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Exílio de Jean Wyllys denuncia perigo à democracia, a oposição e a LGBT no governo Bolsonaro

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Jean Wyllys (PSOL-RJ), aos 44 anos, anunciou em entrevista à Folha de São Paulo nessa quinta-feira (24) que desistirá do seu terceiro mandato como deputado federal pelo PSOL e que não pretende voltar ao Brasil tão cedo. Ele disse que foi uma decisão sofrida, mas que está em seu limite.

O motivo? Jean é constantemente atacado e ameaçado de morte, sofre homofobia, é alvo de fake news e teme ter um fim trágico, bem como o de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro PSOL, mulher lésbica (ou bissexual), e do motorista Anderson Gomes, assassinados no último ano.

“Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que façamos por outros meios! Obrigado a todas e todos vocês, de todo coração. Axé!”, escreveu nas redes sociais.

A notícia pegou políticos, militantes e pessoas LGBT em geral de surpresa. Trata-se do único deputado abertamente homossexual que durante sua carreira política, em oito anos,  investiu em pautas voltadas aos direitos humanos e no combate ao discurso de ódio. Ele é coautor, por exemplo, do projeto de lei 5002/2013 – a PL João W. Nery – que reconhece e dá direito às identidades trans, e foi peça importante na aprovação do casamento civil igualitário.

O exílio de Jean Wyllys – e entende-se exílio quando alguém tem que se retirar do país, sob ameaças – reflete o atual governo de Jair Bolsonaro (PSL).

QUE GOVERNO É ESSE? 

Você sendo eleitor/a ou não de Bolsonaro, gostando ou não de Jean, precisa entender algumas questões. Tentar calar a oposição a força é uma das piores violências que se pode fazer contra a democracia brasileira e sua população. E Bolsonaro fez uso dessa ideia desde a campanha, quando intimidou opositores e os ameaçou. Não dá para esquecer sua passagem pelo Acre, em que disse que “fuzilaria a petralhada”, que seus opositores deveriam sair do país após a vitória e que não haveria espaço para eles em seu governo.

Quando um político sai do Brasil porque está recebendo ameaças de morte por suas lutas – bem como quando ele é assassinado por motivações políticas – isso também significa e simboliza que todos seus eleitores e pessoas que compactuam com seus ideais estão ameaçados e silenciados, na maioria dos casos sem a possibilidade de sair do país. É algo terrível não só para a oposição, mas para toda a população, que perde a liberdade de pensar e explanar o que pensa. Só não confundam liberdade de expressão com liberdade de discriminação e preconceito.

Outra questão que dialoga com a tentativa de limar a oposição é que o governo Bolsonaro boicota e se nega a dar entrevistas em veículos de imprensa que não fazem um jornalismo absolutamente pró-governo, um flerte com a ditadura. Não é por acaso que escolhe sempre Record e SBT, cujos líderes se encontraram diversas vezes com Bolsonaro em conversas e negociações longe dos holofotes. O SBT chegou até a colocar uma vinheta em menção a ditadura militar – e depois retirou, pedindo desculpas.

Há quem diga que Bolsonaro não tem nenhuma relação com a decisão de Jean, justificada pelas ameaças de morte. Entretanto fica evidente que  está indiretamente ligado, principalmente ao analisarmos a carreira política do presidente. Enquanto deputado federal e pouco conhecido, Bolsonaro decidiu estrategicamente utilizar da LGBTfobia velada ou explícita de grande parte dos brasileiros para soltar frases preconceituosas (“filho gay tem que apanhar”, “prefiro que meu filho morra a aparecer com um barbudo”), disseminar fake news (vide “kit gay para ensinar crianças a serem homossexuais”, que nunca existiu) para chamar atenção e ser visto. Ele também falava a favor da ditadura, ofensas à mulher, negros e pobres, mas a mídia, por sua vez, sempre deu ibope para as questões LGBT, porque falar de LGBT dá Ibope.

Mônica Iozzi, do exinto CQC,da Band, diz que o entrevistava com a finalidade de mostrar a qualidade péssima dos políticos. Mas não. Muita gente, ao invés de se atentar para os absurdos, se identificou e comprou os discursos.

