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“Papel da família é importante para que LGBTs consigam enfrentar preconceito da sociedade”, diz Gabriel Santos

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Foto de Gabriel Santos com família viralizou nas redes sociais e evidenciou importância do acolhimento familiar

Gabriel Santos e sua família ganharam a atenção nesta semana ao publicarem uma foto que reproduzia outra de 18 anos atrás. Na primeira, é possível ver a mãe e três garotas na praia de Guriri, Espirito Santo. Na segunda, tirada recentemente na mesma praia e com as mesmas pessoas, a mãe volta a aparecer, duas irmãs e um rapaz.

O fato do homem aparentemente não aparecer na primeira foto ou da menina não aparecer na segunda levantou diversos questionamentos. Mas é simples. O rapaz é Gabriel. Massoterapeuta, filho, gato e… Homem trans. Isto é, acreditavam que ele era uma menina ao nascer, mas com o tempo ele demonstrou se identificar com o gênero masculino, revelou ser homem, vivencia essa identidade, realizou alguns procedimentos e foi reconhecido pela Justiça.

Para além da visibilidade às pessoas trans, as fotos e a viralização ajudaram a divulgar outras mensagens positivas. Como o NLUCON adiantou – leia aqui – ela também evidenciou o acolhimento familiar e o respeito que tiveram com as questões individuais de Gabriel e também as transformações que todas as pessoas passam, independentemente de ser cis ou trans, no decorrer da vida. Menos a mãe de Gabriel, que continua igualzinha, não é?

O NLUCON conversou com exclusividade com Gabriel, que topou falar sobre tudo o que aconteceu em 18 anos em sua vida, os desafios para se entender homem trans, os procedimentos que passou (inclusive na Venezuela) e também as reflexões que tem em ser homem. Um bate-papo mais que necessário!

– Você compartilhou duas fotos que viralizaram nas redes sociais e que mostra, além de dois momentos em família, a sua transição de gênero. Qual foi o retorno que você recebeu desta exposição?

Teve muita gente que entendeu, teve muita gente que não entendeu, muita gente perguntando “cadê a menina na segunda foto?”, outras questionaram “o que o cara barbado tá fazendo ali?” (risos). Foram comentários positivos, negativos, de transfobia e de respeito. O legal foi que a gente conseguiu falar de várias questões ao fazer essa brincadeira e eu consegui mostrar a minha realização enquanto Gabriel.

– Quem teve a ideia de tirar a foto?

A ideia foi da minha irmã, Letícia (a primeira que aparece, segurando a mão da mãe). Nessa nossa volta a Guriri, ela disse: “Vamos reproduzir”, já que tínhamos visto várias fotos de famílias reproduzindo momentos antigos, na internet. Eu acabei publicando primeiro, pois peguei o sinal da pousada e viralizou. Mas ninguém imaginou que daria essa repercussão toda.

– O que você lembra da primeira foto, desse momento de quando era criança?

Não lembro da foto em si, mas lembro da viagem e de ter ficado encantado com o mar. Eu cheguei a ter insolação (risos). Tinha 8 anos e lembro que era uma criança bem quieta, introspectiva. Eu tinha mais duas irmãs – posteriormente minha mãe teve outra filha, a Maria Clara, que está com 15 – e eu não encaixava naquela realidade e naquele universo feminino das minhas irmãs. Tive muitos conflitos no decorrer da minha vida até chegar aos 21 anos.

– Você identificava com o gênero masculino nessa fase?

Não tinha muita noção disso, mas já gostava das brincadeiras que as pessoas falavam que era de menino, eu não gostava de bonecas, não gostava dos vestidos que a minha mãe vestia na gente. Eu pedia tênis, calça e camiseta. A minha vó chegou a me dar uma camisa e uma calça masculina, que nessa época da viagem virou um uniforme. A maioria dos (homens) trans tem esse conflito na infância. É inconsciente para a gente, pois a gente tinha todos esses gostos e não entendia, mas hoje eu entendo e vejo que há essa identificação desde sempre.

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Gabriel Santos: “Hoje vejo que sempre tive identificação com o gênero masculino”

– Como a adolescência para você, uma vez que ainda não havia se entendido homem trans?

