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Luca Scarpelli, do Transdiário, revela como construiu o homem que é e quer ser

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Luca Scarpelli: “Mudanças físicas são o de menos” (Foto: Bernoch)

O publicitário Luca Scarpelli é um dos homens trans de maior sucesso nas redes sociais. Dono do famoso canal Transdiário, no Youtube, ele fala sobre sua transição de gênero, entrevista pessoas sobre transgeneridade em múltiplos assuntos e faz dos seus aprendizados os aprendizados de seus quase 100 mil inscritos.

A trajetória de Luca, dada as suas especificidades, assemelha-se a vivida por inúmeros homens trans de sua geração. Ainda que se identificasse com o gênero masculino desde a infância – e um vestido enterrado por ele aos 4 anos evidencie isso – Luca passou muitos anos sem conseguir colocar em palavras o que é. Chegou a entrar na caixa de lésbicas, mas ainda não era isso.

Foi durante a “Caminhada Pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito”, em 2016, que ele teve contato pela primeira vez com dezenas de pessoas trans ao mesmo tempo. Foi o clique que ele precisava para se entender e, posteriormente, contar para a então namorada, para os pais e iniciar os diversos processos de transição. No meio dos seus aprendizados, tornou-se uma referência para muitos garotos da nova geração.

Curiosamente, foi durante a Caminhada que encontramos Luca e combinamos de ter um bate-papo exclusivo para o NLUCON. Demorou um ano até conseguimos transformar o encontro em realidade. Aqui, falamos sobre diversos assuntos, sobretudo o processo de se construir o homem que é e quer ser. E como lidar com nossos próprios preconceitos. Deste feat incrível posso dizer que Luca é um cara inteligente, incrível, fofo e merecedor de todo o sucesso.

Confira em vídeo e em texto:

– Fazendo um paralelo com o nome do seu canal, Transdiário, você já chegou, em algum momento da sua vida, a ter um diário de escrever?

Tinha, era mais na minha adolescência e tal. Cara, eu escrevia literalmente como diário. Escrevia todo dia, como “Ai, hoje eu acordei e tava de mal humor” (risos). Você lia e era um report da minha vida. Era maravilhoso. E o canal eu coloquei esse nome porque eu queria que fosse isso no início, sabe? Que fosse meio que um relatório da minha transição, como iriam ser as mudanças, o que estava acontecendo e tal. Mas acabou que foi para outro lugar também de trazer pessoas, de falar outros aspectos de identidade de gênero.

– Com quatro anos, você teve um episódio em que você enterrou um vestido. Relendo o seu diário, pode dizer que já havia questões que mostravam que você não se identificava com o gênero feminino e, sim, com o masculino?

Com certeza. Hoje, olhando para trás, eu consigo ver isso. Mas na época eu não fazia a menor ideia do que era. A minha infância foi muito neutra, no sentido de que eu tenho um irmão mais velho e a gente brincava muito junto. Eram poucos os momentos de constrangimentos que eu passava por ser uma “menina” naquela época. O problema aconteceu a partir da adolescência. Foi quando eu parei e disse: “opa, tem alguma coisa errada aqui”.

– Foi quando os caracteres secundários começaram a se desenvolver…

Exato. Com o tempo eu tentei me enquadrar, eu achei que estava louco, que estava viajando. E aí depois de um tempo eu me entendi enquanto lésbica e achei que essa era a solução: “Pronto, resolvi o problema”. Só que não. Continuou o problema e eu vi que não era uma questão de sexualidade. Era uma questão de identidade de gênero. Foi um grande caminho. Eu fui me assumir e me entender enquanto um cara trans eu tinha 25 anos já.

– Fiquei feliz quando li que na primeira Caminhada Pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito – em 2016, que foi quando eu estive na organização, você esteve e… Conta como foi?

