Luis Miranda diz que personagens LGBT ajudam a diminuir o preconceito no Brasil

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Luis Miranda (Foto: Priscila Prade)

Luis Miranda é um dos artistas mais versáteis e conhecidos do país. Aos 40 anos, ele vai do humor ao drama com facilidade, interpreta personagens de todos os gêneros e preenche a cena com o seu talento, seja das novelas, séries, programas, teatro ou cinema.

São 20 anos de carreira e muitos papeis que marcaram a história da TV. Dentre elas, está Melissa, de Carandiru Outras Histórias” (2005), Margarete em “As Cariocas (2010), Lima, de Mister Brau (2015-2018). Em 2014, ele  estreou nas novelas como a mulher trans Dorothy Benson, em Geração Brasil.

Atualmente Luis está em cartaz com “O Mistério de Irma Vap”, clássico do terrir de Charles Ludlan, dirigido agora por Jorge Farjalla. Na peça, ele interpreta Lorde Edgar, que se casa com Lady Enid (Mateus Solano), após o falecimento da primeira esposa. Tudo vai bem até que a ex-mulher começa a assombrar a atual. Ele ainda vive a misteriosa governanta Jane.

O NLUCON conversou com exclusividade com Luis após a coletiva de imprensa do espetáculo, em São Paulo. Falamos sobre a nova montagem, personagens LGBT, a atual situação da arte em tempos de desmonte dos programas de incentivo e também se mudou alguma coisa desde que ele revelou ao público que é homossexual. Confira o bate-papo:

– Como surgiu o convite para uma nova montagem do clássico espetáculo O Mistério de Irma Vap?

O (diretor) Farjalla me ligou num belo dia e eu estava com tempo, porque eu tinha acabado de me desligar do Zorra e o filme que eu faria com o Lázaro (Ramos) foi adiado. Fomos para um almoço, eu, o Farjalla e o Mateus. Quando ele me convidou para Irma Vap eu queria saber qual seria o enfoque, porque eu não queria refazer a montagem que já havia sido feita. Quando ele me contou que queria fazer outra coisa diferente, (eu disse) tô dentro.

– A primeira montagem nos anos 80/90 fez muito sucesso com Marco Nanini e Ney Latorraca. Você chegou a assistir anteriormente?

Não. Cheguei a assisti ao filme (Irma Vap – O Retorno, de 2006). Mas o espetáculo eu não vi, nem o com o Cassio (Scapin e o Marcelo Médice, na montagem dos anos 2000).

– Quem você interpreta?

Faço a Jane, que é a governanta que mora na casa há algum tempo e que é uma espécie de devota da Lady Irma, a antiga mulher do Lord Edgar. Ela é uma mulher que vive naquela casa com o desejo de um dia se transformar na dona. E eu também faço o Lord Edgar. Algo bacana é que a gente ressaltou um clima romântico com a Lady Enid e o Lorde Edgar. Eles são apaixonados e esse clima romântico a gente traz para a peça. E faço também a Irma, que é o grande espectro e a vampirona.

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– Você já fez diversos personagens femininos. Teve alguma referência diferente para a Jane?

Eu busquei uma mistura, de simbiose, de Fernanda (Montenegro), Bibi (Ferreira) e Marília (Pêra). A empregada do filme Rebecca (a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, de 1940), também tem muito a ver com a Jane da história. Se você ver os figurinos, vai ver que tem toda uma coisa inspirada no Drácula (de Bram Stoker, de 1992) que são essas perucas com cara de chifre, uma coisa meio malévola. Porque a Jane tem esse espírito malévolo.

– A peça traz a comédia unida ao terror. Por falar em terror, você gosta deste gênero?

Eu gosto. Lembro que vi bastante “A Hora do Espanto”, o antigo (de 1985). Vi os dráculas todos. Acho que basicamente são esses. São filmes que eu via e morria de medo, mas amava.

– O que o público pode esperar?

Uma peça dinâmica e divertida de ver, com muita brincadeira e jogo cênico.

– Estamos cada vez mais vendo personagens LGBT nos trabalhos artísticos. Lembro que você interpretou a Dorothy Berson, em Geração Brasil. O que traz dessa personagem?

Cada personagem que abraço tiro um pouco para mim. Foi importante fazer a Dorothy, até mesmo porque a gente vive em um país com muito preconceito. Somos o país que mais mata LGBT. E isso (ter uma personagem transexual) ajuda muito a fazer com que as pessoas entendam, ainda mais quando você empresta um carisma para isso.

– Foi uma personagem que o público gostou bastante e que até teve discursos bastante profundos. Lembro de um em que ela fala sobre ser a imagem e semelhança de Deus.

A Dorothy era extremamente carismática, era uma mãe renegada, que amava o seu filho e fazia tudo por ele. A gente levanta a bandeira e faz com que as pessoas também tenham um espelho e se reconheçam com isso. É extremamente importante para a sociedade que a gente vive, que é tão conservadora e preconceituosa.

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– Em 2014, você chegou a revelar ao público que é homossexual. Mudou alguma coisa em sua carreira?

Não muda nada. Eu continuo fazendo a mesma coisa. A questão da sexualidade não tem nada a ver com a vida do trabalho. Agora mesmo também estou me preparando para fazer outro trabalho mais sério, então acho que isso não é empecilho para nenhum tipo de trabalho. Quem vai para assistir o espetáculo é para ver o Luis Miranda.

– Com o atual governo as artes começaram a ter projetos de desvalorização e desmonte de programas de incentivo. Por que acha que está acontecendo isso neste momento?  

A gente está vendo cortes graves na cultura. A gente sofreu muito nessa eleição, porque como os artistas se posicionaram muito contra o atual presidente, ele acabou jogando a população contra nós mesmos, no sentido de dizer que nós somos beneficiados por Leis Rouanets. Quando na verdade a gente não é beneficiado. A gente empresta para a Lei Roanet aquilo que a gente dá para o público, que é a possibilidade de construir um espetáculo, filmes, etc.

– O que fazer?

É um momento de resistência, a classe tem se revisto, se organizado para passar por essa fase, que será de poucos incentivos, mas que a gente não vai deixar de fazer. Vai fazer na raça, não do jeito que a gente gostaria, mas do jeito que a gente precisa.

Assista ao bate-papo: 

SERVIÇO:

O quê: O Mistério de Irma Vap Quando: De 12/4 a 16/6, sextas, às 21h; sábados, às 18h e 21h; domingos, às 16h e 19h Onde: Teatro Porto Seguro (Alameda Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, São Paulo, fone: 11- 3226.7300)

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