Pontos positivos e negativos sobre o filme “Girl” e o retrato de uma personagem trans

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Por Helena Agalenéa

O filme belga “Girl” (2018), do diretor cis Lukas Dhont, vem chamando atenção do público brasileiro – e das pessoas que buscam trabalhos no audiovisual que falam sobre pessoas trans –  desde que estreou na plataforma de streaming de vídeo Netflix.

Escrita pelos roteiristas cis Dhont e Angelo Tijssens, a obra conta a história de Lara (Victor Polster), uma adolescente trans de quinze anos que quer se tornar uma bailarina profissional. Ela recebe a ajuda do pai para entrar em uma escola de dança, mas se depara com diversas barreiras.

Com grande repercussão em festivais e prêmios – como Melhor Performance no júri do Festival de Cannes e Troféu Sutherland no Festival de Cinema de Londres – o filme vem causando debates. Tanto pela temática, qualidade, roteiro, escolha de elenco e a maneira de se abordar e tratar a transgeneridade na adolescência.

Helena Agalenéa, artista da cena, poetisa e bruxa travesti brasileira, apontou em seu perfil no Facebook pontos positivos e negativos do filme. O NLUCON traz o relato com para você. Para quem assistiu ou não, é uma maneira mais rica, crítica e embasada para (re)assistir e refletir pessoas, corpos trans e obras. Confira:

“Pontos positivos x negativos, pelo MEU ponto de vista, e do porquê eu achar o filme tóxico para pessoas trans, mas para as cis também na real.

Pontos positivos:

– A Relação de Lara com o pai: 

No filme vemos um pai que apoia a filha, cuja relação floresce da forma mais orgânica e afetiva possível. Um pai compreensivo, não existe o dilema da “menina não aceita x a família” que já foi esgotado. O filme é muito bonito e sensível ao contextualizar a relação de Lara com pai e irmão mais novo.

– Denúncia das microviolências:

Existem várias cenas que mostram como a cisgeneridade compulsória pode ser violenta para pessoas trans. Cenas que considero “micro” que são muito eficazes: mulher grávida falando que vai ser mãe de menino, Lara não tomando água na frente das outras pessoas, Lara não conseguindo flertar e olhar no olho dos rapazes. Cenas violentas mais explícitas, mas que achei interessante: lista de chamada, pedir pra Lara fechar os olhos enquanto o professor pergunta para as meninas cis quem se sente desconfortável com a Lara usando o vestiário; Lara no vestiário tomando banho.

– Pessoas trans são algo além de trans:

No filme vemos o como a Lara é determinada a ser dançarina e o quanto ser criada “enquanto menino” a deixou em desvantagem na sua vida profissional, já que ela quer ser bailarina e nunca foi treinada na ponta, por ter “sido menino”. Ela corre atrás disso porque quer muito dançar. E o filme vai mostrando a evolução dela. Então ela não é Lara a trans, e sim Lara a dançarina.

– Discurso do psicólogo:

Muito interessante o psicólogo e o pai insistirem que veem uma linda mulher olhando para ela sem a hormonização, o entendimento de que ela é mulher independente de qualquer procedimento ou hormonoterapia. Mas aqui corre o risco de ser interpretado também como pessoas cis querendo dizer o que é melhor para pessoas trans. De qualquer forma, acho que está na hora de retratarmos pessoas trans que são confortáveis com seus corpos (risos).

 

CONTRAS:

– A Lara é chata

A personagem não tem desenvolvimento quase. Parece que a personalidade dela é baseada em quanto ela odeia o próprio corpo e a vida dela só gira em torno disso. Nós sentimos PENA da Lara no filme, e não tesão, amor, carinho, não sentimos que ela é uma puta personagem massa que a gente quer ser amiga. O que dá mais para torcer é com a dança, como ela é determinada, mas não sustenta.

– Fetiche pela genital trans

Tem cenas lindas no filme como ela de pau duro e super feminina, amei essa cena, mas de resto existem muitos enquadros na genital dela e não para colocar o pau dela enquanto pau de mulher bonita, mas sim para mostrar o incômodo dela com o próprio corpo, existem váááŕios enquadros e zooms que só valorizam o corpo dela tratando o corpo dela como algo “estranho”.

– Transfake

É um ator cis que faz a Lara.

– Fetiche da violência

Parece que a transgeneridade dela se resume as violências que ela se impõe: aquendar com várias fitas até o pau sangrar, o final do filme, o medo e vergonha do corpo, não tomar água e ficar apertada para urinar sempre. A gente não constrói uma narrativa de aceitação ou de evolução da personagem em relação a si mesma, mas parece que a “empatia” do filme se propõe a vir pro “coitadinha dessa menina que se odeia, se mutila e se esconde, é violentada e se violenta”. O problema não é retratar disforia, mas sim a forma fetichizada e masturbatória com a qual o filme faz: os clímax são a Lara odiando o próprio corpo e se machucando por isso.