Cara, foi um dos dias mais emocionantes da minha vida. Eu fui por causa de uma amiga, que é trans. Ela falou: “Vai ter essa caminhada, eu não vou poder ir, porque vou estar trabalhando, mas vão lá porque é super importante”. Eu fui e na minha cabeça eu estava indo por causa da minha amiga… Só que quando eu cheguei lá e eu olhei aquelas pessoas, eu fiquei em choque. Eu lembro que eu olhava para meus amigos, eu olhava para a minha ex-namorada e, tipo, “cara, sou eu que estou aqui”. Chorava horrores. Foi para mim o primeiro grande estalo de que eu era trans. Para mim, este evento marca muito a minha transição, a minha vida.

– Você chegou a ir em outras?

Sim, fui em várias. Só esse ano eu não consegui ir. Eu quero ir em todas. Na Parada LGBT, o que tiver para o pessoal trans, eu vou. Estou nessa agenda.

– Esse processo de autodescoberta e de se aceitar enquanto pessoa trans pode ser um dos mais difíceis. O que você acha que elas (pessoas trans) precisam saber nesse momento? O que você diria para você mesmo se pudesse voltar atrás com a experiência de hoje?

Primeira coisa que todo mundo precisa saber é: as mudanças físicas são o de menos. Porque quando eu comecei a transição eu achei que era o principal. Tipo: vou fazer a mastectomia, vou tomar hormônio e aí a minha vida está resolvida. Não. O mais difícil é todo o resto que vem junto. É como as pessoas passam a te tratar, é como as pessoas passam a interagir com você, é como você começa a se enxergar. Então tem toda uma parte psicológica e de interação social que é muito mais complexa do que o que acontece quando eu tomo testosterona, entendeu? E é isso que eu gostaria de falar para mim mesmo quando eu estava começando a transição. É, tipo, “cara, relaxa, essa parte é sussa, a parte difícil é a psicológica, vai lá, conversa com o psicólogo, esteja com o psicólogo sempre por perto”.

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Luca Scarpelli: “Tento construir o homem que sou com muito cuidado” (Crédito Bernoch)

– Nesse início você chegou a conversar com alguém? Com quem você se abria?

Bem no iniciozinho foi a minha ex-namorada. Mas depois de um tempo passou a ser outros meninos trans. Cada vez mais que eu conhecia outros meninos trans a gente ia criando meio que um clãzinho. A gente perguntava pro outro: você sentiu isso também? O que aconteceu quando tal coisa aconteceu na sua vida? A gente foi meio se apoiando assim. Então o que eu acho mais legal hoje, na minha transição, são todas as pessoas que eu pude reunir e que ajudam umas às outras.

– Para além das mudanças corporais, como você tem construído o homem que você se tornou?

Isso é uma coisa muito legal de perguntar e de pensar. Porque a gente, enquanto homem trans, tem uma oportunidade única que é realmente construir com critérios e cuidado qual é o homem que a gente quer ser. Não é porque a gente foi socializado desde bebê a ser um homem. A gente não aprendeu uma série de comportamentos machistas e misóginos porque a gente “nasceu um homem cis”. A gente tem a oportunidade de construir a nossa masculinidade. Então é uma das coisas mais preciosas e que eu acho mais fodas da transição.

– E como tem feito?

Tento fazer com muito cuidado. No início da transição eu tinha uma mania de reprimir ou deixar de lado a minha vivência feminina. Hoje não, eu valorizo muito a minha vivência feminina, porque ela me dá uma base de sensibilização e de conhecimento do que é ser mulher, que me ajuda muito a construir o que eu quero como homem. Tipo, eu me pego muitas vezes pensando: “Eu não vou falar isso desse jeito porque vai soar machista. Vou reconstruir essa frase”. Quando uma mulher está falando, eu paro um pouco de falar e deixo ela falar, no sentido de não vou interromper a fala dela. Uma série de coisas que tento mudar para não cair no lugar desse macho escroto. É o nosso diferencial e a gente pode fazer isso de uma maneira muito legal.