Tem gente que fala: “ai, que saudade dessa fase”, mas eu não tenho saudade nenhuma. Foi muito conflituosa a minha adolescência. Eu tive uma depressão muito profunda nessa época, tive distúrbio alimentar por conta da ansiedade… Eu não gostava do mundo feminino, não me vestia da maneira como as meninas da idade se vestiam e até mesmo em relação à sexualidade – pois eu sentia atração por mulheres – existia um conflito por não entender o que acontecia comigo. Com 11 e 12 anos, eu gostava de futebol e jogava com os meninos da rua, mas quando o corpo foi desenvolvendo, as brincadeiras começaram a mudar e olhar deles para mim começou a mudar também. Eu me sentia incomodado, pois estava saindo da fase de só brincar para entrar em questões que eu não entendia e nem me sentia à vontade.

– Chegou a namorar alguém na adolescência?

Com 13 e 14 anos eu tive o meu primeiro namorado. A gente era amigo no início e depois pulou para o namoro. Eu gostava da pessoa em si, mas estava faltando alguma coisa. Terminou porque ele estava tentando me colocar em um papel de submissão, que a gente vê em relacionamentos héteros, e eu não conseguia engolir. Ele queria me colocar em certos padrões e aquilo não me descia.

– Demorou para se reconhecer homem trans? Como foi esse processo?

Demorou bastante. A parte da minha adolescência, eu passei estudando. Era uma forma de fugir disso tudo. Eu sempre foquei de estudar, estudar e ficava distante dessas questões. Até porque naquela época o acesso à informação e até à internet era bem diferente do que temos hoje. Aos 18 eu fiquei com uma menina e, aos 21, a gente se encontrou. Ela comentou comigo que havia assistido uma reportagem de um cara na Marília Gabriela (a entrevista com João Nery, autor do livro Viagem Solitária e pioneiro na militância dos homens trans) e disse: “A história dele me lembra muito a sua. Já parou para pensar que você pode ser transexual?”. Eu fiquei com aquilo na cabeça. Fui pesquisando, pesquisando e deu aquele clarão. Foi com 21 anos.

– Perceber que é um homem trans aliviou ou assustou, mediante a tudo que estava por vir?

Aliviou, pois mesmo tendo tratado a questão da depressão, eu tinha muitos resquícios ainda. Eu sentia um vazio dentro de mim. Depois que eu entendi isso, foi como se tivesse montado um quebra-cabeça, entendendo tudo o que acontecia comigo desde criança, na adolescência… Foi maravilhoso! Até então eu já tinha sido diagnosticado como louco por um médico, que disse que eu não teria jeito e que precisaria passar internado. Eu comecei a viver depois disso. A minha vida começou a partir dali.

– Quando soube, chegou a compartilhar com a família?

Mais ou menos… Eu estava tentando me explicar isso primeiro. Passei por essa fase de absorver a informação e incorporar isso para a minha vida. Passei pela fase de readequação. Ela ficou sabendo, mas para ser sincero só começaram a entender depois uns três anos. Todos me respeitam, mas às vezes dão uma esbarrada, pois ainda há muita confusão entre identidade de gênero e sexualidade. Eu tenho que falar que não é para chamar pelo nome anterior, que eu não sou lésbica. Eu falo que nem legalmente eu tenho mais aquele nome, pois já retifiquei. Mas eu respeito o tempo deles também. Dentro da minha família eu tenho muita paciência.

– Pela foto pareceu que vocês são bem unidos…

Isso com certeza… Tanto com meu pai, minha mãe, meus irmãos e meus parentes em geral, há uma verdadeira união dentro da família.

– Em sua opinião, qual é a importância da família para uma pessoa trans nesse processo?

Não é importante só para o transexual, mas para o LGBT em geral. Para nós, tem um peso fundamental o apoio familiar, pois estamos preparados para o preconceito que vai sofrer na rua, na sociedade, então a gente espera ter pelo menos um amparo e um apoio dentro de casa. É onde a gente vive, cresce e é o nosso maior convívio. A família é onde a gente procura se fortalecer. Se a gente perde esse vínculo pelo preconceito, as dificuldades são ainda maiores e ficamos muito fragilizados. Há muitas pessoas LGBT que não tem esse convívio com a família.

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“A família é onde a gente procura se fortalecer, mas nem todos LGBT tem esse apoio”

– Hormônios, cirurgias… foi tranquilo acessar esses procedimentos?

Eu sou “paciente”, sabe? (risos). Eu quero tudo para hoje, não quero esperar nada. Comecei a fazer a hormonização por conta própria e, por estar em academia, tive facilidade de ter acesso aos hormônios. Naquela época, o SUS de BH não realizava o tratamento para transexual. Eu sentia muita dor do lado esquerdo do peito, ataque cardíaco, formigamento no corpo todo, fora a questão do nervosismo, estresse e pressão alta. Também fiquei com o colesterol alto, mesmo fazendo dieta por conta da academia. Sentia muita cólica na região do útero, não conseguia nem dormir. Esperei por dois anos até conseguir um endócrino pelo SUS, que topou me acompanhar mesmo sem passar pelo acompanhamento multidisciplinar. Eles chegaram a abrir o tratamento em uma ala específica, mas fecharam pouco depois e eu voltei a tomar por conta própria. Só nesse ano é que passei a tomar com acompanhamento médico. O meu colesterol é normal hoje em dia, a minha pressão está na média e os efeitos colaterais negativos estão mais controlados.

