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1º homem trans da PM-SP, Henrique Lunardi diz que atua como elo de informação e que combate transfobia

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Farda, acessórios, armamento e o nome masculino identificado no peitoral. Henrique Lunardi poderia ser lido como qualquer outro Policial Militar de Ituverava, município do Estado de São Paulo. Mas decidiu falar um pouco de sua trajetória pioneira para levantar a bandeira nas cores azul, branco e rosa, que simboliza a luta das pessoas trans, e assim transformar dentro e fora da instituição.

Em primeira mão ao site e canal NLUCON, Henrique conta que o processo de se perceber homem trans – isto é, ele foi designado mulher ao nascer, se identifica com o gênero masculino e é um homem – ocorreu quando já atuava como policial militar. Não que deixasse de ser anteriormente. Ele apenas não conseguia colocar em palavras o desconforto que sempre sentiu.

O encontro com sua verdadeira identidade ocorreu por meio de consultas em uma psicóloga particular. Ainda assim havia não disse ao mundo imediante que era Henrique pelo receio de sofrer preconceito dentro da instituição. “Eu tinha na cabeça que as pessoas trans e travestis sempre foram muito marginalizadas, então eu pensava assim: vou ser mandado embora porque eu sou diferente. Eu tinha preconceito comigo mesmo e achava que era motivo de exclusão” disse.

Mas durante uma aula do estágio de aperfeiçoamento profissional ele tomou conhecimento do decreto 55.588/2010, que garante o respeito ao nome social e identidade de gênero de pessoas trans nos órgãos públicos do Estado de São Paulo. Como era funcionário público, a ficha caiu. Foi a partir daí que ele traçou um caminho, por vias administrativas, para ser reconhecido em sua verdadeira identidade de gênero e para, como ele mesmo diz, ser feliz profissionalmente e pessoalmente.

A entrevista aborda os bastidores do processo, a relação com outros policiais, os desafios dentro da profissão e a violência policial. Na repercussão do bate-papo no Youtube, que soma mais de 15 mil visualizações, Henrique é visto por muitas pessoas como uma possibilidade de mudança dentro de uma instituição que historicamente travou embates com a população trans – sobretudo as travestis e as profissionais do sexo. Ele também recebe críticas por esse mesmo motivo. Para o PM, estar dentro da corporação nada mais é que um elo de visibilidade e respeito à população trans.

Assista ou leia a entrevista:

– Como surgiu a vontade de ser policial militar?

Consciente ou inconsciente eu sempre quis proteger as pessoas. Começou com as pessoas próximas a mim, minha família e posteriormente meus amigos. Eu sempre quis evitar conflitos. Então isso foi como uma orientação e eu acabei optando pela segurança pública. Anteriormente eu fazia faculdade. Eu larguei a faculdade para virar Policial Militar.

– Você cursava qual faculdade?

Fazia Engenharia da Computação. Era uma coisa distinta, muito diferente (do que faço hoje). E daí, sei lá, eu falei: vou prestar para esse negócio aqui (risos). Eu também prestei para agente penitenciário, porque eu tenho um primo e sempre admirei o trabalho dele. No meio disso, eu prestei para soldado da polícia militar. Foi um concurso próximo do outro, enquanto eu aguardava o resultado das fases de um, eu estava passando pelas fases do outro. Passei em ambos, tomando posse na polícia militar.

– Quando você entrou para a Polícia Militar você já havia dito ao mundo que você é o Henrique e que é um homem trans?

Não. Eu entrei em 2015 e em 2016 eu procurei a psicóloga com as questões (referentes minha identidade de gênero). Porque eu havia tomado conhecimento que havia uma definição para como eu me sentia. Eu já havia visto outros casos de homens trans, mas é uma coisa pouco falada, porque o que eu conhecia eram as travestis. Em 2017, eu tive que preparar muito, porque é uma coisa que tem que pensar demais se você vai ou não prosseguir com isso (com a transição). Eu tinha na cabeça que as pessoas trans e travestis sempre foram muito marginalizadas, então eu pensava assim: vou ser mandado embora porque eu sou diferente. Eu tinha preconceito comigo mesmo e achava que era motivo de exclusão. Até porque antes falavam transexualismo, era visto como doença. Mas eu via dessa forma porque me mostraram dessa forma, então independentemente de eu estar na instituição que eu estou, se eu estivesse em qualquer outro emprego eu sentiria esse mesmo medo.

– Até porque 90% das travestis, segundo a Antra (Associação Nacional das Travestis e Transexuais), está inserida na prostituição. Muitas delas não porque querem – caso quisessem, seria algo legítimo, pois é uma profissão que merece ser regularizada – mas por todo o preconceito que as levam para apenas esse caminho.

Por toda a marginalização que a sociedade fez, né?

– Exato. E como sua família reagiu?

