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“Como lidar com a disforia de gênero?” Psicólogo Thomaz Oliveira responde

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*Pergunta enviada pelo Instagram

Falar sobre disforia de gênero, por muitas vezes pode ser um desafio e tanto para algumas pessoas (acredito que, principalmente trans). Mas para que possamos pensar sobre nossas identidades, existem algumas coisas que precisamos desconstruir…Pra ontem. E dentre essas coisas estão questões como, o que é a disforia de gênero? Como ela se apresenta? O que fazer para lidar com ela?

Antes de adentrarmos nesse debate, talvez seja essencial entendermos um pouco como funciona os manuais que insistem em colocar identidades trans e travestis no rol de doenças. Basicamente, existem dois manuais que são de suma importância para a comunidade médica, o CID e o DSM.

A Classificação Internacional de Doenças (CID) está na sua décima edição e coloca as identidades trans e travestis na categoria de “Transtorno da identidade sexual”. Já o DSM (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), usado principalmente por psiquiatras, está em sua quinta edição e apresenta nossas identidades em um capítulo chamado “Disforia de gênero”, onde discorre sobre critérios, desenvolvimentos, prevalência dentre outras questões. É importante pontuar que a décima primeira edição do CID conta com importantes mudanças para a comunidade T (para saber mais clique aqui).

O conceito de disforia de gênero foi algo (re)formulado (por várias vezes, devo acrescentar) pela comunidade médica. Em resumo, o DSM-V descreve o desconforto apresentado por ALGUMAS pessoas trans e travestis ao seu corpo ou qualquer outro aspecto psicossocial do gênero que lhe foi imposto ao nascimento por “…descontentamento afetivo/cognitivo de um indivíduo com o gênero designado, embora seja definida mais especificamente quando utilizada como categoria diagnóstica.”.

E porque o foco (negrito e caixa alta) na palavra algumas? Para evidenciar que a (hoje chamada) disforia de gênero não se aplica a TODA pessoa trans ou travesti. Apesar de muita gente discordar, existem pessoas trans e travestis confortáveis com seu corpo que não desejam realizar todos (nenhum, inclusive) dos procedimentos entendidos como necessários para a transição. E isso não afeta em absolutamente nada na construção de suas identidades de gênero…Na realidade, talvez, só torne um pouco mais demorado o processo de descoberta ou de questionamento da própria identidade.

E como ele se apresenta?

No desconforto com a voz? Com o peito? Com o genital? Com as roupas? A resposta para todas essas questões é…Sim! A disforia se apresenta das mais variadas formas, é uma questão bem individual de cada um, mas se resumida, pode ser entendida como o desconforto/repulsa a algo relacionado ao gênero que nos é imposto quando somos inclusos nesse mundo, inclusive nossos corpos. E pode se apresentar em camadas que, por algumas vezes não percebemos e vai desde a forma como somos lidos e tratados em espaços comuns até questões um tanto mais complexas como nossos genitais e nossas relações familiares/afetivas.

A disforia é uma doença? Não, e a própria OMS reforça essa ideia quando retira as identidades trans e travestis da área de “transtorno mental”. Mas, existem pessoas que, em decorrência desse fenômeno acabam desenvolvendo doenças sérias como depressão, ansiedade, fobia social e etc…Que precisam de acompanhamento psiquiátrico (além do psicológico) e medicamentoso, inclusive. Mas, pensando por um instante, nesse desconforto que algumas pessoas são levadas a sentir sobre seu próprio corpo e é chamado de doença…Quem nos “adoece”? Quem nos coloca como destoantes? Incongruentes? Disfóricos? Talvez, esse seja o momento de refletirmos um pouco sobre o que motiva nossos sentimentos em relação ao nosso próprio corpo e os papéis que exercemos em sociedade.

Como lidar com a disforia?

Esta é uma pergunta que passa pela cabeça de muita gente. A disforia com o corpo vai se estabelecendo de maneira tão singular, que não existe uma maneira certeira de lidar com ela. O acompanhamento hormonal e as cirurgias são as maneiras mais conhecidas de lidar com esse desconforto. Mas sabemos que esses recursos (principalmente cirurgias) não são de acesso de todos. Então, nos momentos de disforia é importante buscar atividades que faça você se sentir melhor (e pode ser algo muito simples como maquiar-se, cortar o cabelo, tirar uma foto, colocar aquela roupa bacana) ou então algo que reafirme a sua identidade pode ser um excelente recurso para aquela situação difícil.

Conversar com outras pessoas trans ou travestis que você se sinta confortável, perguntar o que as ajuda nesses momentos também pode ajudar. E, por fim (e não menos importante) o acompanhamento psicológico pode ser um excelente recurso para situações como a disforia entre outras coisas. O desconforto com o próprio corpo pode nos levar a um sofrimento psíquico muito grande (e isso não nos torna doentes, vale reforçar) e pode (inclusive, deve) ser trabalhado em terapia.

thomaz oliveira

Thomaz Oliveira, psicólogo (CRP 06/145487)
É formado pela Universidade Paulista e realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos e idosos sob a ótica psicanalista nas cidades de Santos e São Paulo. Também realiza palestras sobre diversidade sexual e de gênero, e é colunista do NLUCON, respondendo perguntas e dúvidas dos leitores e fortalecendo a relação entre a Psicologia clínica e a população trans e travestis. 

Contatos Thomaz:
Celular: (13) 99710-0882
thomaz.psicologia@gmail.com
fb/insta: @thomaz.psicologia


Quem tiver alguma dúvida e quiser a resposta do psicólogo Thomaz deve enviar a pergunta para o e-mail holtneto@gmail.com com o título Dúvidas Thomaz Oliveira. A cada coluna ele responderá um tema ou pergunta. Caso prefira que seu nome não seja exposto, garantimos o anonimato

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