– Empatia pelo coitadinha

Gente, ela é uma tadinha. Não existe força, desejo, alegria, impulso de vida na personagem. A gente quer cuidar e acolher ela porque ela se fode e se machuca e é violentada o filme inteiro!! Eu já sei que pessoas trans sofrem, sei o que é ter vergonha do corpo, sei de tudo isso… Que tal agora contrabalancear um pouco? Mostrar também violência e como a cisgeneridade é tóxica, mas por que não mostrar também a força das pessoas trans, as alegrias que sentimos, por que não mostrar a real beleza de nossos corpos… Por que não poetizar nossos afetos, conquistas e vitórias em vez de somente fazer a dor e a mutilação virarem poesia?

– Dirigido e estrelado por pessoas cis

Pra mim é isso, o filme retrata como as pessoas cis vêm a gente: coitados, fracos, que só se fodem pela sociedade e merecemos pena. Eu não quero pena, eu quero gozo, amor, alegria, trampo, tesão! Real empatia!

Enfim… pra mim é isso. Esse filme perpetua a visão de que a pessoa trans nasceu no corpo errado e não tem personalidade porque só quer reproduzir “esteriótipos” e é fraca, não sabe amar nem ser amada, não sabe se valorizar e não é valorizada… Fiquei muito com essa sensação. Me deixou NA BAD ver esse filme, e por isso não o recomendo.

Mas fiquei curiosa de saber das pessoas que gostarem o que viram de bom! Bora debater. Não sou rainha da verdade, nem nada. Geminiana que sou adoro o bom diálogo!

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* Helena Agalenéa é artista da cena, poetisa e bruxa travesti. Viciada em desenhos, quadrinhos, filmes e narrativas em geral, luta por representatividade legítima de corpos trans.

Um comentário sobre “Pontos positivos e negativos sobre o filme “Girl” e o retrato de uma personagem trans

  1. Vou comentar, você falou que pode… rs Sou das bruxa atrevida então…

    Concordo muito com muito do que você falou. Talvez o grande ponto diferente é que realmente não me incomodou um atro cis, pois penso que pela necessidade de apelo dramático uma atriz trans de 18 anos já estando em TH traria mudanças corporais que poderiam diminuir o impacto neste sentido. Desta forma duas coisas me incomodam mais: direção e roteiro cis tentando contar a história de uma trans (pois ai realmente vejo uma profunda perda). E o que achei de pior: todo um filme masculino: ator, diretor, roteirista, cara do som… Tudo masculino tentando contar uma história sobre construção de feminilidade. Para mim o pior “pecado” do filme é este! Pois é já complicado para uma mulher trans reivindicar de forma plena esta feminilidade e se afirmar nela, e se tem só homem falando sobre “construção de feminilidade”, sério, para mim o ponto mais fraco do filme e mais comprometedor.

    Concordo demais que o filme tinha potencial para ser melhor nos aspecto da aceitação de corpos trans independente de mudanças e penso que este talvez seja o discurso mais importante atualmente para a comunidade trans. E concordo que infelizmente o filme não atinge isso, ele apenas começa este discurso com o psicólogo mas não evolui a ponto de deixar claro (onde vejo a profunda falta de um roteiro e direção trans, com pessoas que entendam de gênero). E esta parte vai impactar no problema que você aponta na genitália e volta ao problema da aceitação do corpo trans sem que ele tenha que ser uma réplica do corpo cis. Eu realmente penso que é vital o questionamento sobre conceitos de passabilidade e cirurgia de redesignação, pois não é isso que nos faz mulher! Penso que é preciso insistir no discurso e no esclarecimento de gênero para que se perceba que o gênero não esteja relacionado ao corpo, e portando, limitado a ele.

    Bem, o filme não me deixou mal, mas não me serviu também, na perspectiva de uma pessoa trans. Me pareceu um filme para pessoas cis, mas poderia ser melhor pois tem elementos para perpetuar erros conceituais sobre pessoas trans, como o fato de todas terem problemas com genital. Aliás, pensando aqui, novamente a falta de pessoas trans dirigindo e roterisando, há muitas boas introduções de discursos com o psicólogo e o pai, você citou psicólogo, eu cito a conversa com o pai sobre a sexualidade que ela começa a descobrir e como ele aborda de forma simples o fato de que Lara tanto poderia ser hétero como lésbica ou bi e isso não se relacionar com ela ser trans. Mas, infelizmente falta o aprofundamento necessário.

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