Viagem Solitária, livro escrito por João W. Nery, ganha nova edição e texto da esposa Sheila Salewski

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O livro Viagem Solitária, autobiografia do escritor, psicólogo e ativista homem trans João W. Nery (1950-2018), terá uma nova edição pela editora Leya. João morreu no último ano, mas sua trajetória enquanto o primeiro homem trans a ser operado no Brasil e ativista que saiu da invisibilidade à luta continua sendo uma das maiores referências da sobre pessoas trans no país, inclusive na literatura.

Dentre as novidades está a capa nova nas cores da bandeira trans (rosa, branco e azul), o subtítulo “A trajetória pioneira de um transexual em busca de reconhecimento e liberdade” e, sobretudo, uma emocionante apresentação de Sheila Salewski, esposa de João nos últimos 22 anos.

Nas edições anteriores, Sheila era identificada como Sandra, uma maneira de preservar a família de possíveis contratempos e preconceitos por ser homem trans no país que mais mata pessoas trans no mundo (TGEU). Ela conta que, ao lançar a autobiografia, em 2011, era difícil saber quais consequências viriam e que a família tinha receio do que poderia acontecer com ele. Foi assim que ele adotou o chapéu como disfarce, o que acabou virando uma de suas marcas registradas.

No texto, ela destaca que autobiografia mudou extraordinariamente a vida de João e que teve um desdobramento incrível de sua força represada por tanto tempo. “Foi o momento de sair das sombras. Para além dos trinta anos de suas memórias, Viagem Solitária mostrou ao mundo que ser transgênero é tão normal quanto ser cisgênero, e mais: que o desejo de sermos quem realmente somos, livremente, é uma necessidade humana e não se pode negá-la a ninguém”.

Sheila conta ainda que se lembra como perfeição do dia em que eles se conheceram, na casa de uma amiga em comum. “João apareceu com aquele sorriso fácil e solar. Começamos a conversar e ficamos, mutuamente, muito interessados pela conversa. De tudo um pouco, muita literatura”, lembra. Ela diz que inicialmente não sabia da vivência trans, mas quando soube nunca quis rejeitar ou ignorar os sentimentos.

“Examino meu tempo de convivência com João e sinto gratidão por ter participado de sua história. Porque foi uma história de luta que valeu a pena, que teve suas conquistas, alcançando muitos avanços e, sobretudo, permeada por muito amor e cumplicidade. Conheci João como uma pessoa que vivia à margem, com um círculo restrito de amigos, levando uma vida discreta, tímida e obscura. Despedi-me dele, em 2018, como um ídolo, uma liderança, um ícone da causa e liberdade de gênero. Um comunicador”, escreve Sheila.

A nova edição está em pré-venda. Compre na Livraria Cultura por 49,90 aqui ou na Livraria Travessa por 41,92 aqui.

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HISTÓRIA DE LUTA

João tornou-se conhecido como o primeiro homem trans a ser operado no Brasil, a dar entrevistas e palestras em todo o país, por militar em prol dos direitos das pessoas LGBT, sobretudo dos homens trans e transmasculinos, e por escrever quatro livros, sendo o mais conhecido “Viagem Solitária“, que deve virar filme.

Em Viagem Solitária, ele conta todas as pelejas que passou ao ser designado mulher ao nascer, ser reconhecer como homem  e lutar por essa identidade num período de grande repressão e invisibilidade. Chegou a trocar os documentos de maneira ilegal, dizendo que nunca teve, perdendo automaticamente a formação legal de psicólogo. E até passar por cirurgia no peitoral num tempo em que cirurgiões eram processados.

Apostando na visibilidade para que outros homens trans e transmasculinos se percebam, foi entrevistado por Marília GabrielaJô Soares e diversas vezes pelo NLUCON – sendo a primeira entrevista em 2012. “Tudo o que eu vivi contribuiu para o que eu sou hoje. Tudo é válido. Eu adoro a Joana, de verdade, sem ela eu não teria chegado ao João. Comigo não tem esse negócio de “Vou apagar meu passado”, “Quero esquecer que fui mulher”. Porra nenhuma! Eu acho ótimo. Se eu tivesse nascido em um corpo de homem, talvez tivesse virado um babaca qualquer”, disse.

Foi homenageado e teve o trabalho reconhecido diversas vezes por coletivos trans e LGBT, chegando a dar nome ao PL 5002/2013 – a Lei de Identidade de Gênero, de Jean Wyllys (PSOL) e Érika Kokay(PT).  O projeto visa garantir, dentre outros direitos, que pessoas trans possam fazer a retificação de documentos e sejam respeitadas de acordo com a sua identidade de gênero somente com a autodeterminação. Ela não foi votada e ainda não há previsão. No último ano, foi inspiração de Glória Perez para o personagem o primeiro personagem homem trans da teledramaturgia brasileira.

João continuou militando, resistindo e acreditando nos direitos humanos até o último suspiro. Ele morreu em outubro de 2018 aos 68 anos, vítima de câncer em um hospital de Niterói, Rio de Janeiro.

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