– Os primeiros homens trans que eu conheci, há 10 anos, sequer davam beijo no rosto de um homem gay ao cumprimentar porque “homem não beija homem, mesmo que seja gay”. Vejo que com o tempo muitos homens trans começaram a ver que não precisavam se apegar a estereótipos machistas e nesse masculino tóxico, ainda que haja casos e casos.

Acho que tem um recorte que é importante a gente colocar, que é o da passabilidade. Como eu sou uma pessoa muito passável – ou seja, se eu não falo que sou trans as pessoas não sabem – isso me traz uma série de privilégios. Então eu posso agir de uma maneira tida como “mais feminina”, posso abraçar os meus amigos e dar beijo, posso usar uma roupa tida como “feminina”, porque no máximo as pessoas vão achar que eu sou viado. Não vão falar: “ah, é a menininha ali que está achando que é menino”. Várias vezes tem alguns meninos trans que reforçam esse lado masculino tóxico para reforçar o masculino. Para, tipo, ele dizer: “Eu sou um homem”. Às vezes até de maneira inconsciente. Eu acho que não é necessário, mas eu entendo de onde vem.

– Você chegou a ter esse momento de usar essa masculinidade tóxica para reforçar sua identidade?

Antes da transição eu era bem mais macho escroto (risos). Enquanto lésbicas cis, eu tinha comportamentos machistas tóxicos. Mas quando passei pela transição, esses comportamentos foram revelados enquanto machistas. Porque se é uma menina que está performando o machismo a gente meio que passa um pano e finge que está tudo bem. Mas quando é um homem ali fazendo aquilo está na cara. Comecei a levar umas chamadas das minhas amigas, do tipo “isso que você está fazendo é mó escroto”. E foi ótimo para mim, porque eu comecei a reparar e a perceber que realmente estava sendo escroto. E aí comecei a rever vários comportamentos que tinha. Eu tinha a necessidade de reafirmar esse masculino muito maior quando eu não tinha essa passabilidade.

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Luca Scarpelli: “Vivemos em uma sociedade preconceituosa” (Crédito: Bernochi)

– É interessante isso que você diz porque muita gente, quando lhe apontam o preconceito, tenta ficar se justificando, não reavalia que pode ser uma pessoa melhor.

Toda vez que alguém me chama de preconceituoso, eu falo: “Sim, eu sou preconceituoso”. Nasci em uma sociedade preconceituosa, então o meu comportamento natural é ser preconceituoso, não vou justificar. Respondo: “Beleza, entendi, agora me explica porque você está achando isso e como você acha que eu posso fazer melhor?”. É o ponto de partida que a gente deve sempre ter. Eu tenho vários amigos, héteros cis, que chegavam para mim e falavam: “eu não sou homofóbico, eu não sou transfóbico, é que eu não gosto disso. É uma questão de opinião”. Ai, meu Deus! Aí eu chegava e explicava com todo o amor e carinho: “Não estou falando que você é um ser humano lixo. Eu só estou falando que essa ação que você fez aqui ela é homofóbica ou ela é transfóbica. E tudo bem porque você cresceu numa sociedade que é homofóbica e transfóbica. Então isso pra você é o normal. Agora vamos parar aqui e vamos pensar em como não fazer isso de novo?”. É importante ter esse exercício de humildade e falar: “não, eu erro”.

– E é um exercício diário, porque muitas vezes não é na primeira explicação que a gente vai resolver.

Total. Eu estava em um evento ontem, em que várias pessoas negras estavam conversando entre elas. Aí eu escutei alguém falando: “ai, porque esses brancos, não sei o quê”. O meu primeiro pensamento foi: “Nem todo branco é assim”. Mas o meu segundo pensamento foi: “Você engula essa frase agora e fique bem quieto na sua, primeiro porque essa conversa não é com você e segundo porque todo branco, sim, faz isso”. A gente tem que ter esse exercício o tempo todo.

