Repercussão do vídeo da prostituta travesti cobrando pastor cis tira o velho véu da hipocrisia

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Uma profissional do sexo travesti entra em um culto evangélico acusada o pastor cisgênero de dever dinheiro para ela, após ter realizado um programa sexual. “Vai lá, dá o cu, chupa pau e não quer pagar?”, declara ela, deixando o espaço. Um fiel grava a cena e o momento viraliza, chegando até a mídia LGBT, evangélica e hegemônica. Em sua defesa, o pastor grava um vídeo e declara que é tudo mentira e uma armação de invejosos.

Sem se ater aos pormenores do caso ou determinar quem está certo ou errado é preciso dizer que todo interesse das pessoas em assistir e compartilhar o vídeo não se dá apenas pela mera fofoca ou pelo bafo da vergonha de ter sido cobrado em público. O interesse se vê pautado em discussões históricas envolvendo religião, igreja, preconceito à comunidade LGBT, prática sexual e principalmente na hipocrisia de muitos líderes religiosos e de pessoas que incitam o preconceito.

Nas duas versões, há uma hipocrisia religiosa escondida como pano de fundo, além da transfobia, que se viraram contra os seus próprios acusadores. Afinal, por que a sexualidade é vista como algo proibido, pecado e digno de castigo? Por que somos tão moralistas quanto ao sexo pago consentido por duas pessoas maiores de idade? Por qual motivo ser visto em um relacionamento com uma travesti é algo vexatório? Qual é o problema de se relacionar com uma travesti? Ou então, por que é possível que uma travesti se coloque em posição vexatória por interesse de terceiros? E a igreja: ajuda a combater a transfobia ou aumentá-la? Ajuda a diminuir os tabus ou eternizá-los?

Para além das reflexões, a repercussão se dá porque é possível enxergar naquele pastor um reflexo de tantos outros homens possíveis e reais. O homem que num espaço público diz que ser travesti é uma aberração e, às escondidas, é o mesmo que sente atração, desejo e que até paga para ter momentos a sós com ela. O homem que em uma pregação condena o sexo e o sexo anal é o mesmo que faz tudo aquilo e muito mais na vida longe dos olhos do público. É aquele que aponta o dedo condenatório, mas esquece que as mãos estão lambuzadas de gozo. São inúmeros casos em todo mundo em que o autor da fala preconceituosa e moralista é o seu próprio algoz.

Não estou reivindicando ou cobrando um comportamento exemplar de líderes para só assim validar suas falas problemáticas. Estabelecer amarras morais em algumas pessoas para que outras pessoas achem razoável a possibilidade não ajuda em nada. Ao contrário, tais falas fogem da mais básica coerência cognitiva ao se pensar na natureza humana e no respeito a pluralidade, então intensificá-las é o mesmo que eternizar tabus e preconceitos – o que só continuaria prejudicando a vida de diversas pessoas que fogem às regras pré-estabelecidas em sociedade, nunca as acolhendo verdadeiramente.

A repercussão do vídeo e do episódio ajuda mais uma vez tirar o já conhecido véu da hipocrisia. É a sociedade que está acostumada com um pastor ofendendo uma travesti em nome do direito a liberdade de expressão. É a sociedade que está acostumada a ver pastores discriminando profissionais do sexo, pois está na Bíblia que é errado. É aquela que está acostumada vê-lo dando escapadinhas, porque no fundo ele é um homem de Deus. E que até se diverte quando uma travesti entra na igreja para cobrar um programa sexual e faz um bafo. Mas que definitivamente se revoltaria se essa mesma travesti quisesse entrar naquele espaço como noiva e falar de amor.

Em um mundo ideal, menos hipócrita e mais coerente, a travesti poderia cobrar a dívida legalmente, sendo levada a sério, baseada em direitos trabalhistas, afinal a prostituição já estaria regulamentada enquanto profissão. As igrejas seriam um espaço de verdadeiro acolhimento e não mais um espaço de opressão. E o pastor, ao ser vítima de uma sabotagem, poderia dizer: “Não fiz, mas se fizesse, isso não deveria ser nenhum problema”. Ou quem sabe apostar no clássico: “Devo, não nego, pago quando puder”.

Um comentário sobre “Repercussão do vídeo da prostituta travesti cobrando pastor cis tira o velho véu da hipocrisia

  1. Olha, é muito simples: enquanto houver religião nunca haverá amor, respeito, igualdade. Seja do que for! E nem há muito o que discutir até por religiosidade ser muito diferente de religião e religião e moral religiosa sempre estar relacionada a um modo de exclusão e demonização de algo. É possível exercer religiosidade enquanto construção “sagrado e profano” numa relação pessoal de melhoria pessoal a partir de perspectiva teológica. Mas não é muito possível, em fatos, a ligação amor, respeito e igualdade se há o seguimento de uma moral religiosa a partir de algum templo ou religião. Por haver a demonização daquilo que não se aceita enquanto comportamento humano. Hoje sabemos que toda a maldade humana está baseada no desenvolvimento cultural e na propagação da educação para a masculinidade tóxica, e as religiões possuem uma base bastante favorável para fundamentar e validar esta educação e cultural. Então não tem muito o que fazer ou do que se defender ou de como se escapar.

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