PRINCIPAL OPOSITOR

Jean se tornou alvo fácil da direita ultraconservadora e consequentemente de Bolsonaro. Sendo o único deputado abertamente homossexual, era o político cujos eleitores poderiam mais se identificar por meio do preconceito. Afinal, não há nada pior para um preconceituoso que ver a comunidade LGBT se organizar em prol de políticas públicas ou ver um LGBT em lugar de prestígio. Com isso, Jean sofreu inúmeras homofobias, foi perseguido, ofendido e alvo de fake news. A ele eram atribuídos absurdos e mentiras como o incentivo à pedofilia, fazer cirurgias nas genitálias de crianças, kit gay nas escolas, declarações de fim da família brasileira e até a tentativa de rasgar trechos da Bíblia. Certamente você já deve ter lido diversas notícias falsas sobre ele e, quem sabe, acreditado em alguma delas.

Por meio do preconceito e do medo de ameaça à família, políticos ultraconservadores brincaram e ainda brincam com a opinião pública e manipulam, inventando mentiras sobre a população LGBT e dizendo se preocuparem com a família. No fundo é uma cortina de fumaça para proferirem seus interesses escusos. Segundo o levantamento da Veja, Jean é um dos maiores alvos de fake news. E é o único com 100% de fake news negativas e de teor difamatório. Situação diferente de Bolsonaro, em que 67% das fake news são positivas, ou seja, a mentira é para favorecer o presidente eleito. No mandato de Wyllys, cerca de 400 mil perfis difamatórios já foram banidos do Facebook e cerca de 1,5 mil comentários apagados mensalmente devido ao conteúdo homofóbico e ameaças.

Em uma viagem de avião, Bolsonaro estrategicamente escolheu sentar ao lado de Wyllys, uma tentativa nítida de o intimidar e ganhar mídia, uma vez que já entrou no avião filmando o momento com seu celular e depois tratou logo de divulgar o momento para a imprensa. Jean – diante do histórico de preconceito do parlamentar – limitou-se a mudar de lugar. Jair se fez de vítima, dizendo que foi discriminado. Oi? Durante a votação do impeachment da Dilma Rousseff, Jair gritou para Jean: “Tchau, querida”, como tentativa de afrontá-lo. Levou uma cusparada na cara e fez mimimi. As ameaças, mentiras e ataques continuaram.

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Com a visibilidade conquistada, Jair se colocou como candidato à presidência como político novo e honesto – ainda que tivesse mais de 20 anos de carreira, funcionários fantasma e auxílio moradia tendo casa. Uma candidatura calcada em fake news (ainda que desmentido diversas vezes), discurso de ódio (mais moderado para não assustar outra parte do eleitorado) e LGBTfobia (disfarçada de preocupação com a família) e principalmente no anti-petismo. Foi alvo da própria violência que incita, com uma facada de um homem que participava do mesmo clube de tiro dos filhos e que no passado foi filiado a partidos de esquerda. Enfim, Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil sem ao menos ter apresentado suas propostas. Há quem defendesse que ele não “era homofóbico”, “mas” que é “um homem doce” que fala preconceitos “da boca pra fora”, como fez Regina Duarte.

O PERIGO

Durante esse percurso, Jean conseguiu combater o preconceito, fez oposição e não baixou a cabeça. Chegou a apoiar corajosamente Dilma Rousseff (PT) num momento de desaprovação e acabou angariando ódio dos anti-petistas fanáticos. Fez algozes responderem criminalmente pelas mentiras, venceu pelo menos cinco e não cedeu as investidas de Bolsonaro. Porém, desde o assassinato da vereadora do PSOL-RJ Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes em março de 2018, ele passou a entender que as ameaças, vindas de toda a perseguição que recebeu da direita, não eram apenas ameaças. Mas algo que poderia de fato acontecer.

