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João W. Nery deixou quatro livros importantes para o público; saiba quais são eles

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O escritor, psicólogo e militante trans pioneiro João W. Nery (1950-2018), que morreu nessa sexta-feira (26), vítima de câncer, no Rio de Janeiro, deixou um grande legado de luta para a população trans e defensores dos direitos humanos. Ele também foi responsável por quatro importantes referências bibliográficas, tanto para quem é pessoa trans  quanto para estudiosos e pessoas interessadas na história.

O livro mais conhecido escrito por João (e leitura obrigatória) é “Viagem Solitária: Memórias de Um Transexual Trinta Anos Depois”. Publicado em 2011 pela editora Leya, a obra autobiográfica de 336 páginas narra a história de quem que foi designado mulher ao nascer e teve que lutar muito e percorrer um caminho solitário e impensável por sua identidade de gênero, para ser o homem que sempre foi.

Traz uma linguagem envolvente e tem a preocupação de trazer poesia e leveza, sem deixar de tocar nas feridas, emoções reais ou deixar detalhes importantes de todo o processo, aos leitores. Fala sobre infância, adolescência, vida adulta, a luta por sua identidade, a tentativa de ser uma mulher, a busca por cirurgias, as profissões que percorreu, as perdas que enfrentou e também os diversos encontros e desencontros que teve no decorrer de sua vida.

Algo muito enriquecedor é que João lutou para ser quem era num período de ditadura, repressão e de extrema invisibilidade – a transexualidade ou transgeneridade de um homem trans sequer era cogitada como possibilidade. É incrível que não tenha sucumbido ao sistema e que tenha conseguido, mesmo na ilegalidade, dada a impossibilidade, ir atrás e conseguir direitos que só recentemente se tornaram possíveis, bem como trocar os documentos com um novo prenome e sexo e realizar cirurgias masculinizadoras em seu corpo. Aliás, João dizia que a luta o ajudava a não enlouquecer.

A professora, psicóloga e pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus diz que “Viagem Solitária: Memórias de um Transexual 30 anos Depois” é a “mais importante autobiografia sobre pessoas trans no Brasil”. “(João) apresentou sua extraordinária história, identificando-se como o primeiro homem trans (ou transhomem, como ele gostava de se identificar) operado em nosso país”. O livro custa em média R$30,00.


ERRO DE PESSOA

Mas embora Viagem Solitária seja o livro mais conhecido, ele não foi o primeiro que João escreveu contando sua história. Em 1984 ele havia publicado o livro “Erro de Pessoa: Joana ou João?”, da Editora Record, que contava a sua história em 232 páginas.

O livro era apresentado logo na capa como “o depoimento de um transexual brasileiro, que nascido mulher, finalmente se realizou como homem”. E é, na verdade, uma prévia do que estava por vir em Viagem Solitária e hoje é artigo raro. O preço está acima de R$ 200.

Vale dizer que naquele período o livro chegou a ser divulgado na mídia brasileira – João foi entrevistado na TV Manchete, por exemplo, – mas nunca aparecia com o rosto à mostra, dado o receio de sofrer transfobia e expor sua família. E também adotou outro nome, diferente do que ele havia conseguido retificar na documentação. Sim, João é um pseudônimo.

Em entrevista ao NLUCON, em 2012, ele disse o que motivou a não ter mais receio de mostrar o rosto. “Não. Depois de tudo o que eu já passei na vida, de um enfarto, de ver a morte, o resto é o resto. Para mim, a fama só é importante enquanto servir para divulgar aquilo que eu quero. É trazer visibilidade, não só ao transexual, mas também para todas as minorias, falar contra o preconceito, violência contra a mulher, racismo, sexismo. Estou nessa luta”.

EM PARCERIA

Em 2017, João voltou às livrarias com o livro “Vidas Trans: A Coragem de Existir”,  em parceria com outras pessoas trans de gerações mais recentes. Dentre as escritoras estão a professora de literatura Amara Moira, a advogada Márcia Rocha e T. Brant.

O livro publicado pela editora Astral Cultural volta a falar sobre a experiências pessoais de cada rum, relembrando e refletindo sobre os desafios de ser uma pessoa trans no Brasil, e com a premissa de reafirmar direitos como o nome, ao corpo e a existência.

Segundo crítica de Reinaldo Glioche, do portal IG, o livro é pedagógico e dá cativante aula de humanidade. Há inclusive ensinamentos técnicos referentes ao tratamento, como não dizer “o” travesti, mas sempre “a” travesti, pois trata-se de uma identidade femininina.

O livro pode ser comprado pela internet e varia de R$ 9,90 a R$ 40,00.

LIVRO PÓSTUMO

Em 2018, João preparou para escrever seu quatro livro: Velhice Transviada” (a editora ainda não foi divulgada). Trata-se de um livro que traz o relato de pessoas trans e travestis na terceira idade, falando sobre terem fugido a expectativa de vida de 35 anos e enfrentam os desafios dessa nova fase.

O livro tem a colaboração de outras pessoas trans idosas, orelha de Jean Wyllys e prefácio de Berenice Bento. O livro terá ainda diversas poesias no início dos capítulos.

Em entrevista ao NLUCON, ele declarou que será dividido em duas partes, sendo que os 10 primeiros capítulos falarão desde o contato de João na infância com pessoas velhas até os caminhos que percorreu para se tornar uma pessoa trans velha. Na segunda parte serão depoimentos de várias pessoas trans idosas.

“Quero dar voz à uma população que não teve direito nem de estudar e mostrar como é diferente a velhice trans da cis”, declarou. Ele soltou que um dos depoimentos é o de Rogéria, que faleceu no último ano e de diversos militantes conhecidos. “Será um livro inédito na literatura brasileira, já que só existem teses”, finalizou João.

A pré-venda do livro ainda não foi divulgada, mas já há busca por ele nas redes sociais e em nosso site. Mais uma prova da contribuição de João na luta em prol do conhecimento, dos direitos das pessoas trans e contra a transfobia.

DESPEDIDA

João W. Nery é ícone do movimento de homens trans e morreu nesta sexta-feira (26) aos 68 anos, vítima de câncer em um hospital de Niterói, Rio de Janeiro. Ele deixa a esposa, Sheila Saleswi, um filho e uma legião de amigos, fãs, admiradores e um legado de luta em prol dos direitos humanos.

Desde 2017 ele enfrentava a batalha contra o câncer e, em setembro deste ano, afirmou publicamente que o câncer havia chegado ao cérebro. No comunicado, chegou a pedir para que homens trans não deixem a luta e que sejam mais unidos.

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