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Miss Tattoo Marie Marquês diz que mundo da tatuagem é machista e transfóbico: “Resisto para transformar”

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Mariê Marques, mulher trans de 30 anos, tem cerca de 80% do corpo tatuado. Ela chama atenção toda vez que sai de casa, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. É abordada por curiosos, elogiosos ou desagradáveis. Causa frisson com a população LGBT nos rolês. E neste ano teve sua beleza trans e rabiscada reconhecida em um concurso de miss.

Ela é a primeira mulher trans a vencer um concurso de miss tatuagem no Brasil, o Miss Tattoo Place, no Tattoo Place Festival, que ocorreu em Niterói. Sua performance, com direito ao figurino de Hera Venenosa e música de MC Xuxú, agradaram aos jurados e a fizeram levar para casa a faixa e o troféu.

Mas nem tudo são flores tatuadas na vida de Marie, que trabalha como tatuadora, modelo e youtuber. Ela afirma que o universo da tatuagem – que engloba profissionais, eventos, feitas e concursos – ainda estão submersos no machismo e na transfobia. E que tem resistido bravamente para ocupar o espaço e levar a mensagem do empoderamento trans e a força da mulher.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, ela fala sobre como começou a se interessar por tatuagens, como elas tiveram um papel importante em seu processo de transição, a falta de incentivo dentro dos estúdios e os desafios que enfrenta ao ser uma mulher trans tatuada. “Apesar da própria tatuagem ser vista como marginal, eles sempre vão te olhar torto por você ser trans. Já me rotulam como puta logo de cara e tem gente que acha que mulher neste universo só serve para andar de shortinho e ser pinup”.

Confira:

– Hoje você tem grande parte do seu corpo coberto. De onde surgiu a sua vontade de fazer tantas tatuagens?

Tenho 75% ou 80% do corpo tatuado. A última vez que contei tinha 88, mas não dá mais para contar, porque muitas se uniram e hoje formam uma só. A minha família toda tem tatuagem, só o meu pai que não, pois acho que tem medo. A minha mãe tem quase 40 tatuagens no corpo. As pessoas falam: “Olha a sua idade fazendo tatuagem, 52 anos”. Só que ela é meu espelho, é empoderadíssima. É uma pessoa que tem depressão, mas é muito forte. Eu também queria quando era mais nova, mas ela não me deixava. Nesta época, eu nem imaginava que teria tantas, até que fiz a primeira.

– Qual foi sua primeira tattoo?

A primeira que fiz foi aos 19 anos, por meio de uma brincadeira. Desenhei a carinha do Mickey, com uma maquininha caseira feita com motor de carrinho, carga de caneta, fita isolante e arame. Não quis mexer nela e ela tá aqui até hoje. Falo que foi uma brincadeira de criança, pois me considero criança em duas gerações. Explico: Tive a fase da infância com os amigos, mas nós crescemos, eles passaram a sair para namorar e eu não. Eu me juntei com as crianças da outra geração depois de mim. Eu era o oposto das pessoas da minha idade. Eu só ficava dentro de casa, era introvertida e só falava de cabeça baixa. Cheguei a fazer teatro para tentar ser mais solta. Eu só estudava e fazia curso. Era muito diferente da pessoa que sou hoje.

– O processo das tatuagens também tem relação com o seu processo de se entender melhor e mulher? Aliás, você se define como travesti, mulher transexual, mulher trans?

Para mim trans e travesti é a mesma coisa, são mulheres. A única que eu diferencio é a drag, que é uma performance artística. Recentemente fiz um ensaio fotográfico em que apareço de homem e de mulher, para fazer o passado e o futuro. Muita gente disse: “Por que você fez isso?’. Vai te atrapalhar”. Mas eu sou bem resolvida.

– Dizer ao mundo que é uma mulher trans ocorreu no mesmo período em que começou a se tatuar?  

De certa forma sim. Quando eu me identificava como menino, eu só tinha o Mickey. Depois que eu me descobri trans, eu tatuei o corpo todo. A do peito é um coração alado. Tatuei as máscaras de teatro porque estudei teatro por muito tempo. As outras foram depois que eu assumi ser mulher trans. Aliás, eu não acho que me assumi, pois nunca cheguei e falei para a minha mãe. Eu cheguei devagarzinho. Eu não dormi homem e acordei mulher. Foi uma desconstrução. Foi depois que saí da casa dos meus pais que comecei a tomar hormônios. Me tornei tatuada quando me tornei Marie.

– Como é ser uma mulher trans toda tatuada em uma sociedade cheia de preconceitos?