Eu tive liberdade para falar a respeito. Primeiro eu tive que falar que gostava de garotas, porque não tinha conhecimento na época que sou uma pessoa trans. A primeira reação da minha família, da minha mãe e da minha irmã, foi de preconceito nessa primeira fase. Depois, quando eu fui para a psicóloga, eu consegui levar a questão (trans) para dentro de casa. Quem me acolheu mesmo foi meu irmão mais novo e isso significou muito para mim. Ele falou: “Beleza, vou te amar do mesmo jeito, não mudou nada”. Foi o primeiro que tentou a me tratar no masculino, que a minha mãe falava de uma forma e ele corrigia. Depois disso, a minha mãe percebeu o sofrimento que eu tinha com o meu próprio corpo, como eu reagia, como eu estava triste. Apesar de eu estar feliz na minha área profissional, na minha área pessoal eu estava frustrado, porque eu não conseguia assumir a minha identidade. Eu tinha medo do que as pessoas iam pensar e que eu ficassem sozinho. Mas todos me deram força. Sempre tem quem dizia: “Você é bonita demais, você vai fazer isso e vai estragar você”. Daí hoje eu digo: “Antes eu era gata, hoje eu sou gato” (risos).

– Apesar de ser acolhido dentro de casa, tinha a questão profissional. Como se deu falar que é homem trans dentro da polícia?

Primeiramente eu pesquisei muito a respeito se em algum lugar do Brasil tinha algum Policial Militar Trans. Teve um só que eu encontrei de Pernambuco, mas não tinha nada mais a respeito e achei que pudesse ser fake news. Em um estágio de aperfeiçoamento profissional, uma das matérias foi de atualização jurídica e um comandante de companhia falou sobre um decreto. O 55.588/2010, que fala a respeito do tratamento das pessoas trans e travestis dentro das repartições públicas no Estado de SP. A partir disso eu pensei: “Se eu quiser ser reconhecido, ter o meu nome social respeitado, eu tenho que demonstrar o meu interesse”. Aí eu tinha uma fonte de resguardo jurídico: no Estado de SP toda pessoa trans tem o direito de ser tratada pelo meu nome social e identidade de gênero dentro das repartições públicas e eu sou um funcionário público. Aí comecei a juntar as coisas.

– O que você fez?

A partir desse momento, quanto eu tinha um psicológico mais bem preparado e uma coragem para arriscar tudo. Porque eu ainda tinha medo de perder o meu emprego, mas tinha que pensar: “Eu posso perder, mas eu quero ser feliz? Ou eu quero levar uma vida infeliz pessoalmente e ser feliz no trabalho?”. Como não tinha nenhum caso e um modelo de como prosseguir, eu pedi passar pelo psicólogo da PM, o qual me orientou a fazer um documento pedindo orientação de como deveria prosseguir para ter o meu nome social respeitado e para iniciar a terapia hormonal. Eu fiz esse documento, que foi para o comandante de companhia – aquele que havia falado sobre o decreto – e ele foi me orientando o que eu deveria fazer. Foi a partir daí que eu dei início. Sempre tive muito isso de fazer pelo correto, quis estar amparado. Não quis fazer de qualquer jeito.

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– Você chegou a falar sobre ser homem trans com os colegas?

Diretamente eu não cheguei a conversar com ninguém antes de pedir a orientação e de prosseguir. Mas depois que eu já havia feito o documento, cheguei a trocar ideia com meu parceiro de serviço, um sargento. Eu esperava que houvesse preconceito por ele ser mais velho e achar que seria difícil de colocar na cabeça. Mas não houve, eu fui muito bem aceito por ele e ele me incentivou muito de uma forma ou de outra. Ele dizia: “Vai com calma… Vai confiante que vai dar certo!”.

– Você conseguiu ser acolhido por vias administrativas, mas como é o convívio diário? A transfobia te acometeu de alguma maneira?

Na unidade em que eu trabalho não sofri nenhum tipo de transfobia. Pelo menos não diretamente, não que eu tenha percebido. Mas o preconceito é aquilo que falei: eu tinha preconceito, porque não conhecia. O que eu posso falar do que vi e presenciei é que depois que eu assumi isso dentro da instituição, os meus colegas de serviço não vieram me criticar. Eles vieram perguntar para mim como era, como me sentia, o que era aquilo mesmo, porque eles não tinham contato. Fui um elo para levar a informação dentro da instituição. Como eu estava meu serviço, eles não sentiram diferença de antes e depois, porque continuei com a mesma capacidade, executando as mesmas tarefas e de forma profissional. Então isso não interferiu no meu serviço, isso é a minha vida pessoal. O que mudou foi isso: eu deixei de parecer uma mulher, agora eu sou visto e reconhecido como eu sempre me senti.

– Uniforme, nome social, tudo isso passou a ser garantido dentro da PM?