– Obrigado por dividir esse relato com nossos leitores. E em relação a cirurgia? Fiquei sabendo que você fez na Venezuela… Por quê?

Pelo SUS teria que esperar pelo menos dois anos com a equipe multidisciplinar e isso estava fora de cogitação para mim, porque só começou a funcionar mesmo nesse ano. Tentei ver a cirurgia com médicos particulares no Brasil, mas os valores eram 10 mil, 12 mil, só o procedimento cirúrgico e para a minha realidade financeira era impossível. Eu cheguei a falar com um médico que cobraria 8 mil, mas ele disse que precisava verificar no Conselho de Medicina se poderia fazer a operação, pois para ele era uma mutilação. Saí de lá indignado, pois o cara é médico, faz a cirurgia, não está por dentro do assunto e ainda considera uma mutilação? Em um grupo no Whatszapp, um menino de Roraima disse que tinha feito a cirurgia na Venezuela, que pagou barato e que teve um resultado satisfatório. Pesquisei e achei que a passagem de avião era cara e que daria na mesma. Só que no ano passado tive uma disforia muito grande por causa dos seios e procurei essa clínica. Eles me passaram os valores e eu vi que dava para fazer. Mas mesmo assim eu não tinha o dinheiro.

– O que fez para conseguir?

Eu trabalhava em dois empregos e estudava. Cheguei a fazer rifa para vender, fazer chup-chup, até lingerie eu vendi para juntar dinheiro. Eu junho eu fui para lá e no dia 8 eu fiz a cirurgia: a mastectomia e a histerectomia (retirada do útero e ovários). Eles me cobraram 1.500 dólares, na época que girava em 5.200, pelas duas cirurgias, os exames e os medicamentos. Sempre digo que o preço oscila muito, então é preciso fazer orçamento, fazer a comparação e ver se compensa. Na época eu paguei barato, mas não sei como está hoje.

– Calma aí, você fez as duas cirurgias no mesmo dia?

Fiz no mesmo dia. Antes disso, eu passei por cinco especialistas para ter o laudo. Eu fui sozinho e no dia da cirurgia eu falei: acho que é o dia mais feliz da minha vida. A cirurgia ocorreu às 7 horas da manhã, eu acordei às 5h para me preparar. Quando estava indo, pensei: “Vou dormir agora e acordar outra pessoa”. Foram sete horas de cirurgia. Acordei e não consegui mexer nada do meu corpo, nem a parte de cima, por conta da mastectomia, nem a parte de baixo, pela histerctomia. As dores foram fichinha perto da minha felicidade. Eu fiquei 20 dias lá, pois a recuperação foi delicada.

– O que aconteceu?

Eu tive uma complicação durante o procedimento. Fecharam a mastectomia e, quando foram colocar o dreno no meu peito esquerdo, pegaram um vaso e eu tive uma hemorragia. Eles só perceberam quando eu tinha saído do bloco e eu tive que voltar. O meu pós-cirúrgico foi complicado, pois tive acúmulo de liquido no peitoral. Sobre a histerectomia, eu tive dificuldade para andar e se eu espirrasse, por exemplo, sentia dor na região do corte, que é como o de uma cesariana. Mas preciso dizer que tive ajuda do pessoal da clínica, dos enfermeiros… Uma das enfermeiras me tratou como filho, me deu comida na boca, me deu banho e eu até fiquei na casa dela. Fui abençoado na cirurgia, pelo valor que eu paguei e pelas pessoas que me cuidaram lá.

–  Hoje você é muito elogiado pela beleza. Quais são os seus cuidados?

Eu gosto muito da musculação, mas antes do meu início de hormonização eu já estava na academia. É quase que religioso. Eu vou todos os dias, faço duas horas e meia de treino. Também tenho uma alimentação balanceada, zero álcool, zero açúcar, zero fritura. Muita gente pergunta como eu aguento, mas não foi do dia pra noite que cheguei nesse nível de disciplina. Hoje também faço muay thai.

– O que diria para um homem trans que acabou de se perceber homem trans agora?

