoje.

– Como você avalia a militância trans ao longo dos anos?

Eu acho maravilhoso, pois hoje há projetos em que as meninas estudam e ainda ganham dinheiro. Hoje em dia já se pode trocar o nome. Hoje em dia é muito mais fácil. Eu ainda não troquei o nome, pois não me importo com isso. Talvez um dia eu faça, não sei…  É por isso que eu digo para essa nova geração aproveitar todas as oportunidades positivas que estão aí, que estudem e que procurem o que tem de melhor. Que elas consigam melhorar a vida delas o mais rápido possível para não sofrerem.

– Basicamente o conselho que sua avó deu… Qual é o seu maior sonho hoje em dia?

O meu maior sonho é o único sonho que a gente tem: ser feliz ao extremo. Mas é tão difícil. A gente tem momentos felizes, mas a felicidade não é eterna e não é diária. Eu gostaria de continuar sendo feliz.

– Que haja, então, muitos momentos felizes…

Veja alguns desses momentos: 

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3 comentários

  1. Grande honra ter uma entrevista desse peso dividido com o público,Marcinha Corinto é um ícone,única,sensaciomal….um mito vivo !!!!! Je t’aime pour toujours,bisous 💖

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