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“Homens trans sofrem transfobia diferente das mulheres trans no esporte”, afirma Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha: homens trans são vistos como indiferentes no esporte

Leonardo Peçanha é professor de educação física, especialista em gênero e sexualidade e mestre em ciência da atividade física. Nos últimos anos, vem contribuindo com as discussões e debates envolvendo a inclusão, a presença e a permanência de pessoas trans no esporte profissional.

Segundo Leonardo, o momento atual é histórico – uma vez que cada vez mais pessoas trans e travestis começam a acessar o esporte de maneira profissional e serem respeitados em sua identidade de gênero – mas ainda é marcado por muita desinformação e transfobia.

Basta lembrar das reações e questionamentos envolvendo a presença de Tifanny Abreu, a primeira mulher transexual no time feminino de vôlei, Bauru, no último ano. Ainda que ela cumprisse todas as exigências do Comitê Olímpico Internacional, houve quem questionasse sua presença e a desrespeitasse em sua identidade de gênero.

Com vivência e pesquisa sobre a população trans, Leonardo desmistifica o assunto em entrevista exclusiva ao NLUCON. Fala sobre as mudanças da reposição hormonal, das reconstruções corporais e de como isso afeta o corpo biofísico de uma pessoa trans esportista. Também aborda a maneira como a transfobia afeta de maneira diferente homens e mulheres trans.

– Ao longo da história é possível ver pontualmente pessoas trans tentando acessar o esporte. Mais recentemente, começamos a ter um número mais expressivo desses atletas em diversas áreas. O que podemos falar sobre esse momento?

É um momento histórico. Mas ainda existem muitos e muitas atletas trans que estão sendo invisibilizados e que estão vivendo à margem. Porque o esporte também é um trabalho, que não é fácil, pois o corpo é o instrumento de trabalho, literalmente falando. Para uma pessoa trans isso é duplicado, porque a questão não está só no corpo, mas em um corpo diferente. Então vivemos um momento histórico em que você começa a ver mulheres e homens trans ocupando esse lugar. Tem o caso da Tifanny (Abreu, jogadora de vôlei), o caso do Juliano Ferreira (fisiculturista), que estão em instituições federadas. Tem outras também que estão dizendo que o esporte é um lugar em que a gente tem que estar.

– Qual é o impacto que está tendo no esporte com a presença das pessoas trans?

Muita transfobia naturalizada. É um assunto complexo, sim, por conta do que as pessoas entendem o que é o sexo e o gênero masculino e feminino. A Tifanny sofreu muitos ataques transfóbicos naturalizados em relação ao fato de ela estar jogando na liga de vôlei em um time feminino. O que se tem falado é que o fato dela ter feito a transição depois dos 30 anos, fazia ter uma vantagem biológica de força muscular e de massa óssea. Mas as pessoas não compreendem que quando a pessoa trans começa a fazer as modificações corporais isso também sofre mudanças. Não pode esquecer que o corpo muda, fisiologicamente também. Esquece que ela toma hormônio, que ela fez a redesignação sexual e que tudo o que ela poderia ter de vantagem, ela perde. Porque o hormônio faz com o que ela perca isso, ela começa a ter características biofisiológicas das mulheres, o que de fato é uma mulher. A força que ela tem é a força de uma mulher da idade dela, com o corpo anatômico e biofisiológico igual ao dela, da altura dela. Fica parecendo que a reposição hormonal e a modificação corporal é um detalhe e não é.

– Além disso, tem todo o treinamento que ela tem…

Tem que levar em conta o treinamento esportivo, as valências físicas, pois fica parecendo que não tem importância. Se a Tifanny está ocupando esse lugar de destaque no Bauru é porque ela tem valências físicas e o treinamento que ela teve foi direcionado para isso. Ela tem uma individualidade biológica que favorecesse ela ser uma atleta de vôlei, ela tem características de performance esportiva que tem ligação com o fato dela estar preparada para jogar vôlei. Será que se ela não treinasse como ela treina, ela teria a performance esportiva que ela tem?

