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Saudade: Relembre reflexões, relatos e contribuições de Apolo Pinheiro nas redes sociais

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Crédito: Bianca Vasconcellos

O cantor, músico e militante trans Apolo Pinheiro (1989-2018) sempre foi atuante nas redes sociais. Ele as usava tanto para divulgar seus trabalhos musicais, vídeos e fotos, quanto para refletir sobre a vida, expor momentos, criticar situações, se posicionar politicamente e militar.

Relendo algumas postagens, o NLUCON encontrou um rico e importante material que ajuda a entender um pouco quem foi Apolo, as subsídios que deu falando sobre a visibilidade dos homens trans e os questionamentos que contribuíam para novas perspectivas e possibilidades.

Decidimos trazer algumas destas postagens para que sirvam de inspiração, homenagem, reflexões e que também possam matar a saudade de quem o acompanhava diariamente e já está está morrendo de saudades.

Apolo estava internado desde o dia 2 de novembro devido a um vírus raro e não identificado no cérebro, no Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo. Ele sofreu uma parada cardíaca no dia 9 de novembro e não resistiu ao ter complicações. Na sexta-feira (16) os aparelhos foram desligados.

Seguem as postagens:

Quando revelou ser homem trans (26 de abril de 2017)

Eu me assumi homem trans! E resolvi ser por fora o que sempre fui por dentro. A minha essência é a mesma, a minha pessoa também. Não vou ficar bravo com as pessoas que ainda tem dúvidas sobre o assunto, ninguém nasce sabendo nada, por isso sempre deixo livre para me perguntar o que for necessário. Já perdi muitos seguidores, não me importo com isso. Eu estou feliz como nunca estive e isso nada paga, nada compra. É isso gente, simples e com amor. É isso. Eu continuo cantor. Ainda falo de amor. Mas é que eu precisava ser por fora. O que por dentro eu sou”.


Refletindo sobre masculinidade (21 de setembro)

Quando me descobri homem trans, o conceito sobre masculinidade era muito estereotipado, distorcido, tóxico. Não pode ter o cabelo grande, não pode usar rosa, não pode ser delicado, sensível, tem que ser grosso, machista, violento. Caí nessa armadilha algumas vezes e todo dia vejo muitos caírem. O conceito de masculinidade é algo tão tenso que me fez questionar várias vezes se eu teria que escolher entre expor minha identidade e ser obrigado a me colocar dessa maneira babaca, ou negar minha identidade porque jamais me respeitariam como homem se eu não fosse assim.Demora um tempo pra perceber o quanto aquilo é tóxico pra todos nós, seja trans ou cis.

Minha masculinidade não está em uma cor, não está na minha sensibilidade, no meu cabelo grande. Ela está dentro de mim naturalmente, sem precisar forçar algo que não sou só pra provar pra alguém. Quando você é alguém, você é e pronto, naturalmente. Querer forçar estereótipos ou atitudes escrotas só diz o quanto você é inseguro com você mesmo. Você passa a ser apenas uma porção de atitudes que muitas vezes só fala sobre seu caráter e sobre uma auto-percepção completamente errônea.


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A revolta com fascistas roqueiros (25 de outubro de 2018)

“Dos Minions os que mais me preocupam são os roqueiros. Alguém fala pra esses estrume que rock é resistência, não tem nada a ver com o fascismo, tá dando vergonha alheia num grau absurdo”


Sanidade a amor (25 de julho de 2018)

Com podem assim me cobrar sanidade nesse mundo cheio de gente louca cheia de ódio?! Minha insanidade afeta a mim, minha música, minha cabeça e afeta positivamente. Minha insanidade escreve versos de paz, minha loucura é tentar provar que o amor supera tudo, tudo, TUDO MESMO. Fiquem vcs com a sanidade de desejar armas, de desejar o mal, de não ajudar o mundo com nada de bom. Prefiro ser louco mesmo.


Superações na vida e carreira (7 de março de 2018)

Quando tinha 17 anos fui rumo ao centro da cidade pra trabalhar, sempre quis trabalhar no centro, parecia tão legal aquela correria, aquela diversidade de gente. Meu primeiro trabalho foi como panfleteiro. Eu pegava os panfletos em um prédio na 7 de abril e ia para os bairros do centro entregando de casa em casa, andava das 8 da manhã às 18 da tarde.

Tudo parecia tão distante naquela época, tão impossível, que era difícil sonhar. Como sonhar em fazer música sem ter dinheiro pra comprar um violão elétrico, andar de avião se eu mal tinha 10 conto pra almoçar. O tempo passou e eu fui trabalhando de diversas coisas, entreguei panfleto, vendi plano de saúde, trabalhei na rua como estátua viva, etc.

Ganhei um violão elétrico, marquei o primeiro bar na época do Orkut ainda haha. Eu nunca contei pra ninguém, mas a primeira vez que toquei em um bar, eu estava tão nervoso, tão inseguro, com tanto medo que a cada música que eu cantava, pensava que desculpa iria dar pra não cantar mais na segunda parte do som. Fiquei pensando em inventar uma dor de barriga, pressão baixa, dor de cabeça, seila, eu estava tão nervoso que mal conseguia cantar tremendo, eu queria ir embora mas não queria, aquele era meu sonho.

Continuei, vai tremendo mesmo.

