Assassinato da travesti Jéssica Gonzaga (Priscila) em SP foi iniciado por xenofobia; acusado está preso

Jéssica Gonzaga recebeu três facadas de agressor

O assassinato da travesti Jéssica Gonzaga, inicialmente identificada como Priscila, de 25 anos, no dia 16 do último mês, teria iniciado por xenofobia – preconceito baseado nas diferenças de origens geográficas. É oque afirma o delegado Roberto Krasovic, titular do 3º Distrito Policial (DP), Santa Ifigênia, que prendeu o acusado no fim de outubro.

Segundo o delegado, o acusado, Armando Villa Real Filho, de 28 anos, fez comentários preconceituosos contra pessoas que são de Goiás em um bar no centro da cidade. Jéssica, que era natural de Goiânia, demonstrou descontentamento como que ouviu e foi tirar satisfações. Posteriormente, foi agredida, esfaqueada e morta pelo homem.  

“Tanto o agressor quanto a vítima estavam em grupos separados, bebendo num bar. Em seguida discutiram. O homem seria preconceituoso com quem vem de Goiás e a travesti não gostou e foi tirar satisfações com ele.  Aí o sujeito foi para a pensão onde mora com outra travesti, pegou uma faca e voltou ao bar. Ele voltou a discutir com a vítima e a esfaqueou três vezes”, declarou o delegado.

A polícia informa que as câmeras de segurança registraram parte da discussão em frente ao bar, mas que não há o momento das facadas. A vítima conseguiu caminhar meia quadra até um hotel próximo, onde pediu socorro. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros foram acionados e a vítima morreu a caminho do Pronto-Socorro da Santa Casa. Ela estava sem documentação, o que dificultou a sua identificação num primeiro momento.

O acusado foi identificado dias depois e preso. Ele será indiciado por homicídio qualificado por motivo fútil.

“ELE SIM”

No período em que o crime ocorreu, testemunhas disseram que escutaram gritos de “Bolsonaro” e “ele sim”, sendo cogitado um caso de assassinato motivado por transfobia e motivação política. Episódios semelhantes ocorreram durante toda a eleição de 2018, tanto de agressões quanto de homicídio.

O delegado afastou as duas hipóteses, apesar de ter declarado que uma testemunha reafirmou em depoimento ter escutado os xingamentos, mas que não viu o momento em que a vítima foi esfaqueada.

“Ela estava com quatro ou cinco homens em frente ao bar. E daí eu comecei a ouvir gritos, uma discussão, uma briga. Chamavam ela de vários nomes, agressões verbais, e gritavam ‘Bolsonaro'”, havia dito uma testemunha ao G1.

Outra pessoa contou à reportagem que chegou a ouvir gritos de “Bolsonaro, ele sim” durante a discussão. A hipótese levantada é que os gritos podem não ter sido do acusado pelo acusado do assassinato, mas que foi dado por outras pessoas que presenciaram o crime.

Vale dizer que a referência a Bolsonaro se dá porque, durante o trabalho como deputado, ele se posicionava contra os direitos da população LGBT e deu discursos que são designados como LGBTFóbicos e que incitam a violência contra essa população. O presidente eleito disse, todavia, que não se responsabiliza pela violência cometida em seu nome.  

PRISCILA OU JÉSSICA?

Após o crime, foi divulgado nas redes sociais que o nome da vítima era Priscila. Porém, como foi encontrada sem documentação, não foi possível confirmar o nome de registro e tampouco o nome social que ela usava.

Jéssica chegou a ficar no Instituto Médico Legal para ter o corpo identificado e não ser enterrada como indigente. Posteriormente, a família foi localizada e uma prima informou que o nome social dela era Jéssica e que ela era natural de Goiânia, Goiás.

A vítima teria vindo a São Paulo para ganhar dinheiro e realizar as intervenções cirúrgicas em seu corpo, como próteses de silicone a cirurgia de redesignação genital. 

Ela foi sepultada no dia 26 de outubro no cemitério São Luís, na Zona Sul da Capital Paulista.

MANIFESTAÇÃO

No dia 21 de outubro, foi realizado no Largo do Arouche, em São Paulo, uma manifestação em prol de Jéssica – que até então era identificada como Priscila –e Laysa Fortuna, que foi assassinada em Aracaju por um homem que também teria mencionado o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

O vereador Eduardo Suplicy, presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara Municipal de Vereadores de São Paulo, afirmou que”foi um crime bárbaro”. “Eu, como presidente da CDH, vou propor e chamar uma audiência pública para que possamos ouvir testemunhas do crime, o delegado responsável pela investigação e a sociedade civil interessada”.

A deputada Estadual Erica Malunguinho, a primeira trans eleita Deputada Estadual em São Paulo, discursou contra o fascismo, a LGBTfobia, o machismo e a misoginia. “Somos uma sociedade com base no barbarismo, quehistoricamente exterminou e extermina negrxs, mulheres e LGBTs, e perseguem a comunidade religiosa afrodescendente. Isto precisa parar”.

Organizado pelo Coletivo Arouchianos, o ato “Priscila e Laysa vivem: Ato em memória delas e por justiça! contou a participação de outros coletivos e movimentos da sociedade civil de São Paulo e reuniu cerca de 2 mil pessoas.

Ato em SP pedindo justiça por Jéssica e LaysAto em SP pedindo justiça por Jéssica e Laysa

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