Atualmente eu já fiz a retificação dos meus documentos. É importante falar que todo homem trans que fizer a retificação precisa ir até o serviço militar obrigatório para pedir dispensa militar. Porque para fazer faculdade, conseguir emprego, tudo você vai precisar da sua dispensa. E é algo muito simples e que você vai precisar. Com a minha retificação de documentos, eu já atualizei tudo. Mas antes disso eu tinha solicitado o uso do nome social e a instituição autorizou. Eles me deram o direito de usar o uniforme do sexo masculino, a usar os acessórios e corte de cabelo do sexo masculino. É engraçado porque eu tinha um cabelo bem volumoso e a primeira coisa que eu fiz quando autorizaram era ir lá e rapar. Sempre tive essa vontade. Atualmente eu utilizo um alojamento a apartado, nem masculino nem feminino. A policia se preocupa tanto que não queria me deixar constrangido, dizendo que assim que eu fizesse a cirurgia no peitoral e me sentisse confortável eu teria o direito do alojamento masculino. Atualmente não frequento, pois minha cirurgia é frequente e ainda eu sinto vergonha de tirar a camiseta.

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– Ao longo da história, a população trans teve embates com a polícia militar. Você recebe críticas de pessoas trans por ser policial militar e homem trans?

Recentemente eu fiz um vídeo no mês da Visibilidade Trans e eu fui ofendido por uma militante travesti por ser policial militar. Ela dizia que eu não poderia ser trans e policial militar, que eu não era um militante representável, que eu não podia querer levantar a bandeira. Acho que se você for fazer uma crítica, que faça uma crítica, mas não uma ofensa. O principal lugar que a gente deveria ser respeitado é no meio em que a gente faz parte, e quando você recebe uma ofensa nesse meio machuca muito mais. Porque lá fora o pessoal não conhece a respeito, mas essas pessoas conhecem.

Anteriormente a sociedade tinha uma visão da polícia, que era bruta e agressiva. Mas hoje, na instituição que eu trabalho, que a gente trabalha com uma política de polícia comunitária. O nosso contato com a população é totalmente diferente do que era. Inclusive tem um programa nosso chamado vizinhança solidária, que é feito nos bairros. Vários moradores criam um grupo de WhatsApp e nele sempre tem um Policial Militar. Quando acontece qualquer irregularidade no bairro, você vai jogar no grupo e o policial militar vai trabalhar em cima disso, fazer um patrulhamento ostensivo e preventivo. Então a proximidade da população é muito mais com a polícia.

– Mas vale lembrar que você fala da sua vivência dentro da polícia militar de Ituverava, município de São Paulo, né?

Isso, eu trabalho em Ituverava, na rua. A gente atende as ocorrências que são despachadas pelo 190 e também quando deparamos com ocorrência na rua. Por exemplo, você pode estar passando na rua, vê uma coisa irregular, chama a viatura e pode fazer um contato com a gente para passar qualquer coisa.

– Qual é o paralelo que dá para fazer desse passado e dos casos em que a Polícia ainda é violenta com a população trans e com o fato de termos pela primeira vez um homem trans neste espaço?

A polícia militar é formada por pessoas da sociedade. Então se a gente tirar essa raiz de preconceito que as pessoas tem, não só na instituição que eu estou, mas fora, isso já vai mudar. É como eu falei: o preconceito surge daquilo que a gente não conhece. Então a falta de informação muitas vezes acaba levando a pessoa a ter um tratamento com a outra de uma forma desrespeitosa. A visibilidade que eu levo dentro da instituição é uma visibilidade importante, porque as pessoas precisam ter contato, saber como tratar uma pessoa trans, como tratar uma pessoa travesti.  Se a gente não se inserir, não se esforçar para tentar contribuir de alguma forma para levar o conhecimento, essa visão que a população tem das pessoas trans vai continuar sendo marginalizada. Essa é a diferença: a mudança já começou. Eu estou aqui dentro, sou um soldado da polícia militar. Quando eu ia imaginar ser um PM, um funcionário público e ser trans? Para mim, era impossível.

– Eu não quero ficar te atacando nas perguntas, pois o objetivo não é esse. Mas preciso falar que a polícia militar ainda é vista como violenta, sobretudo contra a população trans, negra, pelos movimentos sociais… Há recomendação de preconceito? O que tem de verdade e de mentira?

A instituição em si não tem nenhum tipo de preconceito, tanto que ela presa pela legalidade. Tenho todos os meus direitos resguardados. O único lugar que eu teria todos os meus direitos respeitados é dentro da Polícia Militar. Se você me ofender, você vai ser punido por isso. Eu posso falar isso porque estou lá dentro. Acho que as pessoas tinham que reformular a visão que elas têm, porque a polícia não é inimiga. Tanto que qualquer situação que você não souber resolver, atrito, a primeira coisa que você vai pensar é para ligar pro 190. Na cidade onde eu trabalho não tem bombeiro, então quando uma casa está pegando fogo as pessoas ligam para a polícia. Eu entro para trabalhar 12 horas de serviço na rua, para cuidar de pessoas que eu não conheço, sem distinção nenhuma. Estou lá para tentar auxiliar de alguma forma.

– Para um homem que está acompanhando essa entrevista e que tem vontade de ser Policial Militar, qual é a dica que você dá para ele?

Não tem dica. Se por acaso você pensou em ser Policial Militar e achou que era impossível, eu sou exemplo que não é. Não desista dos seus sonhos.

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