Senti que não estava preparado e dei um tempo da música, quando voltei marquei outro bar, era um bar tão pequeno que mal cabiam 15 pessoas, boteco sabe, buteco mesmo, que costumam ficar bêbados cantando sertanejo, só iam amigos meus, eu pegava dois ônibus com um amplificador em um carrinho, mochila com cabos e Mic nas costas, pedestais amarrados tbm nas costas, violão e minha pasta de músicas, fazia isso todo sábado, fui pegando confiança. Um dia fiquei com medo de novo, pensei comigo “é isso que quero fazer, o que sei fazer, não estou nem aí se vão gostar, vou tocar pra mim, pra me dar paz” e tudo fluiu. Quando fui ao Faustão fiquei tão nervoso que mal consegui falar com ele, em todo programa que eu ia só sabia ficar  calado e novamente me veio o mesmo pensamento “que se dane o que vão pensar de mim, esse sou eu”.

Já dormi em rodoviária, já dormi na rua, já me meti em cada roubada, que duvidei que chegaria até aqui, viajando por todo Brasil, fazendo amigos, fazendo um som. Em 10 anos de musica aprendi que “não sei nada” fui deixando o vento me levar, acreditando no universo cegamente, me ferrei muito, mas hoje tudo valeu a pena. Aprendi que a palavra chave pro sucesso em qualquer coisa é “humildade”


O amor (6 de fevereiro de 2018)

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Transfobia (5 de março de 2018)

Quero falar hoje sobre como não consegui trabalhar quando dei uma pausa da música. Após anunciar minha transição, perdi milhares de seguidores, produtores e tinha que dar um tempo da música, para só depois recomeçar com meu nome de verdade, de amor e escolhido por mim, Apolo.

Nesse meio tempo voltei a trabalhar com agências de atores/modelos como sempre trabalhei a vida toda antes da música. Ou quase trabalhei, já que a maioria das vezes não me mandaram pra job algum, comecei a perceber que quando mandavam na descrição do meu perfil tinha o carimbo “homem trans”, até então problema nenhum desde que em um homem cis mandassem “homem cis”.

Eu não tenho problema nenhum em todo mundo saber que sou trans, o problema está na falta de informação. Eu, ou qualquer outra pessoa trans somos pessoas comuns, pessoas que convivem no seu dia-a-dia, no banheiro, nos shoppings, nas praças…

Quando enviava meu perfil, minha esposa Carol também mandava, afinal somos os dois muito tatuados e temos um perfil específico, ela passava, eu não, até aí tudo bem, o engraçado era ela chegar no job e ter inúmeros homens com o meu perfil. Então descobrimos isso, que eu não era enviado como um homem comum que sou, era enviado como trans, como um quase homem, como um “olha, parece homem mesmo”. Lembrando novamente que não tenho problema nenhum em dizer que sou trans, na maioria das vezes eu mesmo falo que sou, é justificável me enviar como trans se no perfil dos outros constar “cis”.

Vocês que trabalham em agências, convivem o tempo todo com o público LGBT, vocês precisam sim se informar e saber o mínimo do mínimo sobre esse público, o meio artístico tem em sua maioria gays, lésbicas, bissexuais, pessoas trans, vocês dependem desse público, saibam mais sobre eles. Para finalizar, graças a Deus voltei para a música e pra minha surpresa muitos produtores que eu achava que não trabalhariam mais comigo pela minha identidade estão fechando grandes trabalhos, sou imensamente grato por isso. Leiam mais galera, se informem, informação é vida.


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Família  (21 de dezembro de 2017)

Eu dei a sorte na vida que infelizmente muitos não deram, minha família. No pior momento de crise não fizemos uma limonada, a gente encheu um carro de banana e foi vender na rua ‘juntos’, construímos uma casa do zero, tiramos terra, carregamos mt cimento, mas sempre juntos.

Tivemos nossos problemas (quem não tem?) mas permanecemos juntos. Com menos de 10 anos de idade eu ja trabalhava de eletricista com meu pai, que me ensinou tudo que sei hoje e minha mãe que é a mulher mais sensacional que conheço. Minha família é essa, mãe, pai, irmã, sobrinha e minha mulher, que aos trancos e barrancos, estamos juntos ❤

Foto maravilhosa que mais marcou meu ano de 2017 por : Bianca Vasconcellos


Aerosmith me salvou (27 de setembro de 2017)

Dias atrás, realizei o sonho da minha vida. O maior sonho da minha vida era estar frente a meu maior ídolo Steven Tyler frente a banda Aerosmith. A maior inspiração pra minha vida, pra minha carreira, minha inspiração pra tudo.

Eu fiquei emocionado desde o primeiro momento em que aquela pessoa pisou no palco, foi um momento surreal pra mim, parecia outra dimensão, arrisco dizer que foi o melhor momento que já tive até hoje na minha vida. O Aerosmith me salvou da loucura de ser eu mesmo.

Por muitas vezes na minha adolescência, em momentos difíceis da minha vida, ficava no escuro, perdido em meus próprios pensamentos, aquela música, ‘dream on’ fazia parte do meu sonho acordado, ficava imaginando se um dia eu faria música, se um dia eu chegaria aos meus sonhos, e aquela música ficava repetindo no meu ouvido. SONHE, SONHE, SONHE, ATE QUE SEU SONHO SE REALIZE.

Eu sonhei tanto, desanimei tanto achando que meu sonho não chegaria e me olho hoje realizando vários deles. Essa música fez parte da minha vida como nada nunca fez.  Esse sonho não seria possível sem a ajuda de uma fã e amiga ‘Cris’ MT obrigado de todo coração por isso, não faz ideia do bem que me causou.


Em 5 de junho ele disse que amava o deboche. Amava mesmo… 


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