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Cozinheiro trans Erick Witzel diz que fará oposição ao pai governador do RJ e que se inspira em Marielle Franco

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O cozinheiro Erick Witzel, de 24 anos, viu nestas eleições o seu nome – e a sua transgeneridade – sendo divulgados publicamente. O responsável foi Wilson Witzel (PSC), governador eleito pelo Rio de Janeiro e pai de Erick, que quebrou a promessa feita nos bastidores e usou o assunto na campanha. Alvo de ataques e muitas fake news, o jovem tem usado a exposição para fazer oposição ao pai e defender os direitos humanos.

“Daquela declaração até hoje, eu ‘ganhei um rosto’, um rótulo de filho trans do governador eleito. E não paro de receber ofensas e ameaças constantes no meu Instagram. Muitas vezes de perfis falsos que se dizem eleitores do meu pai, que falam que eu sou a vergonha da minha família, me mandam voltar para o armário, dizem que vão rir quando eu for parar no caixão”, diz Erick, em entrevista ao UOL.

Com os holofotes e alvo, o cozinheiro afirma ao jornal O GLOBO que “se sentiu usado na campanha”, que não ligou para parabenizar o pai pelas eleições e aproveitou então para criticar Wilzel, as ações e as propostas. “Não concordo em nada (com as propostas)”, respondeu Erick aos seus seguidores no Instagram, lamentando o resultado das eleições e o momento de retrocesso. “O maior problema” que afeta os direitos das populações consideradas minorias “é toda a bancada conservadora que não para de crescer”.

O governador e ex-juiz federal é alinhado a Jair Bolsonaro (PSL) e diz, por exemplo, que lutará contra a ideologia de gênero – uma luta contra os direitos da população trans, dizendo à população que existe um projeto para transformar meninos em meninas e meninas em menos – o que na verdade não existe. Ele também diz que policiais militares têm autorização para atirar e abater pessoas com fuzil. E participou da manifestação que quebrou a placa da vereadora Marielle Franco (PSOL), que foi assassinada no último ano. Posteriormente, ele pediu desculpas aos familiares da deputada.

“O Brasil não tem pena de morte, como se propõe executar alguém sem julgar esta pessoa? Quem vai morrer com essa política? O que me pega nessa declaração é a incoerência. Como um cristão, candidato por um partido cristão, propõe isso? E o princípio de ‘não matarás”?, questiona ao UOL. Já sobre a destruição da placa Marielle Franco, Erick diz que se decepcionou. “Naquele momento pensei: ‘eu perdi o meu pai. Qualquer resto de humanidade dele se perdeu ali. Foi uma violência. Foi como se eles rasgassem a luta de todas as minorias pelas quais a Marielle lutou”, conta ele, que se sente representado e inspirado pela vereadora.

Aliás, depois de muito tempo sem levantar bandeira e diante de toda a exposição involuntária em que foi submetido, Erick declara que passou a se interessar em participar mais ativamente da militância. “Sempre fui muito receoso, me expunha pouco. Hoje vejo o quanto era infeliz por não levantar essa bandeira. Meu amigo, eu sou a bandeira que eu represento. Levantar a minha bandeira é me levantar. Com a morte da Marielle eu entendi isso”, frisa.

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Erick define a relação com o pai como “fria e distante até aquele momento, mas pacífica”. Eles se viam duas ou três vezes no ano e trocavam algumas mensagens pelo celular. “Nunca foi um relacionamento de carinho, íntimo. Ele não dava a mim a mesma atenção dada aos meus irmãos. Mas verdade seja dita, ele nunca se manifestou contrário à minha mudança de gênero. Pelo contrário. Na única vez que conversamos sobre esse assunto, ele, vendo minhas mudanças corporais, perguntou como eu gostaria de ser chamado. Respondo que, dali em diante, meu nome era Erick e ele respeitou”.

Apesar disso, o cozinheiro lembra que Wilzon já se pronunciou lutar contra a “ideologia de gênero” e acredita que possa haver de fato uma “caçada à população LGBT” no país. “Vou usar a pequena exposição que recebi para ser essa voz. Vamos ocupar as escolas, universidades, espaços públicos para mostrar que as pessoas podem ser o que elas quiserem”, diz. “Serão tempos de muita luta, de resistência. Serei oposição até o final. Vou fazer essa oposição de maneira mais pacífica que puder, é claro. Eu acredito na luta da paz, na mudança de ideias e, a partir disso, mudar as pessoas”, defende.

Erick afirma que, por toda a exposição, ele chegou a precisar se licenciar por três semanas do restaurante em que trabalha e que tem contado com o apoio da mãe, do irmão (por parte de mãe) e de várias pessoas que se identificaram e se simpatizaram com a luta. “Também recebi inúmeras mensagens de apoio, de pais de filhos transgêneros me apoiando, de outros jovens dizendo que viam em mim um exemplo de luta. Isso é muito gratificante”, finaliza.

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