Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo, diz novo relatório da TGEU

bandeira trans1

O Brasil ainda é o país que mais mata travestis, pessoas trans e não-binárias de todo o mundo*. É o que confirma mais um relatório da ong internacional Transgender Europe (TGEU), que mapeia 72 países e denuncia a transfobia. *Dados se referem aos números totais de assassinatos.

Segundo o relatório, o Brasil teve 167 pessoas trans e travestis assassinadas nos últimos 12 meses, contados entre 1º de outubro de 2017 e 30 de setembro de 2018. O segundo lugar é México, com 71 vítimas, seguido pelos Estados Unidos, com 28, e Colômbia, com 21.

O Brasil ocupou o primeiro lugar nos três primeiros relatórios, sendo que teve 171 mortes (entre 2016 e 2017) e 136 (entre 2015 e 2016). Os dados brasileiros são obtidos por meio do mapeamento feita pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e IBTE (Instituto Brasileiro Trans de Educação).

No total, foram contabilizados 369 assassinatos no mundo contra pessoas trans, tendo um considerável aumento nas últimas pesquisas: 44 casos (nos assassinatos entre 2016 e 2017) e 74 anos (entre 2015 e 2016). A ong destaca que 62% dos casos as vítimas estavam inseridas na profissão do sexo.

O relatório foi divulgado devido ao Dia Internacional da Memória Trans, nesta terça-feira (20).  A ong declara que o objetivo é promover a “conscientização sobre os crimes de ódio contra pessoas trans” para “honrar a vida daqueles que não devem ser esquecidos”. A ong diz ainda que o estigma e a discriminação impedem o acesso a direitos básicos e ao trabalho formal.

ESTADO IGNORA

Bruna Benevides, autora do Relatório dos Assassinatos de Travestis e Transexuais Brasileira da ANTRA em 2017, membro da Rede Nacional de Segurança Pública LGBTI e autora da Cartilha de segurança Pública para LGBTI/2018, defende que os dados não cessam ao longo dos anos, apesar dos levantamentos, porque há um descaso e omissão do próprio estado para o combate a essa violência.

“Numa matéria sobre o Ceará saiu que havia 0% de mortes oficiais em relação a 2017, mas todos sabem que o Ceará é o que mais mata trans com casos bizarros. E como eles não reconhecem esses dados? A quem ameaça esses dados? Eles têm a morte, nós temos a informação de que são LGBT, porque não cruzar os dois e reconhecer essas mortes?”, questiona.

Outros pontos levantados por ela é a certeza da impunidade dos assassinos, a LGBTfobia estrutural que ignora dados, manipula investigações e os julgamentos que muitas vezes liberam o acusado pelo crime. Bruna defende ainda que sem uma lei que criminalize tais crimes as pessoas se sentem seguras para matar pessoas trans e travestis.

“E mais ainda agora, legitimadas pelo discurso de ódio do futuro presidente. Temos uma percepção: desde o início de sua atuação, quanto mais ele falava contra LGBTI, mais crimes aconteciam na mesma época de suas falas. E foi o que vimos no período eleitoral. Aumento de violência contra populações historicamente vulnerabilizadas, inimigas do ‘cidadão de bem’”, afirma.

bruna benevides1
Bruna Benevides: “Matar travesti é parte do projeto de limpeza social”

15% DAS MORTES NÃO SAÍRAM NA IMPRENSA

O levantamento se baseia nos casos que foram divulgados pela grande mídia, redes sociais ou por informações de redes afiliadas. Levando-se em conta que há muitos casos subnotificados e muitos que não se tornam reportagens, os números podem ser muito maiores.

A militante afirma que não sabe dizer se realmente há um aumento dos casos de assassinatos ou se cada vez mais os mapeamentos chegam próximo ao número real. “Antes, nem mesmo respeito ao nome social era possível. Hoje houve um aumento pelo facilitar a busca ativa dos assassinatos, como o respeito a identidade de gênero. Acreditamos que sempre aconteceram muitos assassinatos e que há ainda muita subnotificação”.

Segundo ela, cerca de 15% dos assassinatos que estão no levantamento não saíram nos noticiários. “Por qual motivo? Não vende. Matar travesti é parte do projeto de limpeza social, resquício da ditadura e a política de caça aos indesejáveis. Pretos, pobres, travestis e demais que desafiam o CIStema. Os números vem aumentando a cada ano e acredito que devam acirrar neste período”.

O QUE ESTÁ SENDO FEITO?

Se antes os relatórios expunham apenas números, a ANTRA e o IBTE estão utilizando o relatório como denúncia. “Nunca, em mais de 30 anos de mapeamento de dados, um relatório havia sido entregue à ONU ou a outro órgão internacional. E neste ano entregamos na ONU e na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Isso é um marco. Na visita da CIDH, cobramos uma devolutiva e o relatório está em análise”.

Uma das ações foi o lançamento da Cartilha de Segurança Pública – confira aqui– que orienta profissionais da segurança pública no tratamento a pessoas LGBT. “Porque no imaginário das pessoas e pela própria atuação da PM, fica claro que ela esta para a defesa do estado e não do cidadão. As pessoas têm medo da policia, exatamente como era na ditadura. Mas de qual cidadão estamos falando? Porque nossa cidadania ainda não foi reconhecida pelo estado. Somente em 2018 passamos a ter direito ao nome. O que é ainda muito primário para o resgate de nossa cidadania plena”.

cartilha de segurança pública lgbt
Cartilha de Segurança Pública e LGBT

Bruna revela que, se antes existia dificuldades, agora o trabalho será maior com Jair Bolsonaro eleito presidente. Tanto pelos cortes no orçamento e nas políticas de austeridade, quanto as medidas se segurança pública que podem ser implementadas e atingir diretamente as travestis e transexuais que trabalham na rua como profissionais do sexo. “É o local onde mais ocorrem os assassinatos, com cerca de 60% de incidência. Essas políticas podem causar perseguição, bem como fez (João) Dória no ano passado (em São Paulo) ou ainda mais violência e mortes por parte do estado”.

Diante do cenário, a militante revela que o principal objetivo é pensar em formas de proteger a população trans e incentivar que se efetive as denúncias. “Sem as denúncias o movimento social fica sem ter como atuar”, declarou.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.