Eu não sei o que é ser uma mulher trans sem tatuagem. Eu fico pensando como seria se eu não tivesse, mas não dá para falar. Hoje em dia eu não sei se chamo atenção por ser trans ou por ser uma pessoa toda rabiscada (risos).  A tatuagem é algo que registra e marca a personalidade da pessoa e a mulher também tem esse direito. Não vou deixar de ser quem eu sou ou de fazer o que eu quero por conta das pessoas. O mundo precisa entender que a mulher deve fazer o que ela quiser desde que faça bem para ela. Nunca foi meu objetivo fechar o corpo todo, mas foi algo que foi acontecendo. Sinal de que sou uma mulher com muitas histórias. Hoje eu deixo de tatuar, poupo um pouco de espaço para que haja ideias melhores.

– Todas as suas tatuagens têm algum sentido?

A primeira tatuagem eu achei horrível e me arrependi no dia seguinte (risos). Não quero tirar hoje, porque ela lembra de uma fase. Mas todas as minhas tatuagens têm um significado, uma história e um porquê.  O meu corpo tem registrado a minha história e tem a minha personalidade. Na perna esquerda tem 1988, que foi quando nasci, e na perda direita tem 2012, que foi quando eu renasci. Quando vejo é um passo na frente do outro, seguindo minha trajetória.  Quando recebo clientes, eles também sempre aparecem com algum significado da tatuagem. Poucas pessoas chegam e falam: “Ai, quero fazer uma tatuagem, o que você tem?”. Também prefiro tatuar o que representa algo para a pessoa ou que a pessoa tenha uma ideia. Afinal, a moda passa e a tatuagem não sai.

– Existiu a preocupação de fazer desenhos que estivessem socialmente dentro de estereótipos de gênero?

Desenho não tem gênero, não. Se eu gosto do desenho, eu quero, não me importo se é masculino ou feminino. Eu tatuo o que eu gosto.

O que não perguntar a uma pessoa tatuada?

As perguntas mais chatas é “Você não vai se arrepender quando ficar mais velha?”, “Doeu?”, “Por que você fez isso?”. Dependendo da tatuagem, perguntam: “Você é maçônica? ”, “Você acredita em bruxaria?”. E não tem nada a ver. Ninguém deveria perguntar ou se meter nos desenhos das pessoas, porque é algo muito pessoal. Tem gente que me para na rua e pergunta: “E quando você estiver velha?”.

– E o que você responde?

Eu vou ser uma velha tatuada (risos). Eu tenho irmãos e sobrinhos e vou poder contar a minha história. Quero ser uma pessoa idosa e curtir esse momento, de preferência em uma casa no mato. Eu não tenho medo, o que eu gostaria é de retirar todas para recomeçar tudo de novo, porque meu corpo não vai registrar tudo o que eu quero.

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– Perguntar o preço de quanto pagou é indelicado? Sei que é caro fazer as tatuagens, isso exigiu um grande investimento?

As pessoas olham para mim e imaginam: ela pagou mais de 15 mil para ter todas essas tatuagens. Mas não. A minha perna eu fiz quase todas sozinho. As do braço foi um amigo. A do pescoço foi outro amigo. Eu ainda quero fazer uma tatuagem de realismo da minha família, mas me cobraram 3 mil reais no braço direito.

– Hoje você é tatuadora também. Chegou a se profissionalizar enquanto tatuadora

Não fiz curso nenhum. Eu já pintava tela, mas acabei ficando desempregada e, como tinha saído da casa dos meus pais, pensei que teria que fazer alguma coisa para sobreviver. Comecei pesquisando no Youtube, comprei um kit de tatuagem e um amigo começou a me dar algumas dicas. Depois ele sumiu no mundo e não sei onde está. Também sempre fui de observar muito. Quando meus amigos iam tatuar, eu perguntava tudo. Nunca tive reclamação do meu trabalho, mas sei que se aprendesse com algum profissional, eu tatuaria muito melhor. Sei que não tatuo nem a metade do que sou capaz, sei que posso fazer muito mais. Mas as oportunidades são mínimas e eu nunca consegui tatuar em um estúdio, por exemplo.

– Nunca surgiu ninguém que te oferecesse algum curso?

Cada vez que dou entrevista, aparece alguém dizendo que vai me ajudar. Sempre dizem, prometem, mas nunca arranjam tempo para isso. Eu adoraria fazer realismo, mas não sei as técnicas. Faço tudo sozinha há quatro anos.

– Você já disse que rola muita transfobia e machismo no universo da tatuagem, dos eventos e concursos… Poderia falar mais a respeito?

É complicadíssimo. Apesar da própria tatuagem ser vista como marginal, eles sempre vão te olhar torto por você ser trans. Já me rotulam como puta logo de cara e tem gente que acha que mulher neste universo só serve para andar de shortinho e ser pinup. Até hoje só conheço pessoalmente duas tatuadoras e a maioria é homem. Muitos são machistas ao extremo. Teve uma vez que chamei um rapaz na página, pois havia gostado do trabalho, e ele disse: “O que você está querendo? Nem adianta vir com assunto!”. Eu tive que bloquear, pois ele não merecia nem explicação. Quando participei de eventos de tatuagem, os tatuadores não olhavam para mim quando estava fazendo a apresentação, não me abraçaram e nem se dirigiram a mim. Já desconstruí muita gente, mas eram pessoas que já tinham uma mente mais aberta.

