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Caio Jade explica campanha “Desaquenda”, voltada aos homens trans e transmasculinos

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Caio Jade (foto: Bernardo Enoch)

“Desaquenda” é o nome de uma campanha voluntária realizada por diversos homens trans e transmasculinos que visam debater as imposições em torno de corpos trans e dos caminhos que são atribuídas as experiências de transmasculinidades. Em entrevista ao NLUCON, o performer Caio Jade explicou a iniciativa:

“Eu e outras pessoas transmasculinas estamos pensando nessas questões envolvendo o desaquendar das tetas. Porque o processo da transmasculinidade com os binders (faixa que comprime o tórax para esconder o volume do peito) é de muita violência física e psicológica”, explicou.

O artivista afirma que há muitos casos de homens trans e transmasculinos que, ao usarem as faixas por muitos anos, passam por muita dor e começam a desenvolver problemas respiratórios e sobretudo musculares.

“Das vezes em que experienciei o binder, tive um desconforto tão grande que se tornou mais um problema que um alívio. Era incrível antes de atingir a passabilidade que o hormônio me trouxe colocar um binder e ser chamado no masculino porque as pessoas não viam um peito, mas o desconforto que causava não compensava na minha balança”, declara.

Ele frisa que a campanha é muito semelhante à feita pela militante Indianare Siqueira no Rio de Janeiro, que dialoga com as travestis e mulheres trans (ou transvestigeneres, como ela se define). “Ela fala sobre as pessoas transvestigeneres que tem pau e ficam apertando o pau para usar calcinha, biquíni. Ela diz: ‘vamos desaquendar, temos um corpo que tem um pau, então vamos viver com esse pau. Não vou me adequar a uma norma feminina cisgênera para viver esse corpo. Vou viver esse corpo feminino tão qual ele é”, declarou.

No caso, os homens trans e transmasculinos podem viver o corpo masculino da maneira como ele é.

NÃO É IMPOSIÇÃO, É REFLEXÃO

Caio declara que não se trata de uma campanha que visa obrigar que todos os homens trans não usem mais binder ou que não queiram passar por cirurgias, mas que se trata de um contra discurso à normatividade que os corpos trans são impostos baseados nos corpos cis e dos caminhos que são atribuídos como padrões para que essas pessoas sejam reconhecidas e legitimadas como pessoas trans.

“Não é um apontamento personalizado e nem de juízo do tipo ‘você deve ou não deve’. Não estamos legislando sobre o outro. Não é dizer que é um absurdo querer tirar o peito, mas é repensar esse processo de outro ponto de vista, que é a naturalização desses caminhos para que essas pessoas sejam o que são”, declara ele, salientando que ela visa debater, dialogar e trazer fotos de pessoas transmasculinas tranquilas com seus corpos.

Caio diz que discursos de que todas as pessoas trans sofrem “disforia”, que todas as pessoas trans “estão no corpo errado”, que todas as pessoas trans “odeiam o próprio corpo” e que todas as pessoas trans “tem a cabeça de um e corpo de outro” foram legitimadas ao longo da história pelo discurso médico (ressaltando que estavam nos capítulos de “transtorno psiquiátrico e psicológico”) e que ainda hoje carregam tais significados na vida das pessoas trans.

“O discurso médico, o discurso da família e o da sociedade diz que a gente vive a “cabeça de um e que o nosso corpo está errado”, quando na verdade a gente é. E as palavras vem depois de ser. O meu processo de crítica é sobre essas palavras, é repensar de outro ponto de vista a naturalização desses caminhos para que as pessoas sejam algo ou não. É repensar a normatização do que é transgeneridade, travestilidade, não-binaridade e dessas palavras que não nasceram aqui. Talvez possamos criar novas palavras, como transvestigeneres, talvez esses outros corpos não precisam se normatizar. Talvez eles possam ser de um jeito diferente”, afirma.

Confira esse bate-papo:

3 comentários

  1. Fácil quando se tem peito pequeno e é passável… Os meus são muito grandes e não uso binder por questões de saúde, mas é muito ruim continuar com eles assim, balançando, EXISTINDO… Saio na rua e me sinto “aquendado” pelos olhares dos outros… Mas tamo aí, desaquendado e sofrendo rs

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  2. matéria bacana porem diga isso para o homem trans q tem seios batendo la no meio da barriga e não pode sair na rua sem camisa pq pode ate mesmo ser preso alem de ser vítima de piadas, agressão ou estupro.

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  3. Nossa, que legal. Andei pensando muito nisso ultimamente e agora li a matéria. Ótimo. Temos que discutir essas possibilidades de construir nossas narrativas fora dessas normatividades

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