– O que você descobriu e que não imaginava tendo uma vivência trans?

Que dentro da comunidade LGBT tinha muito preconceito. Eu vivia em um lugar muito privilegiado da comunidade LGBT. Eu era a lésbica bonitinha, branca, da zona sul e blá blá, e nunca tinha passado na pele. Muitas vezes eu fui o agente do preconceito, por exemplo, de chamar de maneira pejorativa alguém de poc, de pão-com-ovo, da bichinha afemininada.

– Com as travestis você tinha preconceito?

Pelas travestis eu sempre tive um respeito muito grande. Pela questão de estar na rua, se prostituindo, e de ser esta travesti visível para mim naquela época, eu as via como mulheres fortes pra caramba. Os homens trans eu não sabia da existência. O primeiro contato que eu tive foi com o Tarso Brant, quando ele foi no Pânico. Naquele momento eu nem sei se foi positivo ou negativo, foi um bug na minha cabeça. Mas foi o primeiro estalo. Não foi da melhor maneira possível, ele mesmo já falou sobre isso, mas foi importante.

– Você tem consciência que o seu canal ajuda muitas pessoas?

Isso é o que me move e me faz continuar todo dia. Eu recebo todo tipo de mensagem, desde “lindo e gostoso” até “aberração da natureza”. Mas as que eu mais amo e que faz o meu dia valer a pena é: “Luca, vendo os seus vídeos eu comecei a me entender”, “Eu usei um vídeo seu para contar para a minha família”. Isso eu choro. Antes de vir pra cá eu estava numa agência em que a gente fez uma campanha do Google, para a Visibilidade Trans, e eles estavam mostrando vídeo de resultados. Daí tinha vários números bonitos: aumentou a pesquisa em X%, teve tal resultado positivo. Mas aí teve uma frase que me fez chorar horrores. O Demétrio, que é um dos meninos que fez parte da campanha, ele tinha uma relação difícil com os pais. Daí no vídeo apareceu: “O Demétrio recebeu uma ligação do pai dele falando que o pai dele tem orgulho dele”. Nossa, eu chorei. É isso, é sobre isso. Não importa os números. Importa o Demétrio ter recebido essa ligação.

– Qual é o seu maior sonho?

É não ser necessário produzir mais conteúdo sobre transexualidade. É de ser uma coisa tão natural, tão normal, que não é mais necessário falar sobre isso.

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Luca Scarpelli (Crédito: Filipe Alberto)

– E se você parar de falar sobre transexualidade no canal, do que você vai falar?

Eu sou publicitário, né? Então mesmo que eu pare com o canal – que é pouco provável, viu gente. Às vezes eu tiro umas férias e fico sem postar, porque não sou obrigado também e tenho esse lugar de tirar um tempo pra gente, reavaliar as coisas e tal – então se eu parasse algum dia, eu certamente continuaria trabalhando com diversidade. Mais no cunho de comunicação, marketing, consultoria para empresas, mais por esse lado. É o que eu já faço. O pessoal só olha o que dá para ver, a fachadinha, Transdiário. Eu trabalho com consultoria, trabalho em agência para fazer campanha. Isso me ocupa bastante tempo e também é um trabalho importante, a gente sensibilizar essas pessoas, conseguir que grandes marcas como Google e Doritos falem sobre o tema


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Um comentário em “Luca Scarpelli, do Transdiário, revela como construiu o homem que é e quer ser Deixe um comentário

  1. Incrível a entrevista dele e fundamental a clareza sobre estarmos inseridas na situação do preconceito onde somos condicionadas a esta normalidade do preconceito que abraça todos os nichos sociais. Então o fundamental é exatamente isso: reconhecer-se como incluso no sistema de preconceito para que se desconstrua estes preconceitos e se possa seguir.

    E de fato a comunidade LGBT é muito preconceituosa, e desunida. Então, são situações muito complicadas.

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