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Conheça Divine, a Drag Queen que foi inspiração para a vilã Ursula da Disney

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Por Victoria Hope

 Não é surpresa dizer que a indústria cinematográfica nesse exato momento se encontra na era de ouro dos remakes, principalmente de Disney, o que possibilita que públicos mais novos entrem em contato com histórias que fizeram parte da infância de muitos que nasceram entre os anos 80 aos 90.

Malévola, Cinderella, Bela Adormecida e mais recentemente, Aladdin, Rei Leão e até mesmo Mulan, ganharam versão live action esse ano e é claro que os rumores a cerca de uma possível nova adaptação de A Pequena Sereia não poderiam deixar de tomar forma nesse cenário.

Um dos contos mais aclamados na história da Disney, conta a história de Ariel, uma jovem sereia fascinada pelo mundo acima d’água e que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando se apaixona por um humano e a partir daí, decide mudar seu corpo para ir encontrar seu amado na superfície.

Apesar da própria animação de Pequena Sereia ser uma adaptação de um dos clássicos dramáticos de Hans Christian Andersen, a animação é muito mais leve e infantil, mesmo assim, como todas animações dos Estúdios Disney, é claro que não poderiam faltar algumas ‘piscadelas’ para o público mais velho.

E é nesse exato momento que a Divine, drag queen dos anos 80, entra em ação para inspirar um dos maiores ícones da Disney clássica.

A primeira vez que o público se deparou com Úrsula, a vilã do filme A Pequena Sereia, de 1989, muitos se chocaram e ficaram maravilhados pela força e poder da personagem. Escondida em sua caverna, após comer uma minhoca, ela surge flutuando na água, revelando um vestido preto elegantíssimo e sua forma corpulenta, exuberante, com seus oito tentáculos e muitas curvas salientes.

Ela vestia dois brincos de concha enormes e um colar pesado, acompanhados de uma maquiagem azul exageradíssima, que ia até suas sobrancelhas. Seus cabelos brancos eram bufantes e ela exalava poder, elegância e acima de tudo sensualidade.

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Úrsula era absolutamente tudo o que Ariel não era e exatamente por isso é considerada uma personagem tão subversiva. Essa foi a primeira representação de uma mulher gorda, sensual, poderosíssima e carismática no cinema infantil e apesar de ela ser a vilã da história, ainda assim se tornou uma das personagens favoritas na história da Disney.

Você deve estar se perguntando como Divine, uma das drags mais polêmicas do mundo, se tornou inspiração para a icônica Ursula. Segundo um artigo do portal Hazlitt, Howard Ashman foi o responsável por trazer a inspiração de Divine aos estúdios da Disney durante a produção do filme.

Para quem não conhece a figura, Howard Ashman era não apenas o dramaturgo e compositor de “Little Shop of Horrors’, como também uma conhecida figura da cena LGBT de Baltimore os Estados Unidos e tanto ele quanto Divine, frequentavam a mesma cena, justamente na mesma cidade.

Quando Ashman viu o fracasso de sua peça da Broadway chamada Smile, criada logo após Little Shop, ele e seu parceiro desistiram da área de musicais e foram tentar a sorte, buscando por emprego na Disney.

Tanto Howard quanto seu parceiro Menken receberam a oferta de um dos produtores executivos da Disney, para criar a trilha sonora de uma das futuras animações dos estúdios e ambos artistas aceitaram a oferta sem pestanejar, sendo que essa oferta era nada mais nada menos que A Pequena Sereia, uma das novas grandes apostas de produção da Disney na época.

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Ashaman, sendo também escritor de teatro e compositor, pensou que o filme poderia ser como um dos musicais da Broadway e que as músicas deixariam o filme mais rico e divertido ao invés de apenas mudar as cores das cenas para criar essas sensações.

Quando os animadores começaram a trabalhar na figura da vilã Úrsula, chegaram a vários designs diferentes, mas nenhum conseguia ser aprovado por quem batia o martelo quanto ao design e foi aí que Howard sugeriu uma de suas inspirações, a própria Divine.

Um dos animadores da chamado Rob Minkoff , desenhou então uma figura gorda, cheia de jóias e com maquiagem pesada e todos concordaram que essa personagem tinha mesmo a ‘carinha’ da Divine. Assim, Úrsula se tornou um dos maiores ícones da animação que todos amam e conhecem hoje.

Infelizmente Divine não pôde ver a personagem em seu lançamento, pois havia falecido um ano antes da estreia oficial da animação da Disney, o que foi uma pena.

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Quem foi Divine?

Nascido Glenn Milstead em 9 de Outubro de 945, Divine foi uma das mais polêmicas drag queens de sua época nos Estados Unidos, chegando até a entrar na lista da People’s Magazine como uma das drags mais influentes da história.

Conhecida na noite de Baltimore, Divine era completamente ‘fora da caixinha’, uma drag irreverente, nada convencional e obscena. Além das músicas polêmicas, Divine também fez coisas inimagináveis, como por exemplo, comer um coco de cachorro de verdade durante as filmagens de ‘Pink Flamingos’.

Seu assessor da época, Bernard Jay, costuma dizer que Divine era um misto de ‘trash’, com sujeira e obscenidade. Ele não estava errado, é claro, mas Divine tinha muitos outros talentos, sendo um deles a música, que lhes rendeu vários hits de sucesso dos anos 80, além da atuação, outro dom que Glenn possuía.

Divine era o que a indústria chamava de epítome do ‘camp fashion’, moda de vanguarda nascida na cena LGBT norte americana.

A vida da Drag mudou completamente quando ela conheceu o diretor de filme John Waters, outro ícone do cinema trash e camp. O diretor amava tanto o trabalho de divine, que a escolheu como sua musa para a vida toda e cada um de seus filmes trazia a drag como protagonista das histórias.

 Juntos, John e Divine fizeram diversos filmes que ficaram para a história, incluindo um dos mais chocantes e aclamados títulos do diretor, ‘Pink Flamingos’, uma espécie de “mockumentary” (documentário fictício e ‘zueiro’) que conta a história de Divine, uma mulher bizarra e sua família desajustada que competem com um casal ‘tradicional’ envolvido com pornografia e narcotráfico pelo título de `Pessoa mais Repugnante do Mundo’, concedido por um tabloide americano.

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O filme foi um marco para a carreira de John e Divine, principalmente pelo grotesco momento onde Divine chega a comer um coco de verdade que pegou na rua. Em alguns momentos do filme, não sabemos se aquilo tudo fazia parte do alter ego real de Divine, ou se era apenas tudo atuação.

De diva do trash, à musa se inspiração para um dos maiores ícones da Disney, Divine sem dúvida marcou história no cinema e vai ficar para sempre na memória de todos que já assistiram suas produções.

Quer saber um pouco mais sobre a vida de Glenn / Divine? Então não deixe de assistir ao documentário “I’m Divine”, que traz depoimentos de diversas celebridades, diretores, amigos e produtores que fizeram parte da vida da drag.

* Victoria Hope é jornalista, editora chefe da Amélie Magazine e geek de carteirinha

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