Não existe nenhum sonho ou objetivo impossível. Seja firme, foque no que você quer e saiba que a caminhada é longa. Hoje eu estou rindo, tenho admiração de algumas pessoas, mas no início não foi assim. Eu entrava na academia e as pessoas riam de mim, já apanhei na rua, já sofri abuso sexual, já fui vítima de chacota, já tive namoradas que terminaram comigo porque não queriam alguém como eu do lado delas. Eu já sofri tudo isso, mas lutei e não desisti do que eu sonhei. Então eu digo para aqueles que estão se percebendo agora que não desistam no primeiro riso que enfrentarem na rua e nem depois das primeiras pessoas que vão se afastar. Lutem, levantem a cabeça e sigam seu caminho. E se der medo, vai com medo mesmo. Pois haverá recompensas e o universo também vai conspirar a favor em muitas outras questões. Quero que eles saibam que podem ter uma aparência melhor que a minha e ser uma pessoa melhor que eu. Eu só sou feliz porque sou o Gabriel.

– Muita gente acha que para ser homem é preciso reproduzir o estereótipo de homem, inclusive com muitas questões machistas. Você faz parte dos que reproduzem essa masculinidade, não pensa sobre isso ou acaba questionando?

Eu abomino esses estereótipo e a desconstrução contra o machismo é diária. Querendo ou não, quando a gente está como homem na sociedade as pessoas exigem certos papeis a gente tem que desconstruir. Não tenho que ficar assoviando quando vejo uma mulher, sendo grosso ou coçando o saco na academia. Eu cozinho, eu ajudo a minha mãe a arrumar a casa todos os dias, a minha namorada não gosta de cozinhar, então sempre sou eu que faço alguma coisa para ela. Confesso que não sou muito sensível e de expor sentimentos, mas é um jeito que sempre tive. Eu recebo muitas cantadas de homens e eu converso com todos com o maior respeito. Muita gente pergunta se eu sou gay, porque eu teria jeito de gay. Dizem: “A sua cara tá barbada, mas você faz algumas coisas de mulher, como limpar a casa”. Gente, isso não existe. Se eu sujo algo e eu não quero viver em um ambiente sujo, porque eu não devo limpar? Isso não me faz mais ou menos homem que ninguém.

– Isso te faz uma pessoa sensata e limpa, né? (risos)

É (risos), mas existe essa pressão para que reproduzamos esse estereótipos, mesmo em questões pequenas, e se livrar delas é um trabalho diário.

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“O que mais admiro na massoterapia é poder de ajudar o outro através do toque”

– Você é técnico de massoterapia. Como escolheu essa profissão?

Fiquei sabendo do curso por meio de um tio, que recebeu no Whatzapp que estavam dando um curso gratuito. Eu estava trabalhando em outra área, mas me inscrevi e comecei a fazer. Posso dizer que me apaixonei pela profissão. E o que eu mais admiro é o poder de ajudar o outro através do toque. É uma profissão que envolve muito se colocar no lugar do outro, de entender o corpo do outro e de saber que muitas das nossas doenças físicas começam dentro da nossa mente. A massoterapia tem a visão de tratar o corpo como um todo, inclusive levando em consideração a mente e uma parte mais espiritual. Eu sou pisciano e gosto muito dessas coisas. Poderia ficar o dia todo falando da massoterapia.

– Sentiu dificuldade ou preconceito de se inserir na área?

Pelo fato de ser homem trans não, pois o que prevalece é a qualidade do serviço. A profissão foca muito nisso, no seu desempenho enquanto profissional. Mas a dificuldade que existe é sobre outro ponto de vista: o preconceito de atrelar a massagem com a questão do sexo. É de fato uma questão íntima, mas há muito respeito, pudor… Aos poucos as pessoas vão entendendo que é um tratamento como qualquer outro, que tem fundamento, tem estudo e pesquisa. Nos países orientais, é algo muito valorizado há mais de três mil anos, mas aqui em Belo Horizonte as pessoas ainda estão se acostumando aos poucos.

– Para finalizar, eu gostaria de retomar as duas fotos. Ao olhar para a segunda foto, o que você sente?

Fico muito orgulhoso. Primeiro porque a minha família me apoiou e me respeitou durante a minha transição. Fiquei feliz que conseguimos voltar à praia juntos e que essa foto passou muita coisa boa para as pessoas. Passou a felicidade que a gente estava sentindo naquele dia, a união que a gente tem, o respeito, o carinho e a aceitação. Para mim, especificamente, é a minha realização como Gabriel, com a pessoa que eu realmente sou.

Confira algumas fotos de Gabriel

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