Assim como Jean, Marielle era abertamente lésbica (ou bissexual), era do PSOL-RJ e tinha como pauta os direitos humanos. Foi assassinada com tiros na cabeça ao sair de um evento em que falava sobre os direitos das mulheres negras. As investigações do caso da Marielle até hoje não foram concluídas – um escândalo internacional – mas apontam que a morte tenha sido provocada por milícias. Em dezembro de 2018, a polícia civil descobriu um plano das milícias do Rio para matar o deputado estadual Marcelo Freixo, também do PSOL do Rio.

Recentemente foi informado que Flávio Bolsonaro – filho de Jair – empregou parentes de um ex-PM acusado de participar da milícia e que até fez homenagens a eles.  “Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário [ex-PM suspeito de chefiar milícia que é investigada no caso Marielle]. O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, declarou na entrevista.

Dentre as ameaças, divulgadas pelo jornal O Globo, estão: “Você pode ser protegido, mas a sua família não. Já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?”, “Vamos sequestrar a sua mãe, estuprá-la, e vamos desmembrá-la em vários pedaços que vamos te enviar pelo Correio pelos próximos meses. Matar você seria um presente, pois aliviaria a sua existência tão medíocre. Por isso vamos pegar sua mãe, aí você vai sofrer”.

Jean chegou a fazer diversas denúncias à Polícia Federal, porém segundo ele as investigações não avançaram. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos emitiu uma medida cautelar logo após a eleição de Jean. Porém o Estado disse que Jean estava seguro e que até participou das eleições. Mais uma vez o país por meio de seus representantes não reconhece a violência homofóbica no Brasil – que matou 420 LGBTs por preconceito no Brasil em 2018 – e todas as agressões e mortes com teor político. Um lugar extremamente perigoso para Jean.

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Marielle Franco, Jean e Mônica Tereza Benício

Logo após o anúncio de Jean, Jair Bolsonaro escreveu nas redes sociais: “Grande dia”. No mesmo horário, o filho Carlos Bolsonaro escreveu: “Boa sorte e vá com Deus”. Muita gente criticou o presidente pela comemoração, dado que a retirada de Jean se dá por ameaça de MORTE. Outras pessoas apoiaram e passaram a ofender Jean, inclusive levantando a difamações de que ele estaria envolvido na facada que Bolsonaro levou em campanha e que, por isso, estaria fugindo do Brasil. Mais fake news!

Diante da reação negativa, Bolsonaro recuou e disse que estava se referindo à viagem de Davos, na Suíça, esquecendo do fiasco de sua participação. Vale lembrar que após o episódio da facada em Bolsonaro, escreveu  lamentando o ocorrido.

E AGORA?

A saída de Jean representa uma grande perda na luta política pelos direitos da população LGBT, dos direitos humanos e no combate corajoso à intolerância e discriminação. Além de ser um defensor da causa, ele tem contribuições importantes tanto nos discursos, nos projetos escreveu ou apoiou, quanto na oposição que faz diante de políticos, discursos e projetos LGBTFóbicos.

A retirada de Jean traduz a LGBTfobia de todo dia, na falência dos direitos humanos e no cenário político autoritário e violento que se desenhou no Brasil. Alerta internacionalmente para uma ameaça em que todos que pensam como ele corre no país.  Em seu lugar entra o vereador carioca David Miranda (PSOL-RJ), que também é gay, negro, nascido no Jacarezinho e aliado às pautas LGBT e dos direitos humanos geral.

Mas o que podemos esperar da política? Jean diz que recua, mas que ainda aguarda novos tempos. Opinou que a esquerda precisa se unir, mas preferiu não dar novas declarações. Uma coisa é certa: Bolsonaro e os ultraconservadores não terão mais Lula, que está preso, ou Jean, que está exilado, para perseguir e manipular a opinião pública. Agora eles terão que falar das propostas que nunca falaram e mostrarem a cara por trás dos discursos de ódio disfarçados de preocupação com a família, com crianças ou com a corrupção.

“Iremos com tudo para Brasília. Nossas bandeiras serão defendidas com o amor e comprometimento de sempre. Meu sonho é uma sociedade mais justa e menos intolerante. Nenhum governo calará nossas vozes”, declarou David. Que Jean possa ficar em segurança nestes tempos de reclusão. E que David possa nos representar muito bem – também em segurança – nessa luta.

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Marielle Franco e David Miranda

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