Atriz trans Fernanda Kawani Custodio interpreta homem cis no espetáculo “Cárceres da Consciência”, em SP

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Fernanda Kawani como Coronel Ciborgue (Crédito Laysa Alencar)

A atriz Fernanda Kawani Custodio se prepara para um dos maiores desafios de sua carreira: interpretar um personagem homem cis na peça “Cárceres da Consciência”, que estreia neste sábado (17), no Satyros, em São Paulo. Ela, que é uma mulher trans/travesti, até então só havia interpretado personagens trans/travesti.

“Nas seis peças anteriores eu interpretei personagens trans, com diversas questões sociais, mas que de alguma forma estavam próximas de mim. Agora eu estou vivendo um homem que vai contra tudo o que eu acredito, é machista, vai contra tudo o que eu sou, então me traz um desafio e trabalho maiores”, declara.

“Quanto às questões de gênero, eu sou bem resolvida há mais de 10 anos, pois me identifico como mulher há muito tempo. Inclusive um diretor ficou surpreso quando, numa roda de amigos, eu interpreto um corintiano que é gay, mas que na frente do pai faz de tudo para esconder. Ele achou demais eu, sendo uma mulher trans, não ter maiores dificuldades de ter um personagem masculino. Eu sou uma mulher que pode fazer esse personagem”, pontuou.

Dirigido por Samira Lochter, o espetáculo da Faz Centro de Criação é ambientado entre 1968, ano em que foi realizado o primeiro transplante de coração, e o pós-apocalíptico 2068, ano em que prevalece a supremacia das inteligências artificiais e que será realizado o primeiro transplante de consciência.

O personagem Vince, vivido pelo ator Guttervil Guttervil, é a primeira pessoa a ser cobaia.  Já Fernanda dá vida ao Coronel Ciborgue, responsável pelo experimento. O transplante ocorre através do princípio ativo da música, mexendo no espaço e tempo, e levando-o a ser prisioneiro de sua própria consciência e instabilidade emocional. “É uma metáfora e é uma crítica. Para não dar spoiller, só posso adiantar que falamos sobre pontos de fuga”, diz ao NLUCON.

INTERPRETAR QUALQUER PERSONAGEM

De acordo com a atriz, o personagem homem cis vivido por uma atriz trans visa cogitar e apontar para o próximo passo do manifestos em prol da representatividade trans, que denuncia assimetria histórica de artistas cis sempre serem escalados para interpretarem personagens trans, quando artistas trans poderiam interpretar tais papeis e sempre serem preteridos. Fernanda quer mostrar sobretudo que artistas trans podem interpretar qualquer papel.

“Pensamos no próximo passo. Será que, ao sair dessa assimetria, artistas trans vão ficar restritas a só interpretar personagens travestis/trans? Sair de uma caixa e entrar em outra? Por que não podemos interpretar uma personagem cisgênera? Uma mulher trans parece ser uma possibilidade. Mas queremos mostrar que, enquanto artistas, podemos interpretar qualquer papel, inclusive de um homem cis ou, bem como ocorre numa peça Antoniana, em que uma mulher interpreta um macaco”, defende.

Fernanda frisa que é preciso se atentar que artistas trans são artistas, querem e dependem do trabalho. “O meu trabalho são as artes. Eu quero viver, fomentar a minha vida por meio do trabalho e ser feliz. Não é só representatividade, é representação. Existe todo um trabalho, atuação, estudo e a avaliação deve ser feita pela atriz que está atuando, e não apenas pela representatividade que ela tem. Eu observo que há muitas meninas trans que são excelentes artistas, mas que acabam tendo seus talentos perdidos, porque tudo fica muito restrito”.

A atriz e diretora Luh Mazza declara, por meio do release da obra, que “Cárceres da Consciência” é uma grande oportunidade para todos idealizarem um futuro que transcenda o sexo dos atores, seja incluindo os corpos ditos dissidentes no teatro profissional, avançando rumo a naturalização destas presenças em cena. “Olhemos o trabalho de Fernanda Kawani Custódio ao lado de Guttervil Guttervil como fruto de um laboratório desta mulher que dará vida cênica a um homem nesse espetáculo onde não só apenas sua identidade, mas também seu talento para a composição de personagem seja o centro das atenções”.

Confira algumas personagens de Fernanda: 

Ficha técnica

Realização FAZ Centro de Criação

  • Ideia original e pesquisa | Thadeu Vivas e Thiago Vivas
  • Texto | Criação Coletiva
  • Direção | Samira Lochter
  • Elenco | Guttervil Guttervil e Fernanda Kawani Custodio
  • Voz em off | Beto Bellini e Samira Lochter
  • Coordenação de Produção | Erika Barbosa Bellini
  • Coordenação de Criação | Beto Bellini
  • Direção de Arte | Thiago Capella Zanotta
  • Cenário e Desenho de Luz | Thiago Capella Zanotta
  • Figurinos | Erika Barbosa Bellini e Fernanda Kawani Custódio
  • Programação visual | Danilo Amaral
  • Produção Executiva | Produtora 2por1
  • Fotografia | Laysa Alencar
  • Assessoria de Imprensa | Bemelmans Comunicações
  • Contador | Wagner Lima
  • Proponentes | Wagner Santos e Cleia Regina Santos
  • Patrocínio | Gerresheimer e ProAC ICMS

Serviço:

Espetáculo Teatral |  Cárceres da Consciência
Estreia |  17 de novembro, sábado, às 21h
Término da Temporada | 16 de dezembro 2018, domingo, às 19h
Local | Espaço Satyros Um
Praça Roosevelt, 214
Tel | (11) 3258 6345
Dias | Sábado às 21h e Domingo às 19h
Duração | 50 minutos
Gênero | Surrealismo e ficção científica

Ingresso | R$ 40,00 e meia entrada (preço especial para moradores da Praça Rossevelt a R$ 10,00, mediante comprovação de endereço). Pessoas trans e travestis não pagam.

Classificação indicativa | 12 anos.

 

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