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Leonardo e Tifanny Abreu

– Essa transfobia naturalizada aparece porque as pessoas ainda veem a Tifanny como um homem cis jogando com mulheres?

Culturalmente falando é isso que as pessoas acabavam vendo, muito pela ideia que tem do corpo biofisiológico mesmo. Eles não entendem que o nosso corpo biofisiológico também se reconstrói e ele muda a partir das modificações, das reconstruções corporais e da reposição hormonal. Eles estão lendo a Tifanny como um homem cis, mas ela não é um homem cis. A estrutura biofisiológica corporal dela não é a estrutura biofisiológica de um homem cisgênero. Não é mais. A estrutura biofisiológica de um homem trans não é a estrutura biofisiológica de uma mulher. Então, eu acredito que deva se pesquisar mais na área do treinamento esportivo, na área da fisiologia do exercício para entender o funcionamento desse corpo. Não para querer colocar em um lugar transfóbico, mas para entender melhor sobre ele, assim como as pessoas procuram entender um corpo cisgênero.

– Particularmente, você percebe as diferenças antes e depois da reposição hormonal?

Percebo. Eu sempre treinei, malhei e o que eu pegava de peso antes da mudanças corporais, reconstruções corporais e reposição hormonal é muito inferior ao que eu pego hoje. Então isso tem que ser levado em conta, porque quando você começa a tomar hormônio isso muda nitidamente. Da mesma maneira que as mulheres trans perdem força, perdem massa muscular, perdem massa óssea e ficam com libido menor, os homens trans ganham tudo isso. Ganham força, massa muscular, massa óssea, tônus muscular…

– Você sente que existem transfobias diferentes entre atletas mulheres trans e atletas homens trans?

Existem. A Tifanny sofreu muita transfobia misógina em vários comentários por conta de tudo isso que a gente conversou aqui. No caso dos homens trans, é como se ele não fizesse diferença estando ali, sinalizam até mesmo nas diretrizes que para competir eles não precisam atender exigências tão específicas, pois são indiferentes. É como se o homem trans não tivesse legitimidade para competir com um homem cis, como se não fosse possível vencer. Eles não conhecem os homens trans atletas que eu conheço (risos). Eu quero ver o dia que um homem trans bater o recorde de um homem cis, o que eles vão dizer?

– Você não acha que daí vão querer justificar a vitória falando da reposição hormonal, que houve vantagem, essas coisas?

Eles vão querer fazer o que fazem com as mulheres trans. Porque sempre vai ter uma desculpa. Nunca é porque a pessoa realmente treinou e a pessoa está apta. Sempre querem invisibilizar, querem ser transfóbicos e colocar em outro lugar. Mas a reposição hormonal que o homem trans faz é a mesma que o homem cis faz, está mesmo nível.

– Há quem fale que pessoas trans devam competir em campeonatos com outras pessoas trans. O que você pensa sobre isso?

Já existe o Gay Games, que como uma competição inclusiva, que não tem só pessoas LGBTs e que até héteros cisgêneros competem, é importante. É uma competição que mostra inclusão. Mas enquanto competição oficial, federada, é complexo, porque quando você separa você vai colocar as pessoas no gueto e estigmatizar mais. Foi como aconteceu com as pessoas negras anteriormente, que tinham dificuldade de acessar o esporte. É claro que é completamente diferente, pois as marcações sociais são diferentes. Estou trazendo esse exemplo porque se pensou assim antigamente, com uma marcação racista: pessoas negras devem fazer esporte separados. Porque também tem uma questão racista biofisiológica com as pessoas negras. Há artigos dizendo que pessoas negras tem uma fibra muscular diferente, então é uma questão complicada. Até que ponto isso não é uma visão racista, que vem da questão histórica das pessoas negras que foram escravizadas, dessa esperada força que o homem negro e a mulher negra tem? Então, quando você coloca determinados grupos sociais em determinados lugares querendo separar, não é inclusão. E não é levar em conta que as pessoas são diferentes e essas diferenças devem ser incluídas também.

– Até porque pessoas cis também tem diferenças, mas essas diferenças são mais facilmente absorvidas que as diferenças envolvendo as pessoas trans. Como você acha que o esporte vai lidar com pessoas não-binárias e intersexo?

É complexo e não sei se o esporte está preparado para lidar com essas pessoas, porque não está preparado para lidar com essas pessoas na sociedade. Já se tem no esporte pessoas intersexo e o curioso é que só vão descobrir que essa pessoa é intersexo quando ela vai fazer algum exame. Então, como o esporte vai lidar com isso? Vai guetificar essas pessoas também? É por isso que deve se ter pesquisas para entender os diversos corpos existentes na sociedade e no mundo. Não para colocar em guetos, mas para entender que os corpos são diferentes e que essas diferenças devem estar ali para nortear o esporte também. Ela pode até ter uma vantagem em relação a um aspecto, mas uma desvatagem em relação a outro. Uma mulher cis que tem 1,90m pode ter vantagem em relação a altura, mas pode ter desvatangem em relação a alguma outra característica que outra mulher cis tem. E nesse exemplo estamos falando de pessoas cis. Então acho que o esporte é uma ótima ferramenta de desconstrução de gênero, de leitura corporal e que é um avanço.

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– Qual é a importância das pessoas trans estarem no esporte?

Muito se fala do esporte como salvação, mas eu não acho que é uma salvação, porque tudo depende do uso que a pessoa faz. Eu penso que seja uma ferramenta em que a pessoa usa para ela ressignificar a vida, ter qualidade de vida, até nas questões de saúde. Atividade física é boa para qualquer pessoa, inclusive ela deveria estar dentro do processo transexualizador e não está. A atividade física é uma atividade que pode ser acessada em diversos lugares e é mais uma ferramenta de reconstrução corporal que a pessoa pode ter.

– Uma curiosidade: como se de o seu interesse pelo esporte?

Sempre gostei  de esporte desde pequeno. A professora de educação física, ao perceber que eu tinha uma performance esportiva boa, chegou a perguntar se eu não queria praticar esporte. Eu falei com o meu pai, mas ele por diversos motivos não colocou. Eu tinha sete anos e falei: “Eu quero fazer educação física”. Mas pratiquei de forma amadora no futebol, handebol, basquete… Se eu fosse atleta profissional, eu teria estado no futebol feminino. Eu tinha uns 16 anos e foi na época da atacante Pretinha. Não cheguei a ser atleta profissional, mas segui o que eu queria e estou na educação física de alguma forma

– Tem algo que gostaria de acrescentar?

É preciso entender que muitas pessoas trans – e daí entra uma questão de classe – querem acessar uma academia de ginástica e clubes. E muitas vezes elas não acessam porque tem medo de sofrer transfobia, fazer uma avaliação física e de como vai ser esse acesso. Será que ela vai ser protegida, acolhida e em qual banheiro ela vai poder ir? Então é importante que os profissionais de educação física estejam preparados para ldiar com esse corpo, entendendo que a pessoa trans é uma pessoa que tem que ter acesso aos clubes. Eles devem deixar os dogmas religiosos e tratar aquela pessoa como um cliente, uma aluna, um aluno de forma igual, mas entendendo as diferenças. Entendendo que o homem trans usa binder, então como será o exercício físico dentro da musculação, como vai ser aquele corpo fazendo uma natação, uma hidroginástica, e não naturalizar possíveis preconceitos que outras pessoas podem ter com aquela pessoa naquele espaço. Porque o que eu vejo é que muitas pessoas não acessam por medo, mas que está na hora de a gente começar a acolher.

Assista ao bate-papo: 

 

 

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