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Ativista Anick fala sobre invisibilidade intersexo e cirurgia que reconstruiu seu pênis

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“Estou descobrindo a minha tribo”, diz Anick. (Foto: Reprodução BBC)

Anick é uma ativista intersexo de 23 anos que se tornou notícia no mundo ao contar suas experiências e passar por diversas cirurgias até ter reconstruído um pênis. Em entrevista À BBB News, ele afirma que forma mais de 100 procedimentos da infância à vida adulta.

Segundo a matéria, Anick nasceu com genitais que não se encaixavam nas definições médicas de sexo masculino ou feminino. Ele possuía testículos, por exemplo, mas eles estavam em uma posição diferente da maioria dos bebês. Ali, foi realizada a primeira cirurgia para que os testículos ficassem em uma posição comum.

“Os médicos disseram aos meus pais: ‘Essa criança se parece mais com um menino, mas ainda não temos certeza”, declarou. O pequeno, por sua vez, aprendeu que existia algo diferente nele, sobretudo porque era levado pelos pais ao hospital a cada seis meses, mas não sabia no quê era diferente. Era o maior mistério.

Após anos escutando de diversos médicos que era “anormal” e “atípico”, Anick tentou suicídio. Ele tinha 14 anos e era extremamente solitário. “Eu achava que ninguém sabia a respeito do que havia de diferente em mim, que eu era o único no mundo assim, apenas um caso milagroso aleatório”, declarou, passando a receber acompanhamento terapêutico

Foi só aos 18 que ele descobriu a palavra “intersexual”, seu sexo biológico, e que era por conta disso que ele passava por diversas cirurgias e tratamentos hormonais. “De repente me dei conta de que não tenho que ter vergonha de quem eu sou e de como nasci”, declarou ele. Lembrando que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 1,7% da população é intersexual. Isto é, são pessoas que podem ter diversas variações possíveis nas características biológicas sexuais, que vão desde a genitália, ovários, testículo, padrões cromossômicos e hormônios.

Ele conta que, ao falar sobre sua vida, foi bem acolhido por amigos e familiares e que em 2018 participou da Conferência da Organização Internacional de Intersexuais, em Companhague, na Dinamarca. Ele disse que a experiência foi “surreal” e que foi a primeira vez que não se sentiu como “o cara esquisito”. “Estou descobrindo minha tribo – pode soar estranho, mas é assim que eu sinto”, disse, destacando ter conhecido muitas histórias diferentes de pessoas intersexos.

Posteriormente, ele participou da Parada do Orgulho LGBT de Londres, onde conseguiu reunir cerca de 30 pessoas intersexuais. Uma das demandas é que não se faça cirurgias em bebês por avaliações estéticas ou predominantes e que se espere que a pessoa tenha maturidade para decidir, pois diversas dessas cirurgias tem resultados irreversíveis e trazem complicações na vida da criança ao longo da vida.

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UM PÊNIS

Aos 18, ele também  descobriu que poderia realizar uma cirurgia reconstrutiva para ter um pênis. Em 2016, declarou que estava pronto para a cirurgia. “Quase tive uma epifania”, lembra. Em 2017, os médicos retiraram amostras de pele do seu braço esquerdo para usar na reconstrução do pênis. Ele fez o procedimento e passou um ano até que conseguisse urinar adequadamente com o órgão.

Posteriormente, os médicos colocaram uma prótese no pênis. Caso ele queira ter sexo com penetração e ereção, Anick terá que bombear. A cirurgia teve complicação após um mês, com diversas reclamações de dores. Em agosto de 2018, ele teve que passar por outra operação, já que a prótese acabou ficando enrolada em torno de um dos testículos, causando as fortes dores.

Agora, ele ainda passa por cuidados médicos, mas diz que está melhor e que espera ter parado com as cirurgias. Pelo menos por cinco ou sete anos, quando a bomba peniada precisará passar por manutenção ou ser substituída. “Me sinto como um ciborgue. Mas pelo menos não vou ter problemas de performance sexual, com ansiedade”, reflete.

Ele declara que agora se sente mais confortável com o corpo e acredita que terá oportunidade para viver seu primeiro relacionamento amoroso. “Eu finalmente vou sentir algo mais próximo do que os outros caras sentem, e talvez eu possa experimentar o que outras pessoas fazem na minha idade. Eu sempre evitei relacionamentos por aversão ao meu corpo e autodepreciação, mas venho trabalhando para superar nisso”.

NAMORO

Anick afirma que atualmente está mais feliz por saber quem é, como está e no que pode contribuir para a luta intersexo. Ele até entrou em um aplicativo de namoro e saiu com algumas pessoas. O jovem conta que até mesmo um encontro frustrado é melhor que não ter nenhum encontro.

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“Um dos primeiros encontros não foi tão bom – saí com uma garota que disse que eu não era realmente um homem. Saí então com um cara, mas não senti nada. Estou tendo os problemas normais que as pessoas enfrentam em encontros e relacionamentos. É uma sensação agradável”, declarou.

Anick diz que está mais próximo dos pais e que entende que eles fizeram o melhor que podiam naquele momento. Ele frisa também que entendeu que não é o que sempre escutou dos médicos: “Eu sou normal, só não sou comum”.

Hoje, ele diz que espera que sua história inspire outras pessoas intersexos. “Não há uma única história de intersexualdiade, mas espero que a minha inspire outras pessoas a contarem as suas”, incentiva.

Vale dizer que o NLUCON trouxe uma das primeiras matérias falando sobre intersexualidade no Brasil. Os relatos são fortes, verdadeiros e necessários, mostrando as demandas e reivindicações da população intersexo. Confira clicando aqui.

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