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Comunidade trans chora morte de João W. Nery: “Ficamos órfãos de pai”

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João Nery e Jordhan Lessa: amizade e luta em prol dos homens trans e transmasculinos

A comunidade trans e travesti chora nesta sexta-feira (26) a morte do escritor, psicólogo e militante trans pioneiro João W. Nery, aos 68 anos, vítima de câncer, no Rio de Janeiro. Diversos militantes, amigos, parceiros e fãs lamentaram a morte e fizeram diversas homenagens.

O escritor e militante Jordhan Lessa, amigo de João há cinco anos, escreveu nas redes sociais que o psicólogo foi o responsável por fazê-lo se entender homem trans no dia 8 de agosto de 2013. Na ocasião, João falou sobre sua vida e disse que era preciso lutar para não enlouquecer. “Começava ali a minha história”, conta Jordhan.

“João me ensinou muito, desde frivolidades do dia a dia, até ser um homem constituído de hombridade e respeito, um homem que não mede masculinidades, que pode ser sensível, discutir relação, chorar, ser feliz, feminino e criança quando quiser. Me tornei Jordhan Lessa pelas mãos e ensinamentos de João W. Nery, aprendi a ser feliz e deixar de ser machista. Minha gratidão será eterna”, conta.

O fotógrafo Gael Benítez, que fotografou João durante o tratamento contra o câncer, reafirmou a admiração, exemplo e inspiração que sente pelo escritor. Ele classificou João como “o homem que foi cortando o mato no facão para pessoas como eu seguirem sua trilha”.

“Em fevereiro te fotografei na sua casa, seu corpo já estava fraco, e você me contou da sua vida, da sua luta, de tudo o que você aprendeu e queria deixar pros outros meninos trans que viriam, que você falava com tanto carinho… Foi um dos momentos mais fortes da minha vida, eu chorei como choro agora, porque eu sabia da dimensão do que você era, como agora sei da dimensão do que você foi. Agora descanse guerreiro, porque você merece! Obrigado por tudo”, escreveu.

Confira algumas das mensagens: 

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Lam Matos, coordenador nacional do IBRAT, também publicou uma foto de João com a mensagem: “Nosso querido amigo, que nos céus o recebam de braços abertos e com a mesma alegria que você sempre nos recebeu, com esse sorriso largo e esse afeto grandioso. Descanse guerreiro”.

O modelo Paulo Vaz prestou sua homenagem: “Hoje se vai um grande guerreiro, João W. Nery, Homem Trans, ativista e de um grande coração, faleceu às 16 horas. Você não será esquecido!”. O cantor Apolo Pinheiro disse: “O céu ganha uma estrela linda e forte”. O rapper Tiely Santos agradeceu: “João, obrigado por tudo. Agora és estrela nesse universo”.  Já o ator Bernardo de Assis afirmou que todos os trans homens ficaram órfãos de pai.

“No meio de tanta barbárie, a notícia do falecimento do João me deixa ainda mais sem chão… Esse homem simplesmente mudou a minha vida e me fez entender que não havia absolutamente nada de errado comigo. Me ensinou a admirar e amar meu corpo-resistência. Me mostrou o que era família… Hoje, todos os trans homens ficam órfãos de pai, mas ficamos com a certeza de que a luta de João permanecerá. Nós te amamos! Vá em paz…”, disse Bernardo.

LEGADO INESTIMÁVEL

As homenagens também foram feitas por mulheres trans e travestis. A militante histórica Jacqueline Brasil diz que o “movimento trans nacional perde um grande líder”. “João nos deixou, deixando um grande legado. Nós da Associação de Travestis e Transexuais do RN, ATREVIDA/RN, estamos de luto. Uma parte da minha história e da minha luta se foi”.

A psicóloga, professora e pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus publicou uma foto com João e disse que ele é “autor da mais importante autobiografia sobre pessoas trans no Brasil”, Viagem Solitária, “no qual apresentou sua extraordinária história, identificando-se como o primeiro homem trans (ou transhomem, como ele gostava de se identificar) operado em nosso país”.

“João deixa um legado inestimável para a população trans brasileira, em especial para os homens trans, que se reconhecem e se fortalecem com sua estória de coragem e superação. Não tinha como não me identificar com João, por sermos pessoas trans, escritores e psicólogos, mas principalmente por ele ser um ser humano de amor, pura alegria e fé inquebrantável na vida”, diz parte do texto.

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João gravou vídeo para a campanha da candidatura de Jaqueline Gomes de Jesus

A atriz e diretora Luh Mazza escreveu um texto destacando que João é o nome mais importante da história da transmasculinidade no Brasil. E que, antes mesmo de se revelar mulher trans, já havia comprado o livro “Viagem Solitária”. “Posso dizer que foi um dos materiais que mudou minha vida e ajudou a me instrumentalizar e preparar para me colocar no mundo como sou. Só por isso, minha gratidão por ele é enorme. Mas também por tudo que ele fez como ativista e como um ser que viveu e fez tudo para que os seus vivessem”.

A ativista travesti e digital influencer Kimberly Luciana Dias fez uma postagem de agradecimento: “Obrigada companheiro João W. Nery, você deixa seu legado em uma data simbólica. Vamos resistir depois do dia 28. Você não parte em vão. Que os anos a seguir de sua ida seja a nossa reflexão e a bandeira rumo ao que o país irá atravessar. Muito obrigada e até um dia”.

A DESPEDIDA

João lutava contra o câncer no pulmão há um ano e, desde setembro deste ano, fazia tratamento contra o câncer no cérebro. Foi internado no início de outubro com quadro de insuficiência respiratória, mas vinha melhorando no decorrer dos dias, até que houve uma piora repentina na quinta-feira. Ele morreu na tarde de sexta.

Antes de partir, João deixou preparado o seu quarto livro, Velhice, ainda sem previsão de lançamento, fez diversas postagens nas redes sociais, ganhou uma das categorias do 23º Prêmio Claudia, e até deixou um recado aos homens trans.

“Se unam, não oprimam os nossos irmãos oprimidos, já por tanta transfobia e sofrimento. Um transmasculino não precisa ser sarado, nem ter barba, nem se hormonizar ou ter pênis para se operar. Basta saber quem são e que sente do gênero masculino. Vamos nos respeitar, nos unir, nos fortalecer e, sobretudo, ensinar os homens cis o que é ser um homem sem medo do feminino”, declarou.

Obrigado, João!

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