– Hoje em dia você tem participado de concursos de miss tatuagem também, né? Como tem sido esse caminho?

É bem difícil. No primeiro concurso que participei houve o maior descaso com a minha inscrição. Eu mandava os dados, mas ninguém respondia. Foi assim até o dia 5 de janeiro, quando se encerrava as inscrições. Conversei com uma amiga que disse que outra amiga da Alemanha havia acabado de se inscrever. Eu falei: “mas as inscrições já se encerraram”. E elas me contaram que acabaram de fazer a inscrição. Liguei para a dona do evento e ela disse que havia encerrado. Depois, quando contei que sabia da inscrição dessa outra amiga, ela disse que estava pensando em criar um evento exclusivo para nós: o Arco-Íris. Expliquei que não quero competir com homens e que, se aquele era um concurso para mulheres e eu sou uma mulher, eu queria participar dele. Só depois disso que ela pediu meu nome, minhas fotos e a inscrição. Eu sabia que não ganharia, mas queria mostrar que respiro tatuagem, luto pelo empoderamento feminino e que queria mostrar tudo isso no palco.

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– E conseguiu passar a sua mensagem?

Desfilei com a música “Brasil Mostra a Sua Cara”, da Gal Costa. Depois foi Tomo Banho de Lua, porque troquei de roupa no palco. E, ao fim, desfilei com a música Indestrutível, da Pabllo Vittar, porque eu queria falar a luta e dor. Quando desci, todos os jornalistas vieram atrás de mim. Abri o leque para menos preconceito e mais amor. Representei.

– No concurso seguinte, você participou do Miss Tattoo Place 2018 e conquistou o primeiro lugar. Vi que chegou a estar fantasiada de Hera Venenosa…

Fui eu mesma que confeccionei a fantasia e, neste caso, desfilei com a música Hera Venenosa, da Rita Lee, e Senzala, da MC Xuxú. Fiquei feliz por ter ganhado, porque estar ali e vencer representa muito para mim e para todas as trans. Quando estamos ocupamos esse lugar em pé de igualdade com as mulheres cis passamos uma mensagem. Tenho resistido para transformar.

– Qual foi a sua premiação?

Ganhei o troféu, uma faixa e as matérias na imprensa.. Mas não ganhei dinheiro, nada exatamente, nada. Você pode entrar na página do concurso e procurar alguma foto minha, que sou a campeã. Não tem. Me prometeram que eu estaria em uma agencia de modelos tatuadas. Mas já está anunciado o próximo evento, eu vou passar a faixa e até agora nada. Não sei se isso é tudo é transfobia, mas sinto que é. Ainda estou trabalhando isso na minha mente, pois não quero subir no palco para passar a faixa e ser vaiada.

– O que ainda hoje as pessoas precisam saber sobre as travestis e mulheres trans?

Que elas devem nos enxergar como mulheres. No concurso disseram que era voltado para mulheres tatuadas, dizendo que eu deveria ser julgada como trans. Mas o fato de eu ser trans é só uma característica perto de várias outras. Eu sou uma mulher trans e sou uma mulher. As pessoas também precisam entender que somos talentosas, capazes e inteligentes. As pessoas trans que eu conheço são incríveis, cultas… Não se é porque somos cobradas demais que acabamos sempre querendo o melhor. Para você ser uma mulher trans você tem que ser melhor em tudo o que faz. Se for cabeleireira, tem que ser a melhor. Se for tatuadora, temos que ser a melhor. Mas somos humanas e também temos que ter direito ao acerto e ao erro.

– Quando sai em rolês LGBT, as pessoas te abordam pelas tatuagens? 

Eu não sou muito de ir a balada, pois é caro. Frequento mais rolê em praça. As pessoas gostam, pedem para tirar foto, elas olham para mim e me veem como inspiração. É como se eu fosse uma celebridade no evento. Sinto que elas usam o pretexto da tatuagem como desculpa para se aproximar. Elas perguntam sobre minhas tatuagens, mas não de forma pejorativa, mas com admiração. Dizem: “Que foda”. Eu sinto a energia da pessoa e isso é legal. Quando falo que sou tatuadora, elas ficam abismadas. A maioria que eu tatuo é LGBT. Não são homens ou mulheres cis héteros, que ainda têm preconceito com as mulheres trans. Muitas mulheres cis não entendem que nós somos mulheres e que a nossa luta também é a luta delas.

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– Tem alguma tatuagem específica que seja um sonho e que deseja fazer?

Quero uma serpente envolvendo o corpo todo. Ela vai ser por baixo das tatuagens, passando por traz de todas as tatuagens, chegando o pescoço. Vai ficar incrível!

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