Pride Realidade Uncategorized

Afastada por transfobia, militar Bruna Benevides ganha na Justiça direito de voltar à Marinha do Brasil

bruna benevides1

A sargento Bruna Benevides, de 39 anos, ganhou na Justiça o direito de ser reinserida ao quadro de funcionários das Forças Armadas Brasileiras, a Marinha do Brasil. Ela recebeu a informação nesta quarta-feira (07) e declarou ao NLUCON que está muito emocionada com a conquista.

Há seis anos,  quando  revelou ser uma mulher transexual / travesti ao seu comandante superior, ela foi afastada de suas funções, sendo considerada “incapaz para Marinha por ser transexual” e tendo imposta uma reforma (espécie de aposentadoria por invalidez). Ela não aceitou a foi à Justiça pelo direto de trabalhar.

“Quais as limitações laborais que eu tinha? O que impunha que eu não pudesse desempenhar funções como militar? Eu não tinha nenhuma questão física e nem psíquica. Foi horrível, eu me senti a pior pessoa do mundo. Eu saí de casa aos 17 anos para me dedicar à Força e no final estava sendo dispensada porque estava usando saia — questiona. — A questão é burocrática e social. Quem tem um transtorno (de adaptação) não sou eu, são as forças armadas”, declarou Bruna ao jornal O GLOBO em junho deste ano.

Bruna já havia conseguido uma liminar favorável e a Marinha foi proibida de aposentá-la. A 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da Segunda Região negou o recurso.

Agora, a Justiça determinou que Bruna, não só seja reinserida em suas funções ao seu respectivo Corpo e Quadro, como também tenha o seu prenome Bruna e o gênero feminino na Folha de Alterações, sistema de informação de dados, cadastros e formulários. Determinou ainda a emissão de nova carteira de identidade militar com os dados retificados.

O período em que Bruna foi afastada foi justificado por tratamento de saúde, com fundamento na classificação F 64.0 (CID10). Porém, a Justiça determinou que seja afastada a motivação da transexualidade como doença incapacitante que impeça o exercício das atividades militares. Trata-se de uma grande conquista para a comunidade trans e travesti do Brasil, que ao longo da história foram aposentadas de seus exercícios quando se revelavam trans.

*Vale dizer que utilizamos “sargento” no texto porque, segundo Bruna, a profissão não flexiona gênero.

45219025_2275183859218296_8968780128033177600_n
Bruna Benevides foi afastada da Marinha após dizer ser mulher trans

REVOLUÇÃO EM CONSTRUÇÃO

Bruna é cearense e afirma que viveu uma infância e adolescência marcada por violações. Aos 17 anos, veio sozinha ao Rio de Janeiro para tentar uma vida melhor e entrou na Escola de Aprendizes da Marinha. Neste período, ela se dedicou inteiramente ao trabalho e abriu mão de ser quem era por sobrevivência.

Ainda que tivesse consciência da mulher que era, sabia que grande parte da população trans e travesti tinha na prostituição a única fonte de renda (a ANTRA estima que cerca de 90% da população trans e travesti se prostitui, muitas por imposição, não opção) e dos altos índices de transfobia no Brasil (segundo a Transgender Europe o Brasil é o país que mais mata a população trans em todo o mundo em números totais).

Porém, se na Marinha ela desenvolvia um papel socialmente aceito, em sua privacidade ela dava voz e seguimento à mulher que sempre foi, mas que esteve reprimida. Tomava hormônios, usava laser e contribuía cotidianamente para sua verdadeira identidade. Segundo Bruna, “ser trans é uma construção de vida”. Até que ela resolveu dizer ao mundo que é Bruna e sofreu as represálias do trabalho.

“Eu não sou coitada, nunca fui e não vou reivindicar este lugar. Esta revolução que está acontecendo não começou com a Bruna e não termina agora. Ela continua em construção”, afirma Bruna à Agência Patrícia Galvão, referindo-se a outras militares trans que tentaram seu lugar nas Forças Armadas, mas que a única possibilidade foi a de se aposentar.

Desde então, militar também se tornou verbo na vida de Bruna. Ela se tornou militante do movimento organizado LGBTI, integrando a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (a Antra), o Grupo TransDiversidade Niterói e desenvolvendo ações para a população trans e travesti, bem como um cursinho preparatório para o ENEM. Com a conquista na Justiça e volta ao trabalho na Marinha, ela sabe que a luta em prol dos direitos humanos continua.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.