Aos 12 anos, atriz trans Ludmila Galvan revela o que viveu até “Meu Primeiro Sutiã”

LUDMILA GALVAN1

Ludmila Galvan é a adolescente de 12 anos que emocionou ao protagonizar o filme “Meu Primeiro Sutiã”, produzido pela Madre Mia Filmes e apresentado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Trata-se de um remake da clássica propaganda de 1987 e que incluiu pela primeira vez uma adolescente trans.

Dirigida e roteirizada por Rafa Damy, a obra tem repercutido positivamente e chamado atenção do grande público, uma vez que aborda os processos de descoberta de uma adolescente que foi designada menino ao nascer, mas que se identifica com o gênero feminino e é uma menina, os preconceitos que enfrenta e a importância do acolhimento familiar.

Ludmila é argentina e também é uma mulher trans na vida real. Segundo a entrevista que ajudou na construção do vídeo, e que o NLUCON divulga com exclusividade, ela relata muitas similaridades com o que aconteceu na obra, que vão além do fato de ter ganhado o seu primeiro sutiã aos 12 anos.

A jovem conta que desde os dois anos – ou seja há 10 anos – se vestia com peças atribuídas ao guarda-roupa feminino e que sabia que era uma menina. “Me vestia com roupas da minha irmã, com o vestido de batismo branco. Sempre colocava esse. Sempre me olhava no espelho e colocava uma toalha ou um lenço comprido para parecer a Rapunzel”, declara.

O que ela não sabia era o que teria ou poderia que enfrentar em uma sociedade transfóbica, caso não houvesse o acolhimento familiar.

EM CASA ERA LIVRE, MAS NÃO NO COLÉGIO

A mãe Daniela Galvan relata que observava a filha calçar suas botas e também fazer da toalha um cabelo longo. Com o tempo, a viu colocando as roupas da irmã e a vontade de ser uma princesa. “Pensei que iria passar, mas a deixei ser livre. Nesse tempo era ele, porque era um menino”, diz. “Em casa deixava ser livre, colocando a roupa que quisesse, mas no colégio não”.

Ludmila ia ao colégio como se fosse garoto. No jardim de infância, a pequena estudava e brincava com as demais crianças com naturalidade e havia acolhimento até quando queria se vestir de princesa. As professoras autorizavam e diziam que não era nada demais. Os problemas vieram a partir da primeira série, se agravando nas séries seguintes, quando ela se dirigia para a fila de meninas e sofria preconceito dos demais alunos.

“Isso era um problema porque eles a atormentavam e ela reagia. O problema, para a diretora, era a Ludmila, a Ludmila. E foi assim em quatro colégios. Não tínhamos ajuda, era como se fosse nada”, lembra a mãe. Durante um tempo Ludmia reagia, mas depois começou a sair da situação chorando. “Eles me atormentavam o tempo todo, dentro e fora, e os professor não percebiam”, lamenta.

A situação só mudou quando Daniela teve contato com pessoas que explicaram os direitos das crianças e das pessoas trans. Foi quando ela interviu no colégio e fez reuniões. “Me orientaram que ela poderia ser chamada como quisesse no estabelecimento e que poderia se vestir como quisesse, que havia uma lei. Eu não conhecia essa lei e, em seguida, assinei tudo como Ludmila. Ainda sem trocar sua identidade. Hoje ela tem a identidade trocada. Mas foi muito difícil”, declara.

A ESCOLHA DO NOME E MUDANÇAS

Daniela lembra quando escutou a filha, então com seis anos, pedindo aos céus para ser menina. Foi quando ela garantiu à filha que o pedido se realizaria. “Ela pediu a Jesus para ser menina e eu disse que ele ia cumprir. Que Jesus ia cumprir e a mamãe também. E no outro dia já mudou, foi uma troca de roupas e pronto”.

Ludmila diz que a mãe e a irmã foram tudo para ela, pois eram as únicas que a apoiavam em tudo. A adolescente conta que o nome foi escolhido por ela, por conta do desenho chamado Violetta. “Faz muito tempo. Tinha uma personagem que se chamava Ludmila e eu sempre dizia para a minha irmã: ‘Eu sou Ludmila’. E a minha irmã dizia: ‘Eu sou Violetta. Daí veio tudo, eu gostei do nome”, diz.

A mãe afirma que tudo ocorreu de maneira natural e que não sente que houve uma troca de menino para menina. Apenas uma mudança de guarda-roupa, mas que se trata da mesma pessoa. “Sempre pensei dessa maneira, porque ela sempre foi uma menina por dentro e por fora um menino. Mas ela é uma mulher e por dentro uma menina”, declarou. “Mas não é que foi uma mudança. Foi uma mudança de vestimenta, da sua imagem, porque ela sempre foi o que é agora”.

De toda a experiência com apenas 12 anos, Ludmila já carrega alguns aprendizados e a gratidão ao apoio da mãe: “Sejam vocês, como quiserem ser, sejam. Sejam livres, não se escondam. Se gosta de fazer algo, faça. Foi o que minha mãe me disse e ela me ajudou. Obrigada mãe, te amo”, dando-lhe um beijo e um forte abraço.

A história emociona, inspira e aparece como uma luz no fim do túnel, sobretudo porque o acolhimento familiar não é uma realidade na vida de inúmeras crianças e adolescentes que são trans. O que torna a vida dessas pessoas muito mais complicada, alvo de preconceito dentro do espaço familiar e em muitos casos colocando-as sujeitas à vulnerabilidade social e ao suicídio. Que o vídeo inspire cada vez mais!

Assista ao filme:

Cliente: ANTRA
Assistência de direção: Bárbara Aranega e Bárbara Cury
Direção de Fotografia: Guillermo Muse
Direção de Arte: Patricia Pereira
Figurino: Kleber Lucin
Make hair: Miriam Kanno
Produção Executiva: Edgard Soares Filho
Coordenação de Produção: Ana Paula Domingues
Direção de produção: José Alfredo Sahm
Produção: Janaína Mesquita
Coordenação de Pós-Produção: Alexandre Fernandes
Assistência Coordenação Pós-Produção: Gabriel Leça
Motion/Composição de imagens: Warriors e Willian Santos
Edição / Montagem: Rodolpho Ponzio
Finalização: Poliana Pompeo
Assistência Montagem/Central de Cópias: Pedro Viciti e Whelton Lopez
Produtora de som: Cabaret
Color: Marla

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