Pouco antes de partir, João W. Nery foi premiado e recebeu título de doutor honoris causa

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O psicólogo, escritor e militante trans pioneiro João W. Nery, que morreu na sexta-feira (26), durante uma batalha contra o câncer no Rio de Janeiro, teve alguns momentos de alegria quando estava internado em hospital de Niterói, Rio de Janeiro. Ele chegou a receber uma importante premiação nacional e o título de doutor honoris causa, fruto de sua trajetória de sucesso.

Como o NLUCON adiantou, João concorreria ao 23º Prêmio Claudia, maior premiação voltada para o reconhecimento do trabalho de mulheres da América Latina. Na ocasião, ele disputava com outros dois candidatos na categoria Eles por Elas, em que mostravam o trabalho de homens em prol dos direitos humanos.

João venceu a votação, mas não pode comparecer à cerimônia que ocorreu nessa segunda-feira, dia 22 de outubro, em São Paulo. Ele foi representado pela amiga, a cartunista Laerte Coutinho. Na terça, Laerte publicou uma foto com o prêmio, dizendo que esteve toda orgulhosa por representar João. “Parabéns, meu doce de coco”, escreveu.

O militante chegou a gravar um vídeo, por intermédio do amigo Lucas Ávila, para ser exibido na premiação: “Não importa quem ganhe, nós já ganhamos na medida em que lutamos por pessoas, por entidades que são marginalizadas, que são invisíveis na cultura atual num momento tão delicado, não só na minha vida, mas do país”, disse.

Após a notícia da morte, Laerte escreveu em suas redes sociais: “Foi um foi um herói. Ousou ser o homem lutador que quis ser, e iluminou nosso planeta com sua masculinidade serena e afetuosa. Não será esquecido. Nem hoje, nesse tempo de machices fanfarronas, nem nunca”.

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Laerte Coutinho com o Prêmio Claudia, de João W. Nery

DOUTOR HONORiS CAUSA

Em agosto deste ano, a Universidade Federal de Mato Grosso concedeu a João W. Nery o título de doutor honoris causa. Trata-se de uma honraria, cuja tradução é “por causa de honra”, concedida por universidades a pessoas que se destacaram em sua área de atuação e que a honraram, ainda que nem sempre tenham graduado ou especializado.

João chegou a se formar em psicologia, mas teve o diploma anulado quando tirou ilegalmente, por falta de opção, uma nova certidão de nascimento. Isso porque naquele período não era permitido e sequer pensado que alguém fizesse por meios legais a retificação de prenome e sexo da documentação, O direito foi reconhecido pelo STF neste ano, facilitando a retificação por meio do cartório e baseado unicamente na autodeterminação.

“O que motivou a ideia foi a consciência de quão importante e relevante é a vida e obra de João Nery tanto para a população trans quanto para a academia. Queríamos que João tivesse ainda em vida todo o reconhecimento pela sua trajetória, para isso foi elaborado um dossiê com a história de vida do João, que foi entregue ao Conselho da UFMT, juntamente com um texto escrito por mim onde compartilho a importância de João na minha vida pessoal e acadêmica. Eu fui o primeiro trans a curar a pós-graduação na UFMT e, hoje, somos dois no doutorado e abrimos uma vaga de cota para pessoas trans e travestis. Então, conseguir esse título para o João é uma honra”, declara o doutorando Vicente Tchalian.

Danie Marcelo de Jesus, doutor e professor nos programas de pós-graduação em estudos de linguagem e cultura contemporânea, declara que ao conhecer João, ler sua obra, entrevistas e organizar um Seminário com a presença do militante, pode perceber que se tratava não só de uma pessoa encantadora, mas que trazia um em seu processos de vida uma grande aprendizagem.

“Neste Seminário, pessoas de várias cidades, dentre elas cidades de mais de 800km de Cuiabá, foram nesse evento. A presença dele auxiliou diversas pessoas, pessoas que estavam com dúvidas, pessoas que estão com processos de depressão. Foi aí que decidimos organizar um livro dedicado a ele, “Estudo sobre Gênero, Identidade e Educação – Homenagem a João Nery”. Mas senti que era insuficiente a homenagem. Foi então que decidi organizar um processo dentro da universidade para dar ele um título de doturor honoris causa”.

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Livro escrito em homenagem a João W. Nery

O doutor afirma que o título é representativo, uma vez que há histórico de violência contra as pessoas trans e que atualmente o país vive um momento difícil, com tentativas de impedir os avanços sociais. “O fato de João ter um título honoris causa é simbolicamente uma resistência da Universidade frente a esses discursos transfóbicos e homofóbicos que vivenciamos no Brasil atual. Significa a nossa resistência, a luta e o objetivo de construir uma universidade mais justa e igualitária, onde qualquer tipo de preconceito possa ser humanizado e desfeito. É a nossa luta”.

HOMENAGENS

Vale dizer que ao longo de sua trajetória João foi homenageado e teve o trabalho reconhecido diversas vezes por coletivos trans e LGBT, chegando a dar nome ao PL 5002/2013 – a Lei de Identidade de Gênero, de Jean Wyllys (PSOL) e Érika Kokay (PT).

O projeto visa garantir, dentre outros direitos, que pessoas trans possam fazer a retificação de documentos e sejam respeitadas de acordo com a sua identidade de gênero somente com a autodeterminação. Ela não foi votada e